domingo, 18 de junho de 2017

A Revolução das Máquinas (Uma fábula moderna)


A REVOLUÇÃO DAS MÁQUINAS (uma fábula moderna)
“As criaturas de fora [da sala] olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco”.― constatavam os demais bichos que os porcos, tendo assumido ditatorialmente o poder após a revolução dos bichos que expulsara os donos da fazenda, seus exploradores, agora adotavam os vícios dos humanos e confraternizavam com eles num festim de falsidades, jogatina e bebedeira (George Orwell, em sua fábula política A Revolução dos Bichos).

“Se o seu problema é isto, disque 1; se é isso, disque 2; se é aquilo, disque 3, se é mais aquilo, disque 4; se é... disque 7; para repetir o menu de opções, disque 8; se quiser falar com um de nossos operadores, disque 9”. Continua a voz gravada: “Um momento, que estaremos transferindo sua ligação". ― ouve-se uma musiquinha. A ligação cai. Nova tentativa: “Se o seu problema...”. ― cai, outra vez. Mais uma tentativa, escuta-se o menu eletronicamente fornecido. Atende, finalmente, uma voz humana, ao vivo: “SENHOR, em que posso ajuda-lo”? ― o suplicante explica claramente o seu problema. A atendente não entende. O suplicante repete uma, duas, três vezes, e a atendente: “SENHOR..., SENHOR..., SENHOR...” ― ela não se conecta com a pergunta. “Já expliquei três vezes qual é o meu problema” ― se enfurece o suplicante. “SENHOR, um momento que estaremos transferindo a sua ligação para outra atendente”. ― a outra atendente: “Um momento que estaremos verificando a sua reclamação”. “SENHOR, o seu problema somente poderá estar sendo tratado pelo nosso site”. “Mas eu já entrei no site, e lá está dito que esse problema só pode ser atendido pela Central de Atendimento”! ― “SENHOR, um momento que estaremos gerundizando o protocolo de sua reclamação”. ― uma espera. “Queira anotar o número do seu protocolo: 6666666666; a Operadora Demoníaca agradece a sua ligação e lhe deseja uma boa tarde”. ― ligação encerrada. Ao ter sido passado do atendimento automático para a voz humana, da voz humana para a máquina, da máquina outra vez para a voz humana, para o suplicante já era impossível distinguir quem era homem, quem era máquina. (fábula a partir de uma reflexão do meu irmão Paulo Sergio).

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Atividade


Atividade

“Por ´atividade`, no emprego moderno do termo, queremos normalmente referir-nos a uma ação que produz mudança numa situação existente, por meio de gasto de energia. Assim, um homem é considerado ativo quando faz negócios, estuda medicina, trabalha numa usina, fabrica uma mesa ou dedica a esportes. Todas essas atividades têm sido em comum: dirigem-se para um alvo exterior a ser alcançado. O que não se leva em conta é a motivação da atividade. Veja-se, por exemplo, um homem impelido a incessante trabalho por um sentimento de profunda insegurança e solidão; ou outro impulsionado pela ambição, ou pela avidez pelo dinheiro. Em todos esses casos a pessoa é escrava de uma paixão, e sua atividade é de fato uma ´passividade`, porque ela é impelida; é o paciente, não o ´ator`. De outro lado, alguém que se assente calmo e contemplativo, sem outro alvo que não o de experimentar-se e à sua unidade com o mundo, é considerado como ´passivo`, porque não está ´fazendo` coisa alguma. E, na verdade, esta atitude de meditação concentrada é a mais alta atividade que existe, uma atividade da alma, só possível sob condições de independência e liberdade interiores. Um conceito de atividade, o moderno, refere-se ao uso de energia para consecução de metas externas; o outro conceito de atividade refere-se ao uso dos poderes inerentes ao homem, sem que importe a produção de qualquer mudança exterior. Este último conceito de atividade foi formulado com muita clareza por Spinoza. Diferencia ele os afetos entre ativos e passivos, ´ações` e ´paixões`. No exercício de um afeto ativo, o homem é livre, é senhor de seu afeto; no exercício de um afeto passivo, o homem é impelido, é objeto de motivações de que ele próprio não tem conhecimento.”


Erick Fromm, A arte de amar (Itatiaia, sem identificação de ano de publicação).  

terça-feira, 13 de junho de 2017



Emponderando o vernáculo
Há algum tempo escrevi um texto que intitulei Gerundizando sobre o vernáculo. Agora, com tanto emponderamento por aí vejo que é o momento de novamente estar escrevendo sobre os tais cacoetes na comunicação entre as pessoas: redundâncias, modismos, anglicismos tolos, muletas verbais, impropriedades e outras pragas que empobrecem o nosso linguajar cotidiano. Além de imprecisões e erros crassos que muitas vezes até mesmo dificultam a compreensão do leitor ou do ouvinte. Se não houverem esforços, não sobrará pedra sobre pedra da norma culta. Na boa, isso daí é um fato real, uma séria preocupação dos educadores. Só que não. Quem se preocupa com isso? Tipo assim. Aonde encontrar um texto sem vícios, seja na forma impressa ou virtual? Onde estamos indo? Claro, não se pretende coibir a livre expressão, impor qualquer tipo de autocensura, ninguém precisa ser filólogo ou orador para se manifestar. Mas, via de regra, especialmente as redes sociais, o modo predominante de contato na sociedade moderna, nos remetem ao que há de mais pobre em termos de expressão. Ao invés de criar um cíclo virtuoso, as redes vão sendo cada vez mais customizadas pelos seus usuários para se adequarem a um perigoso utilitarismo. Pra mim escrever este texto é preciso estar falando de um lugar de capturar a atenção para uma questão que considero relevante. É necessário fazer um detox na comunicação. Não tenho grande poder de divulgação, e por isso utilizo as redes sociais para fazê-lo. Como diz o ditado popular, quem não tem cão caça com gato [como o gato]. Espero que esta minha crônica seja percebida, que vá de encontro ao desejo daqueles que estão meio que desconfortáveis com tudo isso que aí está.

15/03/2017

Gerundizando o linguajar

                Há anos “atrás”, quando usei essa expressão, fui atalhado pelo meu chefe, um inglês mordaz, como soem ser os ingleses: ― Zé, isso é pleonasmo: os anos são sempre atrás— com um sorriso a sublinhar o duplo sentido de sua frase.
 “Enquanto pessoa”, resolvi sair de minha “zona de conforto” e “estar escrevendo” sobre cacoetes verbais, redundâncias, emprego abusivo de certas palavras e expressões, modismos, anglicismos tolos, impropriedades e outras pragas que empobrecem o nosso linguajar cotidiano. “Então”. A “instigante” ideia me veio enquanto eu dirigia num trânsito muito “complicado”, muitos veículos haviam “se envolvido” num acidente. Dá vontade de “detonar” tudo, “passar por” doido.  “Sinistro”. “A mobilidade urbana”, que já não é “padrão FIFA”, está cada vez pior, e tudo por “falta de vontade política”. Da “presidenta”? (Eu sei, está no dicionário. Mas não estão: estudanta, presidento, economisto, dentisto e outras flexões de gênero).
É preciso ser “proativo”, “estar colocando foco” no “público alvo”, para poder “performar”, “independente”[mente] do assunto de que se está tratando, estar lançando “um olhar diferenciado” sobre essas práticas, para “estar disponibilizando” um texto com “qualidade”.  “Na verdade”, “ou seja”, devo “pontuar” que “a nível de” comunicações encontramos uma pobreza que “remete à” questão da falta de refinamento cultural das pessoas, “por conta da” excessiva “superficialidade” na sociedade, o que não permite “agregar valor” ao pensamento.

13/10/2014

quinta-feira, 8 de junho de 2017

DÉJÀ - VU


DÉJÀ-VU



Pedro Shonga caminhava pesadamente em direção ao escritório, sem vontade de chegar ou de não chegar. Simplesmente se deslocava através de uma trajetória inexorável, um estranho a seu próprio destino. Caminhava e não atentava para o seu redor, pois se as coisas aconteciam, a ele não aconteciam, uma vez que Shonga já se apartara do mundo, era uma partícula que se movia de casa para o escritório e do escritório para casa. Em tempos de sonhos odiara o local de trabalho, gratificando-se com a idéia de que um dia se libertaria de sua vida de papel. Entretanto, a sistemática de vida à qual Shonga foi se deixando atrelar durante longos anos gradualmente fechou-lhe as portas do acaso, do inesperado, ao proteger-lhe de suas emoções. Seu dia a dia ficou tão exatamente premeditado que qualquer interferência do fortuito seria necessariamente barrada como uma indesejável perturbação da ordem natural das coisas.
            Finalmente, nada mais acontecia a Shonga. Durante algum tempo, seu passado ainda o perseguiu, a lembrança de perdidas esperanças ainda esvoaçava em seus devaneios até ser enxotada de vez. Sua vida passou a ser linear, onde passado, presente e futuro se confundiam num sabor de déjà-vu. Carente do referencial que até mesmo infortúnios plantam no viver dos miseráveis, Pedro Shonga vagava numa trajetória onde o tempo era uma coordenada imutável. Já lhe era impossível perceber a transformação dos dias em semanas, das semanas em meses, dos meses em anos. Tudo sempre igual.
            Pedro continuava caminhando, a cabeça baixa da certeza do imutável, até que o percurso se cumpriu, mais do que foi cumprido. Ao perceber, instintivamente, que estava diante do elevador do prédio onde trabalhava, levantou seu braço e comprimiu um dedo no vazio, pois que não havia botão para apertar, nem sequer parede para suportá-lo. O que havia, desvelado pelo pressionar de seu dedo, eram amendoeiras e casuarinas que guarneciam ambos os lados da alameda que se estendia diante de si e através do tempo. Foi com um sentido de excitação que Pedro embrenhou-se por aquela senda, os alegres raios de sol de verão a iluminar alguma coisa que surgia do passado e da distância. Um mar todo azul e de águas serenas lançava reflexos prateados das suaves ondulações de suas marolas. As areias da praia eram muito brancas, apenas marcadas pelos ramos que se desprendiam das árvores, batidas por um vento de sal.
A paisagem era por si só radiosa, mas o momento era de perfeição, e o mar se derramava pela areia, alcançando e acariciando um corpo de mulher de cabelos cor de ouro e concentrando seu azul em olhos que abrigavam toda a mansidão daquele universo. A exuberância do corpo era apenas contida por duas tiras de tecido negro, a comprimir generosas formas que ameaçavam projetar-se no esplendor de seios cuja curvatura, arfando suavemente ao sopro da respiração, sugeriam o prodígio deixado à imaginação.
            A contemplação daquela mulher maravilhosa ali desde sempre deitada devolve a Pedro o sentido do referencial afogado em seu sempiterno caminhar. Está na fronteira de uma nova dimensão, no afogamento de suas memórias, alem do déjà-vu, do nada que é o seu dia-a-dia. A transposição dessa fronteira interromperá o prolongamento do sempre e do nada. Pedro estende-se ao lado daquela miragem. Ansiedade paralisante, medo da quebra do encanto e do retorno ao escritório. Vidrado, não toca, apenas acaricia com o olhar cada parte da esfinge à sua frente. Sente um desejo louco de se colar àquele corpo, enfiar suas mãos sob a minúscula tira negra, libertar os seios e logo acolhê-los no calor de sua boca. Arde de desejo e se consome na ansiedade. Quer logo percorrer com seus lábios aquelas pernas bronzeadas, sentir em seu rosto o excitante roçar dos pelos dourados de sol, entranhar-se naquele doce remanso. Ela está só, ela e o mar, que vem e volta, rolando sobre seu corpo, língua de Netuno saciando o prazer de um deus. É preciso fazer esta mulher realidade.
             O mar ia e voltava, o sol prosseguia no firmamento e os galhos das casuarinas farfalhavam languidamente ao sopro da brisa. Um tempo indefinido se passou e Pedro, dentro do elevador, deu enorme trabalho a quatro colegas de serviço que, a muito custo, conseguiram livrar de sua boca ávida os maviosos seios que saltaram, desprotegidos, da blusa rasgada de uma linda e aterrorizada secretária, que ficou a chorar aos soluços.

22/08/2014

As intermitências da morte


AS INTERMITÊNCIAS DA MORTE


            No dia seguinte, ninguém morreu. Assim começa a narrativa do escritor português José Saramago[1] de um fato absolutamente insólito: em um determinado país, a partir do primeiro instante do Ano Novo, a morte suspendeu as suas atividades. O fato, como assinala o narrador, “Por ser absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme” (p.2). E temos uma detalhada descrição de uma série dessas perturbações de ordem social, econômica, política, filosófica, moral e religiosa que se seguiram a um primeiro momento de grande felicidade pelo atingimento da imortalidade.
              Os primeiros a reclamar, por sentirem-se diretamente afetados em suas atividades, foram aqueles ligados ao setor funerário. Claro está que, não havendo mais defuntos, perdiam eles a matéria prima fundamental de seu negócio. Acenando ao governo com a perspectiva de iminente falência, e consequente desemprego em massa, pediram, no que foram atendidos, medidas compensatórias. Tais medidas se consubstanciavam na obrigatoriedade de enterrar-se, com todas as pompas funerárias que anteriormente eram devidas aos seres humanos, todo e qualquer animal de estimação; gato, cachorro, papagaio, seja lá o que fosse.
            Não morrendo ninguém, os hospitais logo ficariam superlotados com pacientes em estado terminal, e que não morreriam nunca, pelo que os diretores daquelas instituições levaram esta dramática condição às autoridades públicas. Estas determinaram que pacientes sem possibilidade de recuperação deveriam ser devolvidos às suas respectivas famílias, e que os hospitais continuariam a lhes prestar assistência como se internados ainda estivessem.
            Idênticos problemas de superlotação sofreriam os asilos para idosos, chamados de Lares do Feliz Ocaso. Em termos especialmente dramáticos os diretores dessas instituições alertaram as autoridades das consequências do viver infinito sobre os Lares: “o que aí nos vem em cima é o pior dos pesadelos que alguma vez um ser humano pôde haver sonhado, nem mesmo nas escuras cavernas, quando tudo era terror e tremor, se terá visto semelhante cousa...” (p.32).
            Novamente o fator econômico: o presidente da Federação das Companhias Seguradoras comunicou ao governo que as filiadas estavam recebendo uma avalanche de cartas de seus segurados pedindo o cancelamento de suas apólices de seguro de vida. É claro, se ninguém vai morrer, não faz mais sentido continuar-se pagando prêmio de seguro de vida.
            Mas os problemas não se limitavam aos de ordem econômica. A religião perderia sua razão de ser, pois ela precisava da morte, da certeza da morte e da ressurreição para justificar-se. A morte era absolutamente essencial para a realização do reino de Deus. A religião católica, majoritária no país, tinha aguda consciência da questão, e propunha redobradas orações para o restabelecimento da morte.
             E a questão moral. As famílias começaram a se cansar de seus moribundos, de familiares que no limiar da passagem, em condições de completa irreversibilidade em sua condição de saúde, restariam prostrados para sempre em seu leito de outrora morte. Era preciso livrar-se deles, de alguma maneira, sem sentir remorsos. Descobriu-se, então, que em um país limítrofe, a morte continuava a operar normalmente. Uma família teve então a ideia de para lá transportar, clandestinamente, um avozinho, que queria morrer, e uma criança da família, ambos sem qualquer possibilidade de cura. O plano deu certo: ambos morreram no exato momento em que a fronteira foi cruzada, sendo enterrados naquele país vizinho. A notícia vazou, a família dos falecidos se viu alvo de exacerbadas críticas por sua desumanidade, mas logo outras famílias adotavam idêntico procedimento, até que os governos dos três países limítrofes protestaram, o que obrigou o chefe de governo do país onde ninguém morria anunciar que colocaria as forças armadas nas fronteiras para coibir a prática.
            Mas o pronunciamento do chefe de governo foi puramente de fachada, pois, no fundo o governo não via inteiramente com maus olhos um procedimento que ajudava o país a conter a crescente pressão demográfica. Atravessamentos de fronteira continuaram a ocorrer, apenas num fluxo mais lento, com a conivência dos vigilantes que o governo encarregou de decidirem caso a caso sobre quem poderia ser transportado para o além. Foi quando surgiu uma organização criminosa, a máphia (grafada propositalmente com ph, para diferenciá-la da máfia que todos conhecemos) a impor-se às famílias como intermediária das operações de transporte de seus moribundos para os países vizinhos. Em tal condição a máphia conseguiu pressionando o governo através de sucessivos e brutais atentados aos vigilantes, que só não morreram do efeito de tais agressões por razões óbvias. O governo foi então forçado a fazer um trato com a máphia, que passaria a controlar uma expressiva parcela do contingente de vigilantes.
            E assim as coisas foram seguindo. A ambiguidade das pessoas em relação à situação absolutamente fora de qualquer normalidade é bem expressa pelo narrador ao descrever a tentativa de golpe da oposição contra o regime, “aproveitando-se da perturbação em que o país mal vivia, dividido como estava entre a vaidade de saber-se único em todo o planeta e o desassossego de não ser como toda a gente” (p.82).
            Eis que, de modo completamente inesperado, a própria morte manda um comunicado anunciando que voltaria a atuar, a partir meia noite do dia desse aviso. E explicava por que decidira suspender as suas atividades, que fora para oferecer aos seres humanos que tanto a detestam “uma pequena mostra do que seria para eles viver para sempre, isto é, eternamente” (p.99). Reconhecendo o que ela considerava como lamentáveis, tanto do ponto de vista moral, como do ponto de vista pragmático, os resultados da experiência, a morte decidira o imediato regresso às suas atividades. Apenas que agora, salvo para aqueles que já deveriam ter morrido durante o período da experiência, e esses morreriam imediatamente a partir da meia-noite, todos os demais teriam sua morte avisada com uma antecedência prévia de uma semana, tempo este que ela julgava necessário a que o condenado pudesse tomar todas as providências cabíveis ― testamentárias, apresentar suas despedidas, fazer reconciliações etc. ― antes de sua partida definitiva. A morte devolvia assim “o supremo medo ao coração dos homens”.
            E, efetivamente, o supremo medo foi devolvido ao coração dos homens, só que agora de um modo mais intenso, e onipresente. A morte, ao enviar os avisos através de um envelope de cor violeta, através da mala postal comum, levou os homens a um terror permanente, sempre na expectativa de receberem a visita dos funcionários dos correios, agora os próprios mensageiros da morte, a lhes entregarem os sinistros envelopes da inapelável condenação.
            Mais uma vez, em sua oscilação pendular, a população passou a maldizer a morte, e parte da imprensa, fazendo eco a este sentimento, cobriu-a de toda a sorte de impropérios. Mas houve aqueles que de maneira mais ponderada, propuseram um diálogo franco e sincero com a morte. Mas, como encontrá-la? Todas as tentativas de achá-la, é claro, resultaram totalmente inúteis. As cartas seguem metodicamente sendo escritas por ela, postada em seu covil inteiramente a salvo das buscas humanas, e expedidas a um simples gesto de sua mão aos correios para a entrega final aos desgraçados destinatários.
            Mas eis que o narrador reserva uma surpresa ao leitor, e à própria morte. De forma completamente inesperada e inexplicada, uma das cartas expedidas retorna à remetente. E novamente retorna após a morte ter efetuado mais duas remessas. Frustrada, a morte busca em seus arquivos dados biográficos daquele que já deveria ter morrido, mas que continuava vivo. Era um violoncelista, que acabara de completar cinquenta anos de idade, quando deveria ter morrido de véspera, ainda com quarenta e nove anos. Decide visitar a casa deste homem, e o descobre um solitário, vivendo com a companhia única de um cão e a tocar dois instrumentos musicais, um piano e um violoncelo, este o seu ganha-pão na condição de músico de uma orquestra sinfônica.
            Investindo-se na forma humana de uma bela e misteriosa mulher, a morte assiste a um concerto no qual o músico executa um pungente solo, que assombra o maestro, a orquestra e a plateia. A morte o procura ao final do concerto e lhe apresenta seus cumprimentos. Termina o período que ela estabelecera para sua ausência de seu recanto nas profundezas, seria necessário regressar para subscrever uma nova leva de cartas. Mas ela decide prorrogar sua estada entre os vivos por um dia a mais.  Ainda encarnada, vai à casa do músico e mais uma vez se enternece com a uma peça de Bach que ele executa a pedido dela. Não só desiste de matá-lo, de lhe entregar pessoalmente a carta de cor violeta que estava em sua bolsa, como lhe oferece a boca, com ele se deita e fazem amor, uma, duas, três vezes.
            E por não ter a morte expedido as cartas a seu tempo próprio, no dia seguinte ninguém morreu.

            A hiperbólica trama traçada por Saramago demonstra a ambiguidade do ser humano em relação à morte. Sofre com a certeza de que ela é inevitável, maldiz esta condição e tenta fazer de conta que a morte é sempre a dos outros, não a sua própria. O Homem da narrativa não se aceita como um ser-para-a-morte heideggeriano. Porém, ante a cessação da morte, e do advento de seus catastróficos efeitos, volta a desejá-la, considerando que sua ausência constitui-se no maior dos horrores. Mas eis que o retorno da morte novamente lança o homem no desespero, passa agora a injuriá-la justamente por ter ela voltado a fazer aquilo pelo qual ele tanto ansiava. A narrativa de Saramago encerra a oportunidade de uma profunda reflexão sobre a quimera científica de que algum dia o desenvolvimento tecnológico propiciará ao Homem o alcance da vida eterna ― e plena de saúde! ― aqui mesmo, na Terra.
27/12/2016



[1] As Intermitências da morte, Companhia das Letras, 2005.

LOGIN ------- SENHA------


LOGIN  ----------
SENHA ----------

Estava longe da vanguarda da evolução tecnológica. Via com bastante crítica o enfeitiçamento do homem pelas suas criações no campo da informática. Não era um ludita, nome derivado do inglês Ned Ludd, que no início do século XIX pregava uma violenta reação contra as máquinas e a tecnologia. Não se considerava um troglodita informático. Utilizava com razoável proficiência as incontáveis potencialidades que o mundo virtual abria à sociedade. Aceitava e incorporava, até por inevitável, ícones da era digital. Assim, computadores e celulares passaram a fazer parte do seu dia a dia. Manejava seu notebook para escrever seus textos e construir planilhas financeiras, e acessava a internet para passar e-mails, conectar-se no Facebook, pesquisar no Google, no YouTube. Usava-os na justa medida de suas necessidades, por isso jamais comprava os modelos tecnologicamente mais desenvolvidos que a indústria vorazmente colocava no mercado. Seus artefatos estavam sempre defasados em relação ao “estado da arte”. Funcionavam, era o bastante para ele. Com alguma relutância, trocou o seu limitado celular por um equipamento que igualmente lhe propiciava acesso ao mundo virtual, apreciando, particularmente, o WhatsApp.
Mas, guardava certas bizarrias. E a mais notória delas era a sua completa recusa em acessar suas contas bancárias e de cartões de crédito através de seus gadgets. Figurava que em algum lugar ― na Transilvânia? ― postava-se um hacker à espreita do momento em que ele abrisse a guarda para, vampiro financeiro, sugar todas as suas contas, drenar todo o seu patrimônio construído ao longo de uma vida. Por não fazer operações via eletrônica cadastrava em débito automático todas as contas passíveis de pagamento por essa modalidade. Para as demais contas valia-se dos caixas eletrônicos dos bancos.
E a sua ojeriza por senhas. Havia necessidade de uma maldita senha para uma infindável quantidade de operações do dia a dia. E, muitas vezes, também de um login ―palavra hedionda. Senha para abrir o computador e o celular; para a sua conta Google, para o seu blog, para o Facebook, para o Linkedin; para os cartões de crédito e de débito; para o caixa eletrônico de bancos; para acessar o site de seu provedor da internet; de sua operadora de celular; de concessionárias de serviços públicos; da administradora de seu condomínio; de seu clube recreativo; de seu programa de milhagem; de lojas virtuais, da Secretaria da Receita Federal; da Prefeitura Municipal e muito mais.
Como criar, e guardar tantas senhas, tantos logins, tantos códigos de acesso? Em cada caso havia exigências para a criação de uma chave. Use letras e números, perfazendo tal e tal número de caracteres. Mescle minúsculas e maiúsculas. Não repita e não use sequência de letras ou de números. Evite referências fáceis como a data de seu aniversário, de sua carteira de identidade, de seu endereço. Cumpria-se esses imperativos e o registro era negado: senha fraca. O que fazer? Para que se tenha uma senha “forte” ouvia recomendações de que deveria utilizar um mínimo de tantos dígitos, mesclando letras maiúsculas, minúsculas, números e até mesmo outros caracteres. ― Você deve usar um mínimo de senhas, para não se perder – lhe aconselhavam; ― Você deve variar bastante suas senhas, para dificultar a clonagem ― lhe diziam outros.  ― Você tem que periodicamente alterar suas senhas ― mais um conselho. Que inferno. Num crescente de irritação, começou a cadastrar palavrões, reais ou inventados, o que em algumas ocasiões acabou por lhe causar constrangimentos. E como memorizar senhas tão diabólicas? Impossível, é óbvio. Tratava de anotar todas as senhas, logins, códigos de acesso e outras chaves mágicas em um bloquinho cuidadosamente guardado em seu escritório. Infelizmente, pela paranoia de que seu bloquinho poderia ser um dia surrupiado por algum ladrão, não anotava a senha ipsus litterismas, sim, através de associações mnemônicas, as quais nem sempre lhe conduziam ao código oculto. Mas julgava que ainda conseguia memorizar alguns desses códigos, aqueles a quem recorria com grande frequência, como para abrir o seu computador e seu celular, para usar os caixas eletrônicos dos bancos, para pagar com seus cartões de crédito e débito. Ainda assim por vezes, ao tentar pagar uma compra, lhe sobrevinha um branco na hora de digitar a senha do cartão, seguido de rugidos de impaciência dos demais clientes atrás de si na fila do caixa.
E os perigos de digitar-se uma senha? Alertas pululavam em seu WhatsApp, em sua caixa de mensagens de e-mail, no Facebook. ― Cuidado ao digitar sua senha em supermercados. Eles são dotados de câmeras de supervisão suspensas, que poderão registrá-la e funcionários fazerem mau uso dela. ― Cuidado com os caixas eletrônicos dos bancos, eles podem conter uma fachada falsa, o famoso chupa-cabra, que furtará os seus dados. Em ambos os casos havia a recomendação de se cobrir a visão do teclado com uma das mãos. ― Não digite senha em conexões feitas a partir de WiFi de lugares públicos. Tantos riscos... definitivamente a complexidade do sistema já se situava alguns furos acima da complexidade do sistema constituinte de muitos indivíduos. Uma situação potencialmente perigosa.
 Ele tentou mais uma vez. Decidira enfrentar o pânico de acessar a sua conta bancária de seu computador. Era noite, precisava realizar uma transferência de uma vultosa quantia. Estava certo quanto ao Login, mas agora, após dois avisos de que ou seu Login ou sua senha fora dada como incorreta, já não tinha mais certeza quanto a senha. Fora traído pela memória, e sua anotação no bloquinho, de tão desvirtuada, de nada lhe valeu. E o segundo aviso continha uma advertência dramática, a de que um erro na terceira tentativa invalidaria a senha. Respirou fundo, tentou concentrar-se, julgou resgatar os malditos dígitos dos recônditos de sua memória, premiu cuidadosamente cada tecla da senha, teclou enter. Apenas para receber a sinistra mensagem de que sua senha havia sido invalidada.
            Aquela foi uma noite medonha, povoada por pesadelos, até que, finalmente nuvens claras e um coro angelical o envolveram, anunciando uma paz que ele jamais desfrutara. Entreviu ao longe um imenso portão e sentiu-se docemente conduzido a ele. Era, sem dívida, o Portão do Paraiso. Teria morrido? Invadido por extrema felicidade achegou-se ao Portão sem trancas, que ele logo iria abrir para desfrutar da eterna ventura. Foi quando viu, diante de si, implacável, a inscrição:

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 SENHA -------


17/12/2016