terça-feira, 15 de maio de 2018

Agora é o WhatsApp



Agora é o WhatsApp

Escrevi uma série ensaios sobre os efeitos da irreflexão provocada pelo uso excessivo das modernas técnicas de comunicação virtual. “Ninguém mais lê e-mails” (leitura arrevesada de e-mails e textos em geral), o primeiro deles, seguindo-se “Ninguém mais escuta nada” (escuta arrevesada), ambos postados neste blog, e “Ninguém mais checa nada” (distribuição de hoaxes), são três desses artigos.  Sobre o progressivo uso do celular como câmera fotográfica no espaço público – casas de shows, teatros, estádios - e a consequente reação da sociedade contra a prática, escrevi “Desligue o celular”.
“Ninguém mais lê e-mails”, uma resenha do livro “O que a internet está fazendo com as nossas cabeças”, de Nicholas Carr (AGIR, Rio de Janeiro, 2011), assim começa: “Há muitos anos minha atenção vem sendo despertada para um fenômeno que constato no dia a dia das relações sociais: ninguém mais lê e-mails. Isto não significa necessariamente que eles, pura e simplesmente, não sejam mais lidos pelos destinatários, embora isso possa de fato ocorrer. Mas o sentido da minha afirmação é o de que com uma alarmante frequência as pessoas não fazem mais uma leitura linear de textos na forma em que a humanidade o fazia até o advento da internet. A leitura atenta dos textos vem sendo rapidamente substituída por uma leitura salteada, sôfrega, um garimpo de palavras capturadas aqui e ali por um olhar lançado de relance sobre a tela dos celulares, laptops, desktops tablets, Kindles e congêneres. Como resultado, tem-se, frequentemente, uma distorcida captação do conteúdo da mensagem, levando a respostas equivocadas, desentendimentos, estresse nas relações, desperdício de energia, tempo, dinheiro etc. E essa leitura salteada e desatenta nem de longe se limita a e-mails; ela se aplica a qualquer tipo de texto eletrônico.” Registre-se que efetuei diversas palestras sobre o tema em universidades, em centros culturais e para outras plateias predominantemente jovens, logrando plena atenção e gerando fecundo debate.
O tempo passa e hoje o e-mail é uma ferramenta muito pouco utilizada pelos mais jovens, ficando bem mais restrita à comunicação profissional. Em seu lugar surge o WhatsApp, aplicativo disponível nos aparelhos celulares e que como meio de comunicação já supera largamente aquele para o qual o celular foi concebido: a telefonia. Basta lançarmos um olhar ao redor e veremos que, em toda a parte, uma grande quantidade de pessoas está lendo ou escrevendo mensagens via WhatsApp. No metrô, nos ônibus, nos restaurantes, na plateia de cinemas, teatros e de shows, caminhando nas ruas, no interior dos lares, em qualquer lugar. Crescentes alertas quanto a esse abuso parecem relegados ao total descaso. A postura corporal exigida no uso do aplicativo causa problemas na coluna vertebral. O desperdício de precioso tempo em consultar e responder à mensagens tantas vezes irrelevantes, redundantes, notadamente de extensos grupos de contatos. O surgimento do estresse, da ansiedade. O risco incorrido ao dirigir teclando o WhatsApp, uma postura ainda mais perigosa e irresponsável do que falar ao celular. A atenção posta no aplicativo em locais públicos, notadamente nas ruas, expõe o usuário à um ponderável risco de assalto, queda, atropelamento.  E a escrita? Muito mais do que no moribundo e-mail, a escrita no WhatsApp dolorosamente maltrata o vernáculo. Não se trata aqui de pretender que seus usuários sejam um Machado de Assis ou um Carlos Drummond de Andrade, mas, sim, que redijam com um mínimo de consistência, para se fazer entender corretamente pelo interlocutor.
E há o problema do desencontro. Curiosamente, os aplicativos feitos para aproximar as pessoas, utilíssimos para aquelas fisicamente distantes, acaba por afastar as muito próximas, até mesmo literalmente ao lado. Tente falar alguma coisa com um dependente do WhatsApp enquanto ele checa ou digita suas mensagens. Você terá a nítida impressão de estar falando para as paredes, de que suas palavras simplesmente não são captadas, respostas “hum...hum... aham...aham...” ao seu pedido de confirmação de escuta não lhe darão nenhuma garantia de recepção. A propósito, acabo de receber um WhatsApp em que dois homens estão sentados à mesa de um restaurante. O mais velho tenta obter respostas do mais novo que, atracado ao celular, somente grunhe, se tanto. Num dado momento, o mais velho, irritado, arranca o celular da mão do jovem e o atira longe. “O que é isso, você não pode fazer isso, cara, tá maluco? – protesta o jovem. É quando surge em cena um terceiro personagem que ensina que “É claro que pode, pode sim, de acordo com a Lei 12.944, recentemente aprovada pelo Congresso Nacional, você pode quebrar o aparelho celular daquele que não prestar atenção naquilo que você está falando.” Trata-se, é claro, de um hoaxe, citando uma lei inventada, que seria absurda até mesmo num país surreal como o Brasil. Mas há quem acredite na mensagem, e a repassa, afinal: “Ninguém mais checa nada”, não é? Brincadeira a parte, o fato é que o checador/remetente de mensagens não está ali ao seu lado, está na nuvem. Não escutará o que lhe foi falado e, consequentemente, daquilo não terá qualquer lembrança, podendo até negar ter ocorrido a fala do outro, ensejando um problema na relação.
Para que se tenha a memória de um momento é necessário que ele seja vivenciado, a pessoa precisa estar presente, com seus sentidos em alerta. Como poderá alguém reter na memória aquilo que sequer foi captado pelos sentidos, no caso ilustrado, pela audição?  Como escreve a psicóloga Linda Davidoff (MAKRON Books,1980), “perceber, estar consciente, aprender, falar e resolver problemas, tudo isso requer aptidão para armazenar informações. A percepção e a consciência muitas vezes dependem de comparações entre o presente e o passado. A aprendizagem exige a retenção de hábitos ou de novas informações. Para falar é preciso lembrar-se das palavras e de pelo menos algumas regras gramaticais. A solução de problemas baseia-se na retenção de cadeias de ideias. Mesmo as atividades geralmente consideradas não intelectuais, tais como mexericar ou lavar pratos, dependem da capacidade de recordar. De fato, quase tudo o que se faz depende da memória.” Como retemos acontecimentos na memória? Estando atentos, prestando atenção, vivenciando os fatos. E pelo exercício da técnica da mneumônica, uma associação de ideias ou fatos difíceis de reter a outros mais simples e familiares, logra-se uma extensão da capacidade da memória, podendo-se recordar de fatos ocorridos há muitos e muitos anos.
Ninguém em sã consciência está pregando a satanização do WhatsApp. Ele deve ser usado como importante conquista tecnológica, para transmitir mensagens relevantes ou meramente lúdicas, mas atentando-se para a contrapartida altamente nociva da dependência ao seu uso.
Maio/2018

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Uma questão de Ética (2)

Uma questão de Ética (2)

Há cerca de um ano postei novamente no meu blog um texto sob o título “Uma questão de Ética”, no qual o professor Ben Dupré, em seu livro “50 ideias de filosofia que você precisa aprender” (Planeta, 2007) coloca a seguinte situação:
“O sr. Quelch não sabia se tubarões tinham lábios e, se tinham, se podiam lambê-los; mas sabia que, se tivessem e pudessem, era exatamente isso que estavam fazendo agora. O balão caía cada vez mais rápido na direção do mar, e ele podia ver claramente, descrevendo círculos na água, as muitas barbatanas dos tubarões reunidos para jantar (...) O sr.  Quelch sabia que nos próximos dois minutos ele e os melhores alunos de Greyfriars [uma escola fictícia britânica] virariam isca de tubarão ― a menos que se livrassem de mais lastro. Mas tudo já havia sido jogado fora do cesto ― tudo o que restava eram os seis meninos e ele. Era óbvio que só Bunter tinha peso suficiente para salvar o dia. Uma situação difícil para o Corujão Gordo, mas não havia outra saída... [está implícito que o sr. Quelch, o único capaz de manejar o balão, não seria uma opção de alívio de lastro].”
            Só existem mesmo duas opções: os seis meninos, incluindo Bunter, caem no mar e são devorados pelos tubarões, ou apenas Bunter é jogado no mar e comido. Para Bunter, o desfecho seria o mesmo, iria morrer de qualquer forma, mas, no caso dele ser atirado fora do balão, os demais se salvariam. É o que se chamaria uma “Escolha de Sofia”. Dupré provoca: é valido sacrificar Bunter? O fim (salvar várias vidas inocentes) justifica o meio (tirar uma vida inocente)? O que você faria? Está em jogo uma importante linha divisória de ética ― a linha que separa as teorias baseadas no dever (deontológicas) e as baseadas nas consequências (consequencialistas).
            A postagem original gerou um estimulante debate. Voltei a refletir sobre o tema ao ler um dilema semelhante, mas em escala imensamente mais radical, proposto por Dostoiévski em seu livro “Os Irmãos Karamazóv”, evocado pela escritora Sara Bakewell em seu livro “No café EXISTENCIALISTA”. Ivan Karamázov propõe ao seu irmão Aliócha que ele se imagine possuído de um poder tal que fosse capaz de criar um mundo no qual as pessoas vivessem em completa paz e felicidade até o fim da História. Mas há um preço a pagar, esclarece Ivan. Para isso, Aliócha teria que torturar até a morte uma pequena criatura, um bebê, por exemplo. Você faria isso? - Inquire Ivan, recebendo como resposta um categórico não de seu irmão, para quem nada justificaria a tortura de um bebê, não importa a título de que. Trata-se novamente de uma posição deontológica, semelhante àquela adotada por aqueles que, no dilema anterior, não atirariam o jovem Bunter ao mar para salvar o restante dos ocupantes do balão.
Dostoiévski era uma importante referência para muitos dos filósofos existencialistas. Assim sendo, a colocação do grande escritor foi objeto de manifestação da parte de diversos expoentes dessa corrente filosófica. Albert Camus posicionou-se inteiramente favorável à escolha de Aliócha. Em seu ensaio “Nem vítimas nem carrascos” escreveu: “Jamais voltarei a ser um daqueles, sejam quem forem, que fazem concessões ao assassinato”. Qualquer que fosse o resultado, comenta Bakewell, “ele não apoiaria nenhuma justificativa formal da violência, sobretudo por parte do Estado.” Jean-Paul Sartre, em meados da década de 1940, tinha uma posição semelhante à de Camus, pelo que veio a ser criticado por outro expoente do existencialismo, Maurice Merleau-Ponty, em sua fase pró soviética. Posteriormente Sartre, assim como Simone de Beauvoir, se afastaram daquela posição, considerando “que era possível e até necessário pesar e medir as vidas de uma maneira judiciosa, e que Aliócha, com sua posição, fugia a tal dever. Passaram a achar que não fazer esse cálculo - contrapor um bebê agora a milhões de futuros bebês - era puro egoísmo, ou simples melindre.” Sartre faz uma contundente crítica à postura deontológica de Aliócha, o personagem fictício de Dostóievski (qual seria a escolha do grande escritor?), e de Camus, personagem bastante concreto. Mas seria o caso de se perguntar a Sartre qual a garantia de que matando o bebê daquela maneira perversa se estaria salvando milhões de bebês futuros. Não há garantia alguma, uma decisão consequencialista numa situação extrema como essa, ou em qualquer outra que envolva derramamento de sangue e mortes em larga escala, será alicerçada em uma profunda convicção de que esse será o preço para atingir-se uma sonhada utopia, entendida como “qualquer descrição imaginativa de uma sociedade ideal, fundamentada em leis justas e em instituições políticas e econômicas verdadeiramente comprometidas com o bem-estar da comunidade” (Houaiss). Nessas situações a decisão será sempre uma aposta, diferentemente do dilema do balão, onde se poderia estar certo de que o sacrifício de um dos meninos salvaria o restante dos seus ocupantes. Poderíamos configurar ainda uma infindável série de situações em que a opção consequencialista atingiria as consequências almejadas. Imagine-se, por exemplo, um médico num campo de batalha ao se defrontar com um soldado com ferimentos extremamente graves em uma das pernas, já em vias de gangrenar. Não há cura possível para a perna, mas a amputação muito provavelmente terá como consequência salvar a vida do soldado. Vale o sacrifício da perna condenada. O médico exerce essa escolha, em si pesarosa, mas necessária se o objetivo primordial é salvar uma vida.
É natural que em situações em que numa sociedade submetida a condições de extremo sofrimento e injustiça muitos se sentirão tentados a optar por alternativa consequencialista, uma revolução por exemplo, na esperança, ou profunda convicção, de que o derramamento de sangue será o preço a o pagar para mudar radicalmente a condição opressora da sociedade. A opção seria justa, os fins justificariam os meios, como creem os marxistas. Mas, novamente, não há garantia de que, findo o processo, a nova ordem será melhor do que a anterior. Superado aquilo que o sociólogo Francesco Alberoni chama “de estado nascente”, do encantamento do povo com a nova condição, poderá advir um progressivo desencantamento com a transformação atingida. Tal situação é ilustrada por George Orwell em sua fábula política “A Revolução dos Bichos)”: “As criaturas de fora [da sala] olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco.” ― constatavam os demais bichos que os porcos, tendo assumido ditatorialmente o poder após a revolução dos bichos, que expulsara os donos da fazenda, seus exploradores, com o apoio e o entusiasmo de todos os bichos da fazenda, agora adotavam os vícios dos humanos e confraternizavam com eles num festim de falsidades, jogatina e bebedeira.
Quem está certo? Trotsky, ao afirmar que “O fim pode justificar os meios enquanto houver algo que justifique o fim.”, ou Immanuel Kant, que delineia um caminho o mais oposto possível de se conceber aos sistemas cuja ética seja baseada nas consequências? Cabe a cada um exercer com integridade a sua escolha diante de uma situação concreta, muitas vezes demandando reação imediata. Ressalve-se, por fim, que tal escolha poderá ser oposta àquela exercida no momento do mero exercício intelectual. Conhecendo-se a personalidade e a história de vida de Sartre, Trotsky e Camus podemos acreditar firmemente que eles numa situação real seriam coerentes com suas concepções filosóficas: Sartre e Trotsky pelo consequencialismo,  e Camus pela deontologia. O comum dos mortais teria tal coerência?

Abril/2018

domingo, 1 de abril de 2018

Finitude





Finitude

Durante alguns anos, eu e um prezado amigo cultivamos um gosto comum: o de escrever crônicas e outras formas de manifestação literária, e postá-las, cada um em seu próprio blog.  Sempre que fazíamos uma nova postagem alertávamos um ao outro, na expectativa do recebimento de uma generosa recepção. Nossos contatos eram basicamente no mundo virtual, eu o conhecia, assim como a sua família, mas nossos encontros físicos eram pouco frequentes. Circunstâncias da vida.
 Esse amigo tinha uma escrita elegante e de grande apreço ao vernáculo. Deliciei-me, particularmente, em acompanhar a sua querela com Millôr Fernandes a propósito de uma crase, quando o grande humorista escrevia no antigo Jornal do Brasil. Millôr era conhecido por sua brilhante inteligência, talento múltiplo, humor ferino e domínio do idioma, mas, também, por um temperamento irascível. Pois não é que o meu amigo ousou argumentar que não cabia uma crase em um texto do Millôr? Contrariando todas as expectativas, sua colocação foi educadamente recebida, embora contestada. Na tréplica, meu amigo apresentou novos argumentos contra a crase. Mais uma vez Millôr respeitosamente analisou a argumentação, concordou que ela era válida de um modo geral, mas que, naquele caso específico, cabia, sim, a crase. Assim era o genial Millôr, osso duro de roer.
As crônicas do meu amigo eram, ao mesmo tempo, ligeiras e de aguda percepção do ser humano. Prosa gostosa, delicada e ao mesmo tempo profunda.  Era com muita alegria que eu as degustava e, ainda com mais alegria, que recebia seus elogios. Ele era de uma geração anterior à minha, eu ainda nos sessenta, ele já entrado nos oitenta, sobrevivera a muitos encontros com a Dama de Negro, descritos com senso de humor em seus textos, sempre ressurgindo com espírito jovem e estoicamente aceitando as adversidades da vida. Nunca temeu o dia em que partiria para sempre, escrevia sobre isso com naturalidade, sem qualquer receio ou amargura. Um dia ele faleceu, isso ocorreu há poucos anos. Não voltei a ter contato com seus queridos familiares, dentre ao quais já não se encontrava sua amada esposa, companheira de muitas décadas e que partira alguns anos antes dele.
Por que estou falando desse meu amigo? Creio que pela sensação da minha própria finitude. Inspecionando a barra de “favoritos” em meu computador (mero acaso?), vi que o link do seu blog ainda lá estava. Curioso, fui ao blog, reli diversas daquelas crônicas, a última delas postada em 08 de maio de 2015. Meu amigo se fora, não haveria mais crônicas naquele espaço. Sensação estranha para mim. Diferentemente de um livro, e ele escrevera alguns, um produto pronto e acabado, um blog é um organismo vivo, em frequente mutação. Certa feita li que uma pessoa sobrevive à própria morte enquanto sua lembrança permanecer na memória de alguém. Obviamente não se falava de personalidades históricas como Napoleão Bonaparte, Abraham Lincoln, Lev Tolstói, Albert Einstein, Beethoven, Aristóteles e um vasto ciclo de personagens que, em suas áreas de atuação, deixaram marcas indeléveis na História, mas, sim, das pessoas comuns, aquelas que foram importantes tão somente para um limitado séquito de parentes e amigos. Livros escritos por essas pessoas estariam condenados ao esquecimento nas estantes de seus descendentes e dos amigos, até o descarte final. Cartas, bilhetes e registros de sua presença em papel fotográfico teriam idêntico destino, assim como trabalhos arquivados, já na era digital, no HD de um computar pessoal, disquetes ou CD´s. Todos esses artefatos, de existência física, mais cedo ou mais tarde simplesmente desapareceriam. Sobre essas pessoas, compondo a imensa maioria da humanidade, nenhum historiador jamais se debruçaria para discutir sua trajetória de vida, inclusive pela completa falta de material de pesquisa.
Mas, e um blog? Ele não tem existência física, é uma coletânea de dados registrados na nuvem. Mesmo que apagado do computador onde foi plantado, ele poderia ser acessado de algum lugar qualquer, ainda que congelado na última postagem, após o desaparecimento físico de seu autor, por um tempo indefinido. Não estaria, dessa forma, perpetuado? Mas, afinal, o que é a tal nuvem? É apenas uma metáfora. O conteúdo da nuvem é armazenado em um servidor, essencialmente um conjunto de HDs ligados em rede. Os prédios que abrigam os servidores, os data centers, estão espalhados em todo o mundo, são verdadeiras fortalezas, com vários níveis de segurança, tanto digital como física. Mas, é claro, não estão imunes a uma destruição provocada pela ação da natureza ou do homem, circunstância que vem preocupando a mente de cientistas afetos à Informática, à Física, à Matemática e a campos correlatos. Um apagão digital poderia trazer consequências inimagináveis à humanidade.
Então, onde ficamos? Sejam religiosos, aqueles que creem na vida após a morte, ou ateus, a vida terrena um dia se extingue, e os traços deixados pelo comum dos mortais aqui no planeta mais cedo ou mais tarde, também se extinguirão. Desolador? Não necessariamente, embora esse pensamento possa nos entristecer por instantes. Certamente nossa partida será sentida durante um tempo indeterminado por aqueles com quem mantivemos um convívio de amor e de amizade. Mas, sobretudo, devemos evocar os nossos entes queridos que já partiram não através de sofridas lembranças, mas, sim, da graça de termos com eles compartilhado momentos de felicidade neste nosso efêmero caminhar pela existência.
12/03/2018

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Pedroso



Pedroso


A princípio Adolfo, um diligente executivo que deixava o Edifício do BANCO na Avenida do Planejamento, no centro da cidade de Malversalhes, não quis admitir para si próprio o que os seus olhos teimavam em lhe informar. Deveria ser, é claro, efeito do calor. Decerto, o calor em Malversalhes em pleno verão era de lascar. Ademais, Adolfo vinha trabalhando muito, e sob situação de estresse cada vez maior. A brutal recessão, o enxugamento do quadro de empregados, a mudança permanente das regras do jogo dos negócios o estavam deixando presa fácil para todo um séquito de mazelas psicossomáticas. Outro dia mesmo sentira uma tonteira em pleno escritório e, pela janela, julgara divisar sombras estranhas. Já pensava em tirar umas férias, fazer um relax. Agora, acontecia aquilo. Realmente, não deveria estar bem: "aquilo", não era possível.

Duas freiras passam contritas, em seu hábito de abrasar, a caminho da Catedral Metropolitana e, ao avistarem aquilo param, de súbito, como que fulminadas. Apertam as mãos e, transidas, murmuram, com os lábios trêmulos: coitado...

Uma velha mendiga, das muitas que deambulam pela Esplanada das Estatais, onde se concentram os grandes templos do estatismo de Cornucópia  - olha, extasiada, um leve e doce sorriso a trair recordações de um tempo de passados enlevos.

Uma mulher chorando tristemente se afasta da cena, camelôs suspendem seus negócios, alguns cães vadios ladram, enquanto uma pequena multidão de passantes começa a parar, estarrecida.

Todos olham aquilo.

Roubava muito. Insaciável. Não roubava por necessidade, há muito nem mais por prazer. Era por inércia, aquela propriedade física que faz com que o movimento, uma vez iniciado, necessite da aplicação de uma força para detê-lo. E força para detê-lo era tudo o que não havia, muito pelo contrário. Roubavam o Presidente da República e sua malta, roubavam parlamentares, roubavam juizes, roubavam médicos e dentistas, roubavam síndicos, roubavam policiais, roubavam, é claro, os ladrões propriamente ditos, enfim... Roubavam!

Buzzinatto era um corrupto visceral. Levar vantagem em qualquer transação era para ele um dogma, algo cujo questionamento sequer roçava o nível mais recôndito de sua consciência. Levava o seu em transações comerciais e financeiras, locupletava-se na compra e na venda de produtos, na contratação de serviços e até no recolhimento de impostos. Buzzinatto estava sempre ocupando a diretoria de alguma grande empresa e, por azar dos contribuintes, alguma empresa pública. Homem de inteligência e competência profissional pouco mais que mediana, destacava-se, contudo, por sua grande esperteza, falta de escrúpulos e apetite pelo poder e, sobretudo, pela obsessão por dinheiro.

Buzzinatto era um homem de métodos mafiosos, um homem de esquemas. Isto em um país de leis indulgentes e vontade de aplicá-las ainda mais frouxa lhe deixava em grande vantagem. Especialista em maracutaias, cercava-se sempre, nas empresas, de uma turba de vassalos complacentes e puxa-sacos, os quais, lhe ajudando a montar a teia de dilapidação do erário, recebiam as migalhas que lhes comprariam o eterno silêncio. Seus critérios de decisão eram sempre sórdidos, a fundamentar-se no seu interesse pessoal ou no de algum amigo que, no futuro, se sentiria compelido a dar a contrapartida ao nobre gesto.

Mas, Buzzinatto roubava demais. Apesar de sua comprovada competência nas artes da rapinagem, todo o mercado de trabalho sabia de sua fama e manifestava desconforto com a sua presença. A teia mafiosa que ele tecera era, entretanto, inexpugnável garantia contra a ameaça que pairava sobre a cabeça de tantos e tantos trabalhadores honestos: "a rua da amargura". Porque aos honestos compete trabalhar, trabalhar sempre e bem; seu único patrimônio, sua moeda de troca, é seu próprio esforço.

Pedroso era um homem sério, seriedade era o que ressaltava em sua passagem por tantas empresas, especializado que era em implantação de novos empreendimentos industriais. Em sua saga profissional, que já durava quase trinta anos, fora responsável por negociações que chegavam à ordem do bilhão de dólares. Administrara, com total carta branca dos acionistas, incontáveis operações nacionais e internacionais, que iam da deliqüescente moeda nacional, o Cruz-Credo Novo, ao sonante Dólar, das exóticas Rúpias de Siri-Lanka ao classudo Franco-Suíço, do lusitano Escudo ao cobiçado Yen Japonês. Uma cesta de moedas que não tinha fim.

Pedroso era, repita-se, um homem sério. De poucas palavras, enfrentava cada desafio profissional como uma missão. No seu metier era conhecido como um profissional correto, competente, embora com um certo quê de ingenuidade. Não jogava para as arquibancadas. Trabalhava. Era um homem em paz com sua consciência, conquanto se sentisse, às vezes, com uma sensação de ser um alienígena em meio a tantas safadezas perpetradas pelos espertos. Quem sabe ele não seria apenas um idiota, ruminava em momentos cada vez mais freqüentes de depressão. Tentava continuar acreditando que sua honestidade seria, de uma forma ou de outra, mais cedo ou mais tarde, reconhecida. Entretanto, mais e mais o triunfo dos espertos o incomodava, a chafurda dos corruptos, a impunidade e, por fim, a glorificação da sem-vergonhice estavam lhe corroendo a alma. Era preciso fazer alguma coisa, se imbuía de um sentimento de santa e urgente responsabilidade.

A caminhada pela Avenida Central, até o restaurante "O Caçaralho" não foi nem mais nem menos constrangedora para Pedroso do que o fôra em tantas outras vezes, embora, dentro de si, surgisse a angústia de uma aziaga premonição. A degradação da qualidade de vida impingida aos habitantes de Malversalhes tem a sua apoteose na Avenida Central na hora do almoço, em mês de verão. Pedroso caminhava adivinhando espaços entre a miríade  de transeuntes, as bancas de camelôs e as bancas de jornal, os deficientes físicos e os miseráveis espalhados pelas calçadas, os buracos, o lixo e o cocô. Sabia que a qualquer momento poderia ser colhido por um arrastão de pivetes ou, mais simplesmente, ser assaltado mediante a irrefutável ameaça de um tresoitão de algum marginal ou pelo tranco de trombadinhas. Tudo isso já incorporara de tal forma que passara a ser parte de sua realidade. Ônibus jorravam em catadupas pela avenida, buzinavam, expeliam fumos lazarentos, roncavam ameaçadores, imobilizados no congestionamento que a desobediência geral aos sinais de trânsito causava.

Pedroso caminhava, a canícula era abrasadora, mas o que realmente assomava a sua consciência, como a quintessência da agressão, eram os fedores. Os fedores eram realmente fantásticos. Fedor de merda pura. Fedor de mijo podre. Muitos passos adiante penetrava em área de interesse de outro fedor: a morrinha de suor azedo de roupas nunca lavadas. Mas, logo esse fedor cedia à hegemonia de um outro ainda maior, o de esgotos arrebentados, geiseres de água pútrida espoucando nas calçadas, o qual seria por sua vez substituído pela acre catinga de sarjetas ressecadas. Havia áreas de confluência de fedores, onde exaustores de lanchonetes esguichavam a nojeira de suas frituras e o escapamento dos ônibus vomitavam seus restos de hidrocarbonetos mal queimados. Havia o lixo azedo dos restaurantes, freqüentemente não recolhidos pela Prefeitura. Era um fedor aterrador, e Pedroso às vezes imaginava que todos os fedores que se digladiavam pela supremacia das ruas iriam um dia se unir e materializar-se num mega-fedor que a todos asfixiaria.

No "O Caçaralho" encontra seu velho amigo Adolfo. Fazem suas pedidas, ele uma franciscana "posta de badejo com legumes cosidos" e água mineral sem gás, pois não sentia ânimo para iguarias mais requintadas, e o amigo "limalhas de ferro com aguarrás", que é como Adolfo gostava de designar os pesadíssimos acepipes com os quais se empanturrava , no caso, um "viradinho à paulista", e uma caipirinha. Conversam sem muita animação, relembrando velhas passagens de suas trajetórias profissionais, inúmeras dificuldades compartilhadas, muitas brincadeiras, até que, num dado momento, Adolfo faz a pergunta:

- Leu o jornal de hoje?
- Não, responde um desinteressado Pedroso.
- Está lá, insiste Adolfo, enquanto trincha uma enorme costeleta de porco, parece que o Buzzinatto vai mesmo ser o presidente da MONOPOL. Completa a frase engolindo uma tora da costeleta, barrada com um pedaço de ovo frito por cima, fitando Pedroso, que se esmera em separar as grandes espinhas de sua posta de badejo.
Mas, Pedroso não tem reação imediata. Suas feições assumem um ar de um infinito cansaço, um olhar meio vago, subitamente desinteressado do repasto.

- É, mesmo? Murmura, enfim.

- É, confirma Adolfo. Faz sentido. Repare só. Já roubou em tudo quanto é lugar. Sempre que é demitido, acaba saindo para um lugar melhor. Isso é assim mesmo, acaba ministro!

Acabam de almoçar e Adolfo despede-se rápido pois tinha que ir ao BANCO para mais um "round" da extenuante maratona de conseguir contratar um financiamento para o mais novo empreendimento a seu encargo.

Pedroso está de volta a seu escritório, mas não consegue trabalhar. O jornal aberto sobre sua mesa dá, com destaque, a já quase certa nomeação de Buzzinatto para a presidência da MONOPOL. O olhar de Pedroso está parado. Não responde sequer quando sua fiel e amiga secretária lhe oferece um cafezinho. Vera conhecia seu chefe de longa data, e estava acostumada com suas atitudes um tanto exóticas. Entretanto, sente algo de inquietante naquele olhar vidrado, alguma coisa escapando ao controle.

Subitamente, sem pressa, com fria determinação, Pedroso levanta-se de sua cadeira, pega sua maleta de executivo e dirige-se à porta de saída do escritório.Vera, temendo pelo pior, nem lhe dirige a palavra. Corre à mesa do chefe e procura adivinhar, no jornal, a razão de tão estranho comportamento. Acompanha o chefe no elevador, e ele não lhe nota a presença. Sai à rua e Vera ainda o segue, atônita.

Na Avenida do Planejamento defrontam-se dois monumentais símbolos da estatização da República de Cornucópia, os edifícios-sede da MONOPOL, uma giga "holding" da indústria, e do BANCO, o Banco Nacional de Cornucópia, a piramidal agência do desenvolvimento de tudo, ligados por uma passarela. Muito próximo, avista-se um outro ícone da "nomenclatura" nacional, o prédio do BHC, o Banco Habitacional de Cornucópia. Os três compõem aquilo que certa feita um motorista de táxi chamou de "O Triângulo das Bermudas". "É por aqui que o nosso dinheiro desaparece", arriscou, enquanto dirigia seu calhambeque cacarecado e barulhento, lobrigando, pelo retrovisor, um ríctus de desconforto na fisionomia de Pedroso, sentado no banco traseiro.

Particularmente, o prédio do BANCO é um glorioso atentado ao bom senso, com sua fria estrutura toda guarnecida em vidro fumê, em pleno inferno tropical, a consumir inimagináveis quantidades de energia em seu sistema de ar condicionado central, e a gerar fungos e ácaros, gostosamente refestelados em felpudos tapetes de asmática ostentação. Pigarreando muito, com o nariz coçando, Adolfo sai do BANCO e caminha pela passarela no sentido da MONOPOL, quando a visão literalmente o imobiliza.

- Posso fazer alguma coisa? Pergunta Vera. Não obtém resposta. Pedroso caminha obstinado, com uma determinação de assustar.

Chegando à frente da MONOPOL, Pedroso, enfim, pára. Caminha em direção ao meio da passarela por sobre a Avenida do Planejamento, frente à mureta lateral, contempla o horizonte, num olhar de adeus.

Subitamente aterrorizada pelo pressentimento de um tresloucado gesto, Vera o segura pelo paletó: - Não, por favor! Fica com o paletó nas mãos. Pedroso não mais pertencia a este mundo. Afrouxa a gravata e calmamente põe-se a desabotoar a camisa. Retira-a e a pousa cuidadosamente sobre a mureta.

Alguns transeuntes começam a diminuir o passo. Pedroso descalça os sapatos e, inacreditavelmente, afrouxa o cinto. Num gesto firme saem, de uma só vez, as calças e a cueca, igualmente pousadas sobre a mureta, ao lado da camisa, deixando-o, salvo pela elegante gravata de seda pura, irremediavelmente pelado. Calça os sapatos, ajeita cuidadosamente o nó da gravata, pega sua inseparável maleta de executivo e posta-se, por inteiro, diante do grande monumento estatal. No desespero da compreensão da auto-imolação do seu já ex-chefe, Vera retira-se e vê, de soslaio, a figura embasbacada de Adolfo. Não tem ânimo sequer de cumprimentá-lo, e começa a chorar.

Pedroso está agora, em sua nudez redentora, caminhando por sobre a passarela, no sentido do BANCO. Pára, repete o gesto de contemplação que fizera ante a MONOPOL e retorna no sentido oposto. Em sua metódica loucura flana, olímpico, para lá e para cá, por sobre a passarela, detendo-se sempre, em cada uma de suas extremidades, para contemplar, ora um, ora outro, os dois esteios da economia nacional.

A cena causa grande comoção na platéia, muda, extasiada ante aquela figura que, salvo pelos últimos símbolos que a ligavam a uma existência real - a gravata, os sapatos, as meias e a maleta executiva - parecia ter atingido a transcendência. Ninguém ousa interferir, todos estão tocados pela graça de uma renúncia tão óbvia quanto enigmática em seu significado. Nem mesmo os homens da lei se dispõem a perturbar aquele rito: o cabo Aristeu e o soldado Moura, que acorrreram ao local, recuam desconcertados, abandonam o local.

Os dias vão se passando, as pessoas vão se acostumando àquela visão diuturna de um homem nu, a executar uma caminhada sem fim. A vida volta ao seu normal na Esplanada das Estatais, os executivos cuidam de seus afazeres, os camelôs camelotam, os pivetes piveteiam. Pedroso continua caminhando. Sua barba crescida, seu cabelo totalmente desgrenhado, sua fina gravata de seda francesa, já um trapo sebento, tudo lhe confere um ar de um santo de Caxemira. Baianas lhe oferecem cuscuz que ele sequer enxerga, mendigos tentam lhe oferecer tocos de pão, Adolfo e Vera desistem de lhe trazer as quentinhas que nunca serão tocadas. Pedroso se desconectara deste mundo e as pessoas acabaram, finalmente, se desconectando de Pedroso.

A cerimônia de posse de Buzzinatto na MONOPOL foi bastante concorrida. Em seu estentóreo discurso, o grande profissional traçara em poucas palavras a tônica de sua atuação: o combate à ineficiência, ao corporativismo e, sobretudo, à corrupção. Foi demoradamente aplaudido.

Assomando à janela, copinho de uísque na mão, dois participantes da solenidade avistam uma figura esquálida, movimentando-se com dificuldade, quase vergando ao peso de uma pasta, que parecia pesar como uma cruz. Atirando displicentemente a guimba ainda acesa de seu cigarro pela janela, um deles vira-se e pergunta, casualmente, sem de fato esperar ou desejar uma resposta:

- Afinal, por que ele faz aquilo?

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

O Síndico

O Síndico

Todos os condôminos deveriam, ao menos uma vez na vida, ser o Síndico do seu prédio. Só assim eles sentiriam na carne o que significa lidar com uma comunidade.

A eleição

            Aproximava-se a Assembleia Geral de Condôminos - AGO de um prédio de classe média em um bairro bastante valorizado da cidade. Dentre outros assuntos para deliberação estava a nomeação da nova administração. A pessoa que exercia o cargo de Síndico demonstrava alívio com o término de seu mandato, e não cogitava candidatar-se a encarar um segundo. Após muitos anos de participação ativa na administração, compondo o Conselho Consultivo, Tinoco julgava que sempre conseguiria escapar do temido cargo.  Antevia perfeitamente a vasta gama de problemas que teria pela frente. Mas, daquela vez estava difícil: “Afinal, você nunca foi Síndico” - cobrou um dos colegas da administração. “Você conhece bem o prédio, todos temos muita confiança em sua capacidade, e vamos ajudá-lo.”- reforçou outro. Estava difícil escapar. Tinoco fazia parte de um grupo unido, do qual muitos integrantes já haviam exercido aquele cargo; não aceitar a candidatura seria correr o risco da eleição de alguém não comprometido com o programa de obras cuja execução o grupo considerava imprescindível para o prédio.  Ouviu seu nome ser lançado por um membro do grupo: não houve quem mais se candidatasse, e Tinoco foi eleito por unanimidade em uma AGO à qual compareceu um número muito expressivo de condôminos, o que não era comum. Isso porque da pauta constava outro item, realização de obras, sempre muito questionadas por quem não se dispunha a arcar com o seu custo, independentemente de sua necessidade e urgência. Muito cumprimentado, fez questão de encerrar a assembleia alertando que não esperassem milagres de sua administração, que iria se dedicar ao cargo com todo o empenho, mas que atentassem que um Síndico não é um empregado do condomínio. Era um recado claro que ele passava, mas que não tinha esperança de que viesse a ser captado. E logo começaram os problemas.

O Livro de Sugestões e Reclamações

Assumiu o cargo e de pronto se viu confrontado com um dos pesadelos de um Síndico: O Livro de Sugestões e Reclamações, colocado na Portaria do prédio à disposição dos condôminos. O título do livro bem que poderia ser simplesmente Livro de Reclamações, pois sugestões e reconhecimentos eram extremamente raros.
- Prezado senhor Síndico: gostaria de saber por que uma correspondência a mim dirigida chegou hoje pela manhã na portaria do prédio e eu não fui logo avisada? É um absurdo! (Ass. ---); - Prezado senhor Síndico: quero protestar quanto à desarrumação na garagem, ferramentas largadas pra todo lado, o pessoal da obra precisa ser mais cuidadoso. (Ass.---); - Senhor Síndico: o meu vizinho de cima escuta música alto a noite toda e eu não consigo dormir. O senhor tem que tomar uma providência, isso não pode continuar. (Ass.---); - Meu caro Síndico: onde está escrito que eu não posso sair com o meu cachorro pelo portão automático da garagem? (Ass.---).

Xixi de cachorro
- Senhor Síndico: o cachorro do apartamento 504, quando saiu para passear com o seu dono, urinou na garagem. E não é a primeira vez que ele faz isso. É uma nojeira. (Ass. ---) - outra reclamação recorrente no prédio. Cães, ao saírem dos apartamentos com seus donos, ou com os ditos passeadores de cães, simplesmente faziam suas necessidades nas partes comuns do prédio, sem que fossem educados a esperar pela saída à rua. Notificado da ocorrência, o proprietário do animal negou de forma irônica. - Seu Síndico, o cachorro fez xixi: dia 13, 7:12 horas. - assim estava anotado no bilhetinho que o porteiro lhe passou, obedecendo a uma ordem que recebera do Síndico para que acompanhasse, pelo circuito interno de monitoramento do prédio, o momento e o local exato em que o tal cachorro fizesse suas necessidades. Mais bilhetes: - Cachorro fez xixi: dia 14, 7:11 horas. - Cachorro fez xixi: dia 15, 7:10 horas. Era o bastante. O Síndico convidou como testemunha dois colegas da administração e localizaram as cenas da micção canina devidamente registradas no computador. Com essa prova documental em mãos, Tinoco pode então enviar uma segunda notificação, dessa feita acompanhada de multa pela infração cometida. Somente então o cão teve seus hábitos urinários adequados à higiene do prédio.

Caso de polícia
- Prezado senhor Síndico: comunico que a bicicleta do meu filho foi roubada dentro do estacionamento do prédio. Já registrei Boletim de Ocorrência na polícia. O condomínio tem responsabilidade. Aguardo seu contato. (Ass.---). - Minha senhora: o condomínio não tem qualquer responsabilidade, isso está claro no Regimento Interno. Indo à polícia a senhora vai fazer com que eu deixe os meus afazeres e tenha que comparecer onde e quando ela determinar. Isso é extremamente desconfortável para mim.

Condôminos x empregados
E havia ainda que se cuidar das delicadas relações entre condôminos e empregados, esses sempre servindo de para-raios para as descargas de mau humor e de fúria dos contestadores compulsivos. - Senhor A.? O senhor poderia vir aqui na garagem para colocar o seu carro direito na vaga?  O morador do 302 mandou eu avisar que o senhor está ocupando duas vagas. - Diz a ele pra cuidar da vida dele, eu não vou descer coisa nenhuma. E não me interfone mais sobre isso - esse era um típico diálogo mostrando um empregado numa difícil posição entre dois moradores, problema que acabava sobrando para o Síndico.

O interfone

Trrim! Trrim! O interfone é outro inferno na vida de um Síndico, invade sua privacidade, não respeita horários, seu irritante toque é sempre um prenúncio de problema; ninguém usa o interfone para cumprimentar o síndico, lhe agradecer por um serviço prestado. Trrim! Trrim! Tocou. Tinoco atendeu. - Alô? - O senhor é o Síndico, não é? Estou com um problema muito sério aqui no meu apartamento: tem uma infiltração, está minando água da parede, e vem por trás do meu armário, que está todo podre pela umidade. Preciso de um bombeiro agora para resolver isso. - Minha senhora, se o armário já está todo podre, essa infiltração está acontecendo há muito tempo; calma, eu não tenho um profissional de plantão para atender agora. - um bombeiro foi chamado para verificar, na manhã seguinte, no apartamento imediatamente acima, a provável origem da infiltração. - São 9:00 horas e o bombeiro ainda ao chegou. Vou ter que ir embora, tenho que trabalhar! - bradou, nervosa, a moradora do apartamento de cima. - É uma emergência, a senhora não pode isolar o resto do seu apartamento e deixar que eu e o porteiro acompanhemos o bombeiro na sua área de serviço? - Mas, onde está esse bombeiro? Está vindo? Quando chega? - Não sei, com esse trânsito eu não posso dizer, só posso dizer que ele está vindo. - afinal chegou o bombeiro, a moça estava de fato muito, muito nervosa. Verificada a origem do vazamento, realmente de uma tubulação apodrecida no banheiro de empregada de sua unidade, ela permitiu a necessária obra de reparo. Mais difícil ainda foi o reparo no apartamento de baixo, paredes e armários, tamanhas as imposições de horário feitas pela moradora para que se realizassem serviços em seu apartamento.

As múltiplas atribuições do Síndico

 O Síndico é visto, salvo pelas exceções de sempre, com antipatia e, de fato, como um empregado do prédio que está na posição para resolver de imediato, não somente os problemas do condomínio, mas também os da rua e até mesmo questões pessoais e caprichos de muitos condôminos. Em tempos passados era fácil exercer esse cargo. Um Síndico típico podia ser um militar da reserva ou um alto funcionário público aposentado, qualquer um deles a administrar com mão de ferro o seu feudo. Mas os tempos eram outros. Com a mudança de cultura da sociedade após longos anos de ditadura militar surgiu a hipertrofia dos direitos em detrimento dos deveres. Aquele condomínio era um laboratório para estudar-se os vícios de toda uma coletividade. As pessoas não mais pensavam no bem comum, a lhaneza no trato e na argumentação fora substituída pela agressividade e pelo vale tudo para assegurar os seus pretensos direitos, seja pela pura e simples intimidação, seja pela ameaça de processos judiciais. Nessa judicialização da vida ganha quem pode pagar bons advogados, entendidos como aqueles que cobram caro e sabem tirar vantagens de tecnicalidades e brechas da lei em benefício de seus clientes. Alem das graves responsabilidades atinentes a um Síndico, espera-se que questiúnculas do dia a dia entre condôminos sejam também por ele resolvidas. Em um prédio com 50 unidades, como era o caso, e admitindo-se em média quatro moradores por unidade, alem de uma empregada doméstica, tem-se uma população fixa em torno de 250 pessoas, alem do quadro permanente de funcionários. Soma-se a isso um grande número de visitantes do círculo social dos moradores, de prestadores de serviços, de entregadores de mercadorias etc. e se tem uma microcidade, um laboratório onde se pode estudar os vícios de uma coletividade individualista e hipercompetitiva. Em tal microcosmo encontram-se, ao lado dos cidadãos conscientes e cooperativos, aqueles que querem levar vantagem em tudo; os eternamente insatisfeitos com o que quer que a administração do condomínio realize; os criadores de caso e contestadores profissionais; os infratores contumazes do regimento do prédio (curiosamente, em geral encontradiços entre os mais contundentes críticos); os omissos; os que administram financeiramente sua inadimplência em relação às contribuições condominiais: “Pagar atrasado é uma prerrogativa minha!” - defendem-se quando solicitados a pagar em dia (o Síndico que se vire); os vândalos, depredadores e até mesmo sociopatas. Enfim, ao eleger-se um Síndico, os condôminos lavam as mãos e depositam sobre ele o peso do dever de resolver todos os problemas da comunidade, sem, contudo, transferir-lhe poder na mesma proporção

Síndico-Prefeito
Ocorreu assalto nas redondezas do prédio? Algum condômino caiu no golpe do sequestro, passado por telefone? Faltou energia por problemas na rede pública, o prédio ficando às escuras? A CEDAE esburacou a rua para um serviço e não refez o asfalto? Há um poste de iluminação pública, ainda que afastado do prédio, em avançado estado de corrosão? - eram circunstâncias que logo traziam cobranças do tipo: “Onde está o Síndico que não faz nada? Eu pago condomínio, tenho direito a segurança”. Eu pago condomínio: outro mantra recitado pelos moradores. Era bastante árduo o dia a dia de Tinoco, que sacrificava sobremaneira sua vida particular, sua saúde, no cumprimento do mandato.

Onde está escrito

Onde está escrito. Esse é um dos modos mais comuns de confrontação utilizados pelos condôminos quando instados a cumprir até mesmo orientações do mais puro bom senso. Pacientemente Tinoco organizou um conjunto de documentos que regiam as relações condominiais - a Convenção de Condomínio, o Regimento Interno e excertos de Atas de assembleias que de alguma forma suportassem medidas tomadas pelo Síndico - e endereçou uma cópia a cada um dos condôminos. - Mas, onde é que está escrito isso? - insistiam os mais renitentes ao não encontrarem nesses documentos um claro abono a uma decisão de Tinoco sobre uma questão bastante particular de um condômino. A todos ele respondia que constava no Regimento que as questões omissas deveriam ser resolvidas pelo Síndico. - É um absurdo! - protestavam os ainda inconformados, assumindo uma atitude de desafio. - era preciso ter paciência e ao mesmo tempo firmeza para lidar com a vasta gama de situações que surgiam.

Falcatruas

Entretanto, havia no condomínio um problema incomparavelmente mais grave a ser tratado por ele. Tratava-se de uma série de falcatruas que uma administração anterior à sua perpetrara, causando grandes prejuízos financeiros ao condomínio, contra o qual haviam sido, inclusive, impetradas ações na justiça. Com grande paciência e coragem Tinoco resolveu encarar de frente a situação, para isso empregando boa parte de seu tempo em vilegiatura a órgãos da administração pública, cartórios etc., em visitas quase sempre frustrantes. Seu mandato estava por terminar.

A reeleição

Chegou afinal o dia da Assembleia Geral dos Condôminos, a AGO que elegeria a nova administração do prédio. O quorum seria mínimo, caso na pauta da convocação constasse apenas o assunto da eleição, pois todos criticavam o Síndico, mas refugavam apresentar-se como alternativa.  Tinoco então fez questão de acrescentar um item: Relato do estado das providências de apuração de graves irregularidades no condomínio. Isso foi o bastante para que se consignasse um comparecimento da quase totalidade dos condôminos: 45, ao todo. Dentre os presentes estava o ex-Síndico em cujo mandato se originaram as falcatruas. Aberta a sessão pelo Presidente, o Síndico pediu a palavra e informou que faria uma detalhada exposição do que já havia sido apurado e o que restava por apurar.  Mal começou o seu relato foi interpelado de maneira furiosa pelo ex-Síndico, que, conquanto praticamente nada houvesse ainda sido exposto, para estupor geral berrou tratar-se de calúnias, levantou-se e, de dedo em riste avançou sobre um perplexo Tinoco. Vociferando injúrias e num crescendo de ira o desvairado empurrou o Síndico e lhe disse alto e bom som: “Não vou te bater, pois você não é homem”, após o que retomou o seu lugar. Mantendo um quase impossível controle Tinoco retomou então sua narrativa, deixando claro que se tratava ainda de uma investigação em andamento e tomando sempre o cuidado de não fazer julgamentos, o que caberia à justiça. Não havendo mais qualquer manifestação a respeito, no prosseguimento da AGO Tinoco foi reeleito Síndico, por aclamação. Ele aceitou permanecer no cargo, movido por um samaritano desejo de levar até o fim a investigação. Lavrada a Ata, na qual estava descrito o incidente das agressões verbais e ameaças físicas da parte do ex-Síndico contra o Síndico, foi ela devidamente assinada pelo Presidente e pelo Secretário. Era o documento que Tinoco precisava para ajuizar uma queixa-crime contra seu agressor, por lhe haver denegrido a honra.

Na Corte de Justiça

            Com uma brilhante carreira acadêmica, a jovem juíza não teve dificuldade em obter uma excelente classificação num concurso público para a magistratura. Togada, passou a ser conhecida por sua arrogância e impaciência na lida com os processos e com as pessoas. Encarava sua atuação em um tribunal de primeira instância como um mero rito de passagem para atingir posições bem mais elevadas. Ela ansiava pelo dia em que seria desembargadora, ou ministra: ela merecia isso, a indulgente auto-avaliação de sua competência profissional exigia isso. A juíza tinha boa formação, e, embora ainda lhe faltasse “janela”, no sentido de conhecimento de jurisprudência, ela já sabia razoavelmente manejar as ferramentas de sua profissão. Mas lhe faltava conhecer o ser humano. E isso viria a se demonstrar uma falha extremamente grave.
            Naquele dia a juíza estava particularmente de mau humor. Estressada, passou os olhos rapidamente no processo que tinha diante de si. Tratava-se da causa de um cidadão que alegava ter sofrido danos à sua honra em uma Assembleia de Condôminos. Não se deu o trabalho de fazer uma leitura linear do texto, saltando os olhos rapidamente sobre as linhas e páginas já se sentia suficientemente informada. Era mais um aborrecimento para ela, uma causa indigna de sua ocupação. Na sala de espera sentavam-se, tensos, de um lado Tinoco e seu advogado, e do outro lado posicionavam-se o réu e seu advogado. Já aguardavam há mais de uma hora quando a porta se abriu e eles foram encaminhados à presença da juíza. Ela não respondeu à saudação de bom dia que lhe foi feita. Secamente ordenou que todos se sentassem. Tinoco estava lívido, sua face contraiu-se num ricto, num prenúncio de que alguma coisa horrível estaria prestes a acontecer. Sem paciência, e indo direto ao ponto, a magistrada perguntou às partes se elas considerariam fazer um acordo. Adiantando-se a todos, e no limite de seu controle, Tinoco começou com voz trêmula a responder: - Eu não estou de acordo, a ação deve prosseguir. A senhora, por favor...”- no que foi rispidamente interrompido: “A senhora, não! Aqui o tratamento é Meritíssima. Quando se dirigir a mim, fale: Meritíssima!”- O senhor deve entender que fiz a proposta de um acordo porque a lei me obriga a isso. E devo dizer que considero a ação improcedente. Examinei acuradamente a questão e não há como concluir-se pela tipificação pretendida pelo senhor. - e continuou: - Discussões acaloradas no decorrer de uma assembleia de condôminos são circunstâncias da vida. (ficava claro que ela não lera a Ata, pois as agressões, devidamente lavradas naquele documento, aconteceram no início da assembleia, quando nada de relevante fora ainda trazido a baila). “No fervor emocional - prosseguiu a magistrada - é comum a descortesia no tratamento e até mesmo serem proferidos xingamentos e palavrões, o que não caracterizaria um crime contra a honra”. (a juíza sancionava o palavrão, ele poderia ter sido usado sem problemas pelo agressor). “E, quanto à reparação financeira por danos morais, precisamos acabar com a indústria das indenizações...” - não terminou sua fala. No fervor emocional é comum a descortesia no tratamento e até mesmo serem proferidos xingamentos e palavrões, fundamentou-se Tinoco nas próprias palavras da juíza para atalhar: “A Meritíssima pode então enfiar a indenização no rabo!” E prosseguiu em uma torrente de palavrões do mais baixo calão achacados contra a honra da juíza, assaltado por uma santa cólera, para perplexidade dos advogados. Terminada a catarse, a magistrada, empalidecida e com um tremor nos lábios, recompôs-se e chamou a segurança para retirar o transtornado da sala de audiência e lhe dar voz de prisão.

Epílogo

            Tinoco não opôs qualquer resistência à sua prisão, assim como não se defendeu no processo resultante na sentença que lhe valeu alguns anos de encarceramento. A ele não se aplicou a progressão da pena, uma aberração jurídica que permitia ao pior dos criminosos ser posto em liberdade depois de cumprida uma pequena fração de sua sentença E em todo aquele período de isolamento Tinoco não recebeu qualquer visita íntima, benefício concedido a tantos outros encarcerados, nem tampouco um aparelho celular contrabandeado para uma cela, com a doce complacência dos carcereiros. Jamais reclamou, estava em paz com a sua consciência.

Janeiro/2018

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

O Tempo


O tempo
Plus tard il sera
(Mais tarde será)
 trop tard. Notre vie c´est
(tarde demais. Nossa vida é)
maintenant
(agora)
- Jacques Préver, poeta francês.

Dias atrás me dei conta de que há alguns anos não marcava consulta com o meu oculista, era tempo de conferir o grau das lentes dos meus óculos. Pontual e atenciosamente o doutor me recebeu e perguntou o motivo da consulta, ao que respondi que não havia qualquer motivo especial, salvo o de conferir o grau das lentes, já que a minha última consulta se dera há uns três anos. Ao examinar a minha ficha, ele me surpreendeu imensamente ao informar que, na verdade, minha última consulta se dera há oito anos, em 2010! Meu Deus, oito anos! Perguntei exatamente quando, ele me respondeu que fora em 15 de junho de 2010. A minha curiosidade em relação à data exata tinha uma razão, saber quão próxima ela era de 08 de dezembro daquele ano, dia em que fiz uma cirurgia cardíaca, referência naturalmente muito marcante na minha vida, e sobre a qual escrevi uma crônica, “A visita da Dama de Negro”. Mas o propósito desta crônica não é escrever sobre aquele meu tangenciar o insondável, mas, sim, refletir sobre o tempo.

“Nossa vida é agora, amanhã será tarde demais”, na citação do poeta Jacques Prévert (escreveu a letra da emocionante canção Les Feuilles Morts, enorme sucesso na versão original e na versão inglesa The Autumm Leaves) em nossa epígrafe. Na mesma linha se pronunciaram escritores, pensadores, poetas, músicos, etc. Omar Kháyyám, matemático e poeta persa, em um de seus Rubáyyát: “Sê feliz um instante, o instante fugitivo que é a sua vida...” “A vida é o que acontece, enquanto você está ocupado fazendo outros planos.”, disse John Lennon, estupidamente assassinado quando ainda jovem e produtivo.

Aproveitar o tempo, proclama-se. Carpe Diem, conselho do poeta Horacio, da Roma Antiga, literalmente significando aproveite o dia, mas assimilado como aproveite o momento, desvirtuado em uma sôfrega tentativa de usufruir cada minuto da vida. O tempo está passando cada vez mais rápido, é um sentimento de tantos, especialmente daqueles que estão envelhecendo. O ano mal começou e logo chegará o Carnaval, a Copa do Mundo, as eleições, e pronto: o Natal e o fim de ano, proclamam os mais ansiosos. Urge aproveitar o tempo. Time is Money. A vida moderna em constante aceleração: “não se pode ficar parado”; Cultura do fast-food; os filmes de ação, “fechados”; fuga da angústia, ambição, avidez por dinheiro ou qualquer outra forma de passividade através da atividade permanente, somente concebida como aquela dirigida para um alvo exterior a ser alcançado, sem considerar a motivação dessa atividade que assim é, na verdade, uma passividade - Spinoza conceitua que no exercício de um afeto passivo o homem é impelido, é objeto de motivações das quais ele próprio não tem consciência; era da informação trazendo exacerbação da falta de reflexão, da comunicação veloz e empobrecimento da linguagem – José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura: “De degrau em degrau vamos descendo até o grunhido.”

O escritor argentino, igualmente Prêmio Nobel de Literatura, Jorge Luiz Borges, que deve ter levado uma vida intensa, em sua velhice lamentou: “Se pudesse viver novamente, na próxima vida tentaria cometer mais erros.” Sugere lamentar oportunidades perdidas. Quantos de nós não gostaríamos de ter a faculdade de reverter o tempo ao nosso arbítrio, voltar ao passado para aproveitar uma oportunidade perdida por medo, vergonha ou displicência? Não, não estamos falando de um sentimento doentio de arrependimento, de culpa, mas, sim, de, de alguma forma, poder reinventar episódios de uma vida, por mais que ela tenha sido, em seu conjunto, feliz. E também gostaríamos de poder voltar ao passado para usufruir momentos sublimes que vivenciamos como protagonistas ou testemunhas. Não se trata de saudosismo, de nostalgia, de se estar “parado no tempo”, um preconceito tão comumente aplicado a referências do passado quando visto sob uma ótica meramente cronológica. José Saramago nos oferece em seu livro “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (uma narrativa sob uma perspectiva bastante pessoal do autor) um singular exemplo desse desejo. Saramago escreve que certos momentos na vida deveriam “ficar fixados, protegidos do tempo, não apenas consignados neste evangelho, ou em pintura, ou modernamente em foto, filme ou vídeo, o que interessava mesmo era que o próprio que os viveu, ou tenha feito viver pudesse permanecer para todo o sempre à vista dos seus vindouros...” E elege um momento descrito na vida de Jesus, ainda uma criança, como o seu preferido para tal fim. Comungo com Saramago nesse sonho de poder revisitar o passado ao nosso bel prazer. Que coisa maravilhosa seria, por exemplo, reencontrar os meus queridos filhos quando crianças, saborear os tantos momentos mágicos de nossa passada convivência. Hoje são adultos, casados, vivendo suas vidas, mas eu minha esposa damos graça de tê-los sempre perto de nós, constituindo uma família ampliada com genro e nora e, extraordinariamente, fomos presenteados com um netinho maravilhoso através do qual, de certa forma, testemunhando o seu desenvolvimento, realizamos a fantasia de reencontrar nossos filhos ainda crianças.

 Mas, o que seria o tempo? Linear, uma sequência infinita de agoras, uma soma de instantes sucessivos, permanentes e isolados uns dos outros, como pensava Descartes? Ou, como acreditava Leibniz, o tempo seria um fluir continuado, uma unidade, uma absoluta mudança? O filósofo existencialista Jean-Paul Sartre considerava que ambas as hipóteses tomadas isoladamente levam a um impasse. Uma soma de instantes não poderia resultar em uma duração temporal, já que o instante, unidade infinitesimal do tempo, não tem extensão, logo a soma de zeros tem zero como resultado, a série se aniquila. Quanto à hipótese de Leibniz, uma mudança que constituísse absolutamente mudança já não seria mudança alguma, pois tudo o que muda, muda em relação a algo que permanece. Para Sartre, a temporalidade necessita tanto da permanência dos instantes (pois eles devem permanecer o que são, distintos uns dos outros e perfeitamente individualizados) quanto da mudança de um fluir continuado (pois eles devem estar ligados em uma síntese comum, em uma dependência mútua). (As considerações são extraídas do livro “Existência Liberdade – Uma introdução à filosofia de Sartre”, de Paulo Perdigão)

Deixando de lado as especulações filosóficas, as sociedades modernas concebem o tempo como kronos- mensurável, descrito em horas, minutos, segundos, uma mercadoria que pode ser comercializada. Isso a despeito da percepção subjetiva que indivíduos dentro dessas sociedades possam ter com relação a passagem mais ou menos rápida do tempo. Nas sociedades antigas, no campo e nas sociedades “alternativas” o tempo, em oposição, é representado pelos processos cíclicos da natureza, visto como processo natural de mudança. Artesões, artistas, homens do campo e outros trabalhando sem a pressão de uma data precisa para terminar seu trabalho, sua obra. Despreocupação em medir o tempo com precisão - relógio de sol, ampulheta, vela ou lamparina etc.

Mas Kronos não é a forma única de se conceituar o tempo. Em oposição, surge o tempo como Kairós, que significa “o momento certo ou oportuno”. Quando estamos totalmente absorvidos e vivemos no momento presente, sempre que nos sentimos apaixonados pelo que estamos a fazer ou pelas pessoas com quem estamos, empenhados, absorvidos, vivemos no Kairós. “O tempo pode ser medido com as batidas de um relógio ou pode ser medido com as batidas do coração”, nas palavras do filósofo e psicanalista Ruben Alves.

Iniciei esta crônica falando da surpresa com a minha distorcida percepção do passar dos anos. Cronologicamente, do grego kronos, transcorreram quase oito anos entre as minhas duas consultas ao oculista, enquanto eu imaginava um decurso de apenas três. O fato é que objetivamente vivemos no kronos no tocante ao cumprimento de nossas obrigações pessoais, atentos ao relógio, daí a minha “distorção”. Mas em nossa interioridade não vivenciamos as horas como todas tendo uma duração igual, 60 minutos, os dias como todos tendo 24 horas, e os anos, 365 dias. “Os dias talvez sejam iguais para um relógio, mas não para o homem”, nas palavras do célebre escritor francês Marcel Proust. Há dias que sentimos mais ou menos compridos que outros, a mesma percepção valendo para as horas, os anos. A minha sensação, como a de tantos, especialmente entre os mais velhos, já escrevi, é a de que os anos estão passando mais rápido. O que fazer diante disso? Aproveitar a vida, amar, lutar contra o cultivo do ódio em nossos corações, respeitar a alteridade, o que não significa necessariamente identificar-se com posições contrárias às nossas genuínas convicções. E, retornando a Spinoza, atentar para a existência de um outro conceito de atividade, aquele que se refere ao uso dos poderes inerentes ao homem, na mais profunda meditação, o que somente é possível em condições de liberdade interior, sem que importe a produção de qualquer mudança exterior.


Epílogo

 Já encerrara a crônica quando surgiu a necessidade de ser feita uma pesquisa nos velhos álbuns de fotografia da família. Dediquei-me à tarefa acompanhado do meu filho. Ele ao meu lado, fomos perpassando antigas fotos, nas quais, entre tantas imagens queridas, ele próprio aparecia, em diversos momentos de sua vida, desde o nascimento, fixados em papel fotográfico. Lembrei-me, é claro, de Saramago. Não podíamos voltar ao passado, mas podíamos, eu e ele, fazermos vivas as sensações que experimentávamos e compartilhávamos no momento do registro da câmera. Foi emocionante rever tantos entes queridos, familiares e amigos. Lá estávamos eu, minha mulher e meus filhos. Meus pais e meus irmãos. Meus sogros. Tios e tias. Primos e primas. Sobrinhos e sobrinhas. E amigos. Muitos já partiram, de outros nos afastamos por vontade própria ou por circunstâncias da vida. Felizmente outras relações surgiram nesse caminhar. E, sobretudo, somos, minha mulher e eu, muito felizes por termos trazido ao mundo a nossa filha, mãe do querido netinho, e o nosso filho. Eles são a nossa maior alegria, nossa maior motivação.


16/01/2018

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

NATAL


NATAL

Mudaria o Natal ou mudei eu?
(Soneto de Natal- Machado de Assis)


        Quando bem criança eu morava com meus pais e minha irmã mais velha, Suely, em um modesto apartamento em Niterói; o primeiro dos meus dois irmãos, Luiz Carlos, só veio ao mundo quando eu já completara 7 anos, e o segundo, Paulo Sergio, três anos mais tarde. O Natal era revestido de uma solenidade religiosa. 25 de dezembro é a data considerada como a do nascimento de Jesus Cristo, mas as comemorações começavam bastante antes, o propalado espírito natalino progressivamente se espalhando por toda parte. Presépios e árvores de Natal eram montados, guirlandas eram afixadas nas portas de entrada das casas, as rádios tocavam os clássicos “Ave Maria”, “Jesus, Alegria dos Homens”, “Adeste Fidelis”, “Hallelujah”, além dos clássicos populares “Jingle Bells”, “Silent Night”, “White Christmas” e outras canções, os cinemas exibiam filmes alusivos ao evento. As crianças acreditavam piamente em Papai Noel e lhe escreviam cartinhas com seus pedidos de presentes. Os adultos fomentavam essa crença. Na noite do dia 24 de dezembro, após a ceia típica da ocasião, os pais pediam aos seus filhos que, antes de dormir, colocassem seus sapatinhos ao lado da árvore de Natal, cuidadosamente montada e enfeitada para celebrar a “data máximo da cristandade”, como se dizia na época. Papai Noel. Em algum momento durante a noite ele desceria em seu trenó puxado por renas e deixaria os presentes nos sapatinhos. Os presentes naquela época, mesmo entre as famílias mais abastadas, eram muitíssimo modestos quando comparados àqueles distribuídos nos dias de hoje. A indústria nacional fabricava incipientes artefatos de madeira, de matéria plástica, de cerâmica, de metal, de pano e de outros materiais sem qualquer sofisticação ― carrinhos, aviões, jogos, bonecas etc.  Comprar brinquedos importados, dentre as poucas opções disponíveis, além de ser um luxo a que poucos se poderiam dar, não era prática comum.

       Era com enorme ansiedade que eu esperava acordar e ir ao encontro dos presentes deixados pelo “Bom Velhinho”, aquela doce figura de barbas brancas e sorriso acolhedor. O encanto terminou quando, numa noite de Natal, aquilo que já era uma forte suspeita para mim se confirmou: Papai Noel não existia, era pura lenda. Foi então que compreendi que Natal só tem graça enquanto somos criança ou quando temos crianças ao nosso lado. Quando meus irmãos se tornaram crianças aptas a acreditar na lenda, voltei, de certa forma, a experimentar a emoção natalina.

      Casei-me com a Edna, e o meu Natal passou a ser sempre celebrado na grande casa colonial dos meus sogros, Seu Dino e Dona Belinha, em Ouro Preto. A casa tinha ao fundo uma enorme chácara com toda a sorte de árvores frutíferas e criação de animais. As comemorações eram sempre grandiosas, a extensa família mineira comparecendo em peso, além de um grande número de convidados. A decoração da casa era composta de ricas peça de arte barroca.  A ceia, de uma fartura espantosa, era servida à meia noite, na passagem do dia 24 para o dia 25. Seguia-se a solenidade de entrega dos presentes postados ao lado da árvore de Natal, e que algumas vezes varava a noite, em um clima de excitação contagiante, da parte dos adultos e, sobretudo, das crianças ― sobrinhos e sobrinhas da Edna. Éramos todos felizes. E vieram ao mundo os nossos amados filhos, Juliana e Cristiano, e que em poucos anos já faziam coro com seus primos naquela festa. Ao vê-los, naquela excitação da entrega dos presentes, eu, em parte, revivia neles a criança deixada para trás naquela noite de Natal de tantos anos passados.

        Foi um Natal mágico, aquele de 1990. Chegamos, eu, Edna e nossos filhos Juliana e Cristiano, a Nova Iorque - Manhattan a poucos dias antes do 25 de dezembro. Inverno, iríamos finalmente vivenciar um Natal Branco, o tão decantado White Christmas Natal Branco da canção que embala os natais do mundo cristão desde que foi composta em 1942 por Irving Berlin. Mas ao chegarmos lá ainda não caia neve, a temperatura era agradável até mesmo para um friorento como eu. Aproveitamos para fazer um passeio pelas cercanias do Central Park e pelo Pier 42, uma área portuária restaurada e ponto de atração turística. Lá experimentamos a primeira emoção, diante da Chorus Tree, uma construção de madeira em formato de árvore, em cujos galhos se alinhavam pessoas vestidas de Papai Noel formando um coral a cantar os sucessos natalinos de sempre, terminando com a canção que virou uma espécie de hino da cidade: “New York, New York”. Foi lindo.

      Passeávamos e aproveitávamos tudo o que a Big Apple nos oferecia. Nova Iorque é uma cidade muitíssimo especial, sob tantos aspectos, e sabe se preparar como nenhuma outra para o período natalino. Lojas, prédios e árvores enfeitados, o Central Park iluminado, uma infinidade de luzinhas piscando em toda parte, uma energia contagiante no ar.  Naquele cenário, com um pouco de imaginação pode-se até acreditar que Papai Noel de fato existe. Assistimos shows, curtimos restaurantes, visitamos os icônicos prédios do Madison Square Garden, o Empire State Building, o Lincoln Center, o Rockefeller Center, onde nossos filhos patinaram no gelo, e outros mais. Visitamos o Zoo no Bronx, na companhia do meu sobrinho Erick que, na época, morava em NY. Fizemos o tour de barco em torno da ilha de Manhattan, estávamos felizes ao extremo. E foi numa noite no Village, numa loja de CD´s, que vislumbrei pequenos flocos brancos caindo sobre a calçada, e nossos filhos tiveram sua primeira visão da neve, componente indispensável para compor o cenário natalino.  

      Finalmente chegou a noite do dia 24, a Noite Santa. Fomos à Missa do Galo, celebrada na Catedral de Saint Patrick, acompanhados de um casal de franceses residentes em NY, e com quem fizéramos amizade quando residiram no Brasil. A Missa é um espetáculo à parte. Muito concorrida, os ingressos precisam ser reservados com bastante antecedência, e a lotação se esgota. Personalidades se fazem presentes. O ritual é de gala, belíssimo. Em um momento particularmente tocante, foi distribuído a cada um dos presentes uma folha de papel com a letra de “Silent Night”. Foi de arrepiar participarmos daquele imenso coral cantando aqueles versos eternos: “Silent night/ Holy night/ Al is calm/ Al lis bright...”. E, ao final, ao término da celebração, saímos ao som do “Hallelujah”, de Handel, executado por grandioso órgão e coral. Foi de arrepiar.

      No dia 25, feriado, as pessoas ficam em suas casas, as ruas vazias, lojas fechadas. Seria muito triste para nós se não tivéssemos a fortuna de passarmos o dia no apartamento daquele casal de franceses. O marido, diretor de um banco francês, fora transferido do Rio de Janeiro para NY, e nessa condição o casal morava então num apartamento com vista de 360º para Manhattan. Foi maravilhoso. A esposa, como boa francesa, se esmerou em preparar um almoço dos deuses, degustado ao longo de várias horas, pequenas porções acompanhadas dos vinhos apropriados a cada tipo de comida, e intercaladas com provas de sorbet, sorvete de frutas com pouquíssimo açúcar e à base de água, tão ao gosto dos franceses, para ajustar o paladar para a próxima secção. Até hoje nos lembramos daquele “almoço longo”, como o definiu nosso filho. Um Natal encantado, uma viagem particularmente inesquecível dentre tantas outras na companhia de nossos filhos, que nos são gratos por lhes termos ensinado o prazer de viajar.

      Outro Natal marcante na minha vida foi aquele passado em 2014 na Toscana, em uma Villa, como os italianos chamam uma casa de campo, de veraneio, próxima à Firenze. Para lá fomos eu, Edna, filhos, a nora Priscilla, o genro Carlos e sua família, e ainda uma grande amiga chilena, a Karin. Preparamos nós mesmos a ceia de Natal, deliciosa, o que não é difícil de se imaginar tendo-se a mão os maravilhosos ingredientes da culinária italiana. Após a ceia, trocamos presentes; as duas crianças do grupo, sobrinhas do Carlos, já não acreditavam em Papai Noel, mas ajudaram a criar o clima natalino. A estada na Toscana, com o nosso grupo deslocando-se em três carros alugados através da região, descortinando vistas “de chorar” de tanta beleza, foi também algo para não se esquecer.  Isso sem falar nas visitas à charmosa Firenze, certamente uma das cidades mais encantadoras do mundo.

      Bem, mudou o Natal, hoje um evento muito mais associado ao comercio do que à religião, assim como também eu mudei. As comemorações natalinas mais recentes têm sido na casa da sogra da minha filha, Regina, em um ambiente de congraçamento familiar, com um momento de agradecimento a Deus, e onde não faltam crianças. Mas... há uma grande novidade no ar. Em outubro de 2015 nasceu o meu netinho Rafael, filho da Juliana e Carlos, e que recebe muito carinho das duas  famílias. Ainda é muito novo para perceber o sentido do Natal, no último ficou apenas na curtição dos presentes recebidos. Do jeito que ele é fico imaginando que não demorará muito a acreditar que aqueles presentes lhes são trazidos pelo “Bom Velhinho”, e eu novamente reviverei nele um pouco daquela criança que já fui.

Dezembro/2017