O
HOMEM QUE MICTAVA
(Rev)
Era ruim de cama, como ele próprio se definia. Não no
sentido sexual da expressão, mas na condição de quem tinha históricos problemas
em desfrutar de uma simples noite bem dormida. Seus problemas começaram bem
cedo, ao que se recordava, em sua profunda infância, passada no casarão de seus
avôs, povoada por um sem numero de fantasmas e assombrações. Seus tios, que
eram inúmeros, viviam a lhe contar amedrontadoras histórias dos que já tinham
partido, mas que teimavam em atormentar a paz dos vivos. E eram muitos os
mortos, em tempos de grandes famílias e imagens de antepassados gravemente
pendentes de solenes porta-retratos. A religiosidade onipresente, a fraca
iluminação noturna da época e a luxuriante vegetação da enorme chácara em que
viviam propiciavam um perfeito quadro para os delírios da imaginação.
Havia histórias particularmente horrendas, como a da
aparição da mão-cabeluda, a
aterrorizar um de seus tios em noites de pavor, e a da alma de Caganéia, o ectoplasma de um morto de uma família vizinha,
e que sobrepairava as muito escuras noites da mata, onde apenas os valentes
ousavam penetrar. Em meio a tais sustos, Camacho freqüentemente se debatia no
inglório esforço para dormitar. Com maior ou menor intensidade, tais fantasmas
ainda o perseguiriam em sua vida adulta, na cama ao lado de sua esposa ou sozinho,
em quartos de hotéis aonde seus compromissos profissionais freqüentemente o
levavam. Somente conseguia dormir no escuro absoluto, aonde nenhuma sombra
viesse sugerir aterradora materialização.
Aos
poucos, o pavor do sobrenatural em Camacho foi em muito sendo substituído por
outros poderosos desestímulos ao conciliar de seu sono. As preocupações
escolares, as excitações amorosas, as atribulações profissionais e, finalmente,
seus deveres de pai e provedor foram cumulando Camacho com uma carga de
estresse da mais variada somatização. Sofrera achaques de diversas formas,
providencialmente seu organismo se encarregando sempre de, automaticamente,
administrar danos definitivos que uma superexposição de um órgão poderia
trazer. Se havia períodos de forte mal estar gástrico, e esse era
particularmente recorrente, Camacho podia estar certo de que essa mazela cedo
ou tarde seria sucedida por uma virose, por dores na coluna, inapetência sexual
ou por qualquer outra forma de exteriorização de seu desequilíbrio.
Desequilíbrio do Chi
era como os chineses chamavam esse infortúnio do viver na desarmonia do Yin e do Yang, isto Camacho aprenderia mais tarde em seus estudos de textos
orientais. Não podia precisar quando começara a sua rotina de levantar-se à
noite para efetuar micções, para mictar,
como inventara dizer. O certo era que, aos cinqüenta e cinco anos, suas
lembranças o asseguravam que acordava para mictar há pelo menos vinte e cinco
anos. Fôra exatamente aos trinta anos de idade que Camacho, quinze inacreditáveis
mictadas que se sucediam a cada vinte minutos, vira descer vaso sanitário
abaixo sua esperança de um sono minimamente repousante, em madrugada de
exasperante vigília de uma sessão de defesa de tese acadêmica, programada para
as sete horas da manhã, e para a qual se preparara por longos anos. Aquilo fora
certamente uma coisa excepcional, quinze mictadas em uma única noite era um
recorde que jamais viria a ser superado. Salvo por um ou outro memorável
evento, dos quais Camacho guardava o desafortunado travo de sete, oito
mictadas, os anos que se seguiram foram de uma desconfortável, porém
relativamente estável ritualística urinária. A Camacho era negada a perspectiva
de uma reparadora noite ininterruptamente dormida. De sono leve, muitas vezes
difícil de conciliar ao deitar-se, o pobre homem era muito facilmente acordavel
por qualquer estímulo, fosse um leve ruído, fosse por preocupações não
apaziguadas, fosse pela necessidade de mictar.
- Isto é excesso de líquido que você toma, dissera-lhe
o convencional doutor, quando o bom Camacho tentara pela primeira vez enfrentar
o problema. - Se você tomar muita cerveja durante o dia é óbvio que vai acordar
para urinar, sentenciou o esculápio. Camacho, já nessa época, bebia muito pouca
cerveja. Perdera o paladar para essa bebida, que lhe causava uma sensação de
plenitude grávida. De qualquer forma decidiu por uns tempos parar completamente
com a cerveja, não beber mais qualquer líquido duas horas antes de dormir, e
observar o resultado. Nada, não conseguiu fazer qualquer relação consistente
entre o consumo de álcool, ou mesmo de água, e o numero de mictadas noturnas.
Passou a preencher minuciosos diários, na busca de correlações entre os
acontecimentos de um dia e as mictadas da noite. Nada.
Ao convencer-se de que o seu problema era o do
“Desequilíbrio do Chi” dos chineses, a vida em descompasso energético, ou
simplesmente neurose, como de maneira muito mais pobre descreveriam os
especialistas ocidentais, Camacho iniciou uma peregrinação esotérica: meditação
transcendental, ioga, acupuntura, massagem oriental, taichi-chuan, taek-wondo,
shiatsu, kum-nye. Foi um desfile de orientais de todas as procedências.
Venerandos mestres de artes marciais chinesas e coreanas, santidades hindus,
rimpoches tibetanos, enérgicos japonesinhos de shiatsu, sensíveis massagistas
zen, renomados acupunturistas. Por mais notáveis que tenham sido os benefícios
que tais experiências lhes tenham trazido, de nenhuma delas Camacho recebeu a
tão ansiada cura para o seu nefando mictar noturno.
Mas, Camacho nunca esteve só nesse mictar. Seu velho
pai sempre lhe hipotecara a solidariedade de outras tantas mictadas, décadas a
fio depositadas no vaso sanitário que, mais do que sua própria cama, o
acompanhava em suas vigílias. A Camacho, ao menos isso servia, mais do que de
consolo, de uma confirmação de que seus males proviriam tão somente de uma
neurose: se o seu velho pai há tanto tempo esvaia-se em urinadas, sem que lhe
sobreviesse qualquer manifestação maligna, era mais do que provável que a si próprio
também estivesse reservada uma longa vida mictante. Entretanto, como salutar
cautela, o sinistro exame de próstata tornou-se, ao passar dos quarenta, mais
do que recomendável.
O urologista recebeu-o com bastante dignidade e, ao
invés da tão temida dedada no ânus, prescreveu-lhe uma “ultra-sonografia da
próstata, por via transretal (com transdutor bi-plano linear de 7,5mhz e
convexo de 5,0 Mhz) com complemento do estudo por via supra-púbica”, ou seja, a
introdução rabo adentro de um aparelho sensor acoplado a um monitor que, da
forma mais dolorosa, exibia suas vergonhas internas a uma diligente operadora
do diabólico instrumento. Nada foi constatado e o urologista, ao examinar os registros
obscenos, cumprimentou-o efusivamente pelo brilhante resultado. - Mas, doutor,
e a polaciúria? (Camacho aprendera que o termo aplicava-se à necessidade
imperiosa e freqüente de urinar). - Isso não é nada, é apenas uma excitação dos
terminais. - Não é conveniente fazermos nada.
As mictadas eram enervantes. Podiam ser curtas e
rápidas, podiam ser longas e demoradas, “mijadas de um quilometro e meio”,
conforme Camacho sentia aquele prolongado jato de minuto e meio de duração a
escorrer falo abaixo. Havia noites em que o volume de líquido expelido em três
ou quatro dessas prodigiosas urinadas seria capaz de pressupor um emagrecimento
de alguns quilos; surpreendentemente, contrariando os princípios da física,
Camacho sempre acordava com seu sonolento peso inalterado. Havia problemas de
logística nas mictadas: dormindo em seu próprio ambiente, Camacho sabia
encaminhar-se quase roboticamente até o vaso sanitário; entretanto, ao dormir
em ambientes estranhos, ele freqüentemente trombava com insuspeitados
obstáculos ocultos nas trevas que o protegiam da visão de seus temores.
Conduzir o jato urinário para baixo era um problema sério quando a própria
repleção da bexiga fazia enrijecer a tripa mictante, apontando-a para cima. O
torpor do sono muitas vezes forçava Camacho a apoiar-se contra a parede, para
não cair, enquanto projetava sua mijada. Inúmeras vezes ele lutava contra a
necessidade de levantar-se, tentava retomar o sono, despistar a vontade de
mictar. Inútil. O máximo que conseguia era dormir mais alguns minutos
perturbados por um sonho em que ele inevitavelmente procurava um lugar para
mijar.
Os sonhos. A urgência urinária finalmente sendo
saciada em um onírico WC, até descobri-la mais presente que nunca no frustrante
despertar para uma realidade de um membro duro e latejante de mijo. Desespero.
- Sua energia na região do ventre está muito mal, auscultou sua sensitiva
homeopata. - É a sua dificuldade em chorar, quando você aprender a chorar isso
vai acabar, arriscou sua analista. - É cuca, completou sua esposa, sem dar
muita atenção àquela obsessão.
Aquela noite Camacho acordou com a maior vontade de
urinar do mundo. Ao levantar-se da cama, sentiu um enorme cansaço de tudo, uma
revolta contra o maldito carma que o condenava a tal abjeção. Precisava dar um
fim ao seu infortúnio, torturava-se enquanto, apoiado à parede despejava uma
cálida torrente espumante no meio do vaso. Passou-se muito mais tempo do que o
normalmente gasto com as grandes mictadas até que Camacho começou a relaxar, a
curtir a urinada, aquele jorro sem fim que botava para fora todos os agravos
que apodreciam em sua alma. A sensação veio então de paz, de entrega total.
Camacho mijava, mijava, era uma fonte inestancável. Não voltou mais para a
cama. Ao amanhecer, sua esposa, ao procurá-lo no banheiro, encontrou apenas um
vulto apoiado à parede e uma calça de pijama desabada sobre um par de sandálias
de borracha.
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