quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

O Tempo


O tempo
Plus tard il sera
(Mais tarde será)
 trop tard. Notre vie c´est
(tarde demais. Nossa vida é)
maintenant
(agora)
- Jacques Préver, poeta francês.

Dias atrás me dei conta de que há alguns anos não marcava consulta com o meu oculista, era tempo de conferir o grau das lentes dos meus óculos. Pontual e atenciosamente o doutor me recebeu e perguntou o motivo da consulta, ao que respondi que não havia qualquer motivo especial, salvo o de conferir o grau das lentes, já que a minha última consulta se dera há uns três anos. Ao examinar a minha ficha, ele me surpreendeu imensamente ao informar que, na verdade, minha última consulta se dera há oito anos, em 2010! Meu Deus, oito anos! Perguntei exatamente quando, ele me respondeu que fora em 15 de junho de 2010. A minha curiosidade em relação à data exata tinha uma razão, saber quão próxima ela era de 08 de dezembro daquele ano, dia em que fiz uma cirurgia cardíaca, referência naturalmente muito marcante na minha vida, e sobre a qual escrevi uma crônica, “A visita da Dama de Negro”. Mas o propósito desta crônica não é escrever sobre aquele meu tangenciar o insondável, mas, sim, refletir sobre o tempo.

“Nossa vida é agora, amanhã será tarde demais”, na citação do poeta Jacques Prévert (escreveu a letra da emocionante canção Les Feuilles Morts, enorme sucesso na versão original e na versão inglesa The Autumm Leaves) em nossa epígrafe. Na mesma linha se pronunciaram escritores, pensadores, poetas, músicos, etc. Omar Kháyyám, matemático e poeta persa, em um de seus Rubáyyát: “Sê feliz um instante, o instante fugitivo que é a sua vida...” “A vida é o que acontece, enquanto você está ocupado fazendo outros planos.”, disse John Lennon, estupidamente assassinado quando ainda jovem e produtivo.

Aproveitar o tempo, proclama-se. Carpe Diem, conselho do poeta Horacio, da Roma Antiga, literalmente significando aproveite o dia, mas assimilado como aproveite o momento, desvirtuado em uma sôfrega tentativa de usufruir cada minuto da vida. O tempo está passando cada vez mais rápido, é um sentimento de tantos, especialmente daqueles que estão envelhecendo. O ano mal começou e logo chegará o Carnaval, a Copa do Mundo, as eleições, e pronto: o Natal e o fim de ano, proclamam os mais ansiosos. Urge aproveitar o tempo. Time is Money. A vida moderna em constante aceleração: “não se pode ficar parado”; Cultura do fast-food; os filmes de ação, “fechados”; fuga da angústia, ambição, avidez por dinheiro ou qualquer outra forma de passividade através da atividade permanente, somente concebida como aquela dirigida para um alvo exterior a ser alcançado, sem considerar a motivação dessa atividade que assim é, na verdade, uma passividade - Spinoza conceitua que no exercício de um afeto passivo o homem é impelido, é objeto de motivações das quais ele próprio não tem consciência; era da informação trazendo exacerbação da falta de reflexão, da comunicação veloz e empobrecimento da linguagem – José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura: “De degrau em degrau vamos descendo até o grunhido.”

O escritor argentino, igualmente Prêmio Nobel de Literatura, Jorge Luiz Borges, que deve ter levado uma vida intensa, em sua velhice lamentou: “Se pudesse viver novamente, na próxima vida tentaria cometer mais erros.” Sugere lamentar oportunidades perdidas. Quantos de nós não gostaríamos de ter a faculdade de reverter o tempo ao nosso arbítrio, voltar ao passado para aproveitar uma oportunidade perdida por medo, vergonha ou displicência? Não, não estamos falando de um sentimento doentio de arrependimento, de culpa, mas, sim, de, de alguma forma, poder reinventar episódios de uma vida, por mais que ela tenha sido, em seu conjunto, feliz. E também gostaríamos de poder voltar ao passado para usufruir momentos sublimes que vivenciamos como protagonistas ou testemunhas. Não se trata de saudosismo, de nostalgia, de se estar “parado no tempo”, um preconceito tão comumente aplicado a referências do passado quando visto sob uma ótica meramente cronológica. José Saramago nos oferece em seu livro “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (uma narrativa sob uma perspectiva bastante pessoal do autor) um singular exemplo desse desejo. Saramago escreve que certos momentos na vida deveriam “ficar fixados, protegidos do tempo, não apenas consignados neste evangelho, ou em pintura, ou modernamente em foto, filme ou vídeo, o que interessava mesmo era que o próprio que os viveu, ou tenha feito viver pudesse permanecer para todo o sempre à vista dos seus vindouros...” E elege um momento descrito na vida de Jesus, ainda uma criança, como o seu preferido para tal fim. Comungo com Saramago nesse sonho de poder revisitar o passado ao nosso bel prazer. Que coisa maravilhosa seria, por exemplo, reencontrar os meus queridos filhos quando crianças, saborear os tantos momentos mágicos de nossa passada convivência. Hoje são adultos, casados, vivendo suas vidas, mas eu minha esposa damos graça de tê-los sempre perto de nós, constituindo uma família ampliada com genro e nora e, extraordinariamente, fomos presenteados com um netinho maravilhoso através do qual, de certa forma, testemunhando o seu desenvolvimento, realizamos a fantasia de reencontrar nossos filhos ainda crianças.

 Mas, o que seria o tempo? Linear, uma sequência infinita de agoras, uma soma de instantes sucessivos, permanentes e isolados uns dos outros, como pensava Descartes? Ou, como acreditava Leibniz, o tempo seria um fluir continuado, uma unidade, uma absoluta mudança? O filósofo existencialista Jean-Paul Sartre considerava que ambas as hipóteses tomadas isoladamente levam a um impasse. Uma soma de instantes não poderia resultar em uma duração temporal, já que o instante, unidade infinitesimal do tempo, não tem extensão, logo a soma de zeros tem zero como resultado, a série se aniquila. Quanto à hipótese de Leibniz, uma mudança que constituísse absolutamente mudança já não seria mudança alguma, pois tudo o que muda, muda em relação a algo que permanece. Para Sartre, a temporalidade necessita tanto da permanência dos instantes (pois eles devem permanecer o que são, distintos uns dos outros e perfeitamente individualizados) quanto da mudança de um fluir continuado (pois eles devem estar ligados em uma síntese comum, em uma dependência mútua). (As considerações são extraídas do livro “Existência Liberdade – Uma introdução à filosofia de Sartre”, de Paulo Perdigão)

Deixando de lado as especulações filosóficas, as sociedades modernas concebem o tempo como kronos- mensurável, descrito em horas, minutos, segundos, uma mercadoria que pode ser comercializada. Isso a despeito da percepção subjetiva que indivíduos dentro dessas sociedades possam ter com relação a passagem mais ou menos rápida do tempo. Nas sociedades antigas, no campo e nas sociedades “alternativas” o tempo, em oposição, é representado pelos processos cíclicos da natureza, visto como processo natural de mudança. Artesões, artistas, homens do campo e outros trabalhando sem a pressão de uma data precisa para terminar seu trabalho, sua obra. Despreocupação em medir o tempo com precisão - relógio de sol, ampulheta, vela ou lamparina etc.

Mas Kronos não é a forma única de se conceituar o tempo. Em oposição, surge o tempo como Kairós, que significa “o momento certo ou oportuno”. Quando estamos totalmente absorvidos e vivemos no momento presente, sempre que nos sentimos apaixonados pelo que estamos a fazer ou pelas pessoas com quem estamos, empenhados, absorvidos, vivemos no Kairós. “O tempo pode ser medido com as batidas de um relógio ou pode ser medido com as batidas do coração”, nas palavras do filósofo e psicanalista Ruben Alves.

Iniciei esta crônica falando da surpresa com a minha distorcida percepção do passar dos anos. Cronologicamente, do grego kronos, transcorreram quase oito anos entre as minhas duas consultas ao oculista, enquanto eu imaginava um decurso de apenas três. O fato é que objetivamente vivemos no kronos no tocante ao cumprimento de nossas obrigações pessoais, atentos ao relógio, daí a minha “distorção”. Mas em nossa interioridade não vivenciamos as horas como todas tendo uma duração igual, 60 minutos, os dias como todos tendo 24 horas, e os anos, 365 dias. “Os dias talvez sejam iguais para um relógio, mas não para o homem”, nas palavras do célebre escritor francês Marcel Proust. Há dias que sentimos mais ou menos compridos que outros, a mesma percepção valendo para as horas, os anos. A minha sensação, como a de tantos, especialmente entre os mais velhos, já escrevi, é a de que os anos estão passando mais rápido. O que fazer diante disso? Aproveitar a vida, amar, lutar contra o cultivo do ódio em nossos corações, respeitar a alteridade, o que não significa necessariamente identificar-se com posições contrárias às nossas genuínas convicções. E, retornando a Spinoza, atentar para a existência de um outro conceito de atividade, aquele que se refere ao uso dos poderes inerentes ao homem, na mais profunda meditação, o que somente é possível em condições de liberdade interior, sem que importe a produção de qualquer mudança exterior.


Epílogo

 Já encerrara a crônica quando surgiu a necessidade de ser feita uma pesquisa nos velhos álbuns de fotografia da família. Dediquei-me à tarefa acompanhado do meu filho. Ele ao meu lado, fomos perpassando antigas fotos, nas quais, entre tantas imagens queridas, ele próprio aparecia, em diversos momentos de sua vida, desde o nascimento, fixados em papel fotográfico. Lembrei-me, é claro, de Saramago. Não podíamos voltar ao passado, mas podíamos, eu e ele, fazermos vivas as sensações que experimentávamos e compartilhávamos no momento do registro da câmera. Foi emocionante rever tantos entes queridos, familiares e amigos. Lá estávamos eu, minha mulher e meus filhos. Meus pais e meus irmãos. Meus sogros. Tios e tias. Primos e primas. Sobrinhos e sobrinhas. E amigos. Muitos já partiram, de outros nos afastamos por vontade própria ou por circunstâncias da vida. Felizmente outras relações surgiram nesse caminhar. E, sobretudo, somos, minha mulher e eu, muito felizes por termos trazido ao mundo a nossa filha, mãe do querido netinho, e o nosso filho. Eles são a nossa maior alegria, nossa maior motivação.


16/01/2018

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

NATAL


NATAL

Mudaria o Natal ou mudei eu?
(Soneto de Natal- Machado de Assis)


        Quando bem criança eu morava com meus pais e minha irmã mais velha, Suely, em um modesto apartamento em Niterói; o primeiro dos meus dois irmãos, Luiz Carlos, só veio ao mundo quando eu já completara 7 anos, e o segundo, Paulo Sergio, três anos mais tarde. O Natal era revestido de uma solenidade religiosa. 25 de dezembro é a data considerada como a do nascimento de Jesus Cristo, mas as comemorações começavam bastante antes, o propalado espírito natalino progressivamente se espalhando por toda parte. Presépios e árvores de Natal eram montados, guirlandas eram afixadas nas portas de entrada das casas, as rádios tocavam os clássicos “Ave Maria”, “Jesus, Alegria dos Homens”, “Adeste Fidelis”, “Hallelujah”, além dos clássicos populares “Jingle Bells”, “Silent Night”, “White Christmas” e outras canções, os cinemas exibiam filmes alusivos ao evento. As crianças acreditavam piamente em Papai Noel e lhe escreviam cartinhas com seus pedidos de presentes. Os adultos fomentavam essa crença. Na noite do dia 24 de dezembro, após a ceia típica da ocasião, os pais pediam aos seus filhos que, antes de dormir, colocassem seus sapatinhos ao lado da árvore de Natal, cuidadosamente montada e enfeitada para celebrar a “data máximo da cristandade”, como se dizia na época. Papai Noel. Em algum momento durante a noite ele desceria em seu trenó puxado por renas e deixaria os presentes nos sapatinhos. Os presentes naquela época, mesmo entre as famílias mais abastadas, eram muitíssimo modestos quando comparados àqueles distribuídos nos dias de hoje. A indústria nacional fabricava incipientes artefatos de madeira, de matéria plástica, de cerâmica, de metal, de pano e de outros materiais sem qualquer sofisticação ― carrinhos, aviões, jogos, bonecas etc.  Comprar brinquedos importados, dentre as poucas opções disponíveis, além de ser um luxo a que poucos se poderiam dar, não era prática comum.

       Era com enorme ansiedade que eu esperava acordar e ir ao encontro dos presentes deixados pelo “Bom Velhinho”, aquela doce figura de barbas brancas e sorriso acolhedor. O encanto terminou quando, numa noite de Natal, aquilo que já era uma forte suspeita para mim se confirmou: Papai Noel não existia, era pura lenda. Foi então que compreendi que Natal só tem graça enquanto somos criança ou quando temos crianças ao nosso lado. Quando meus irmãos se tornaram crianças aptas a acreditar na lenda, voltei, de certa forma, a experimentar a emoção natalina.

      Casei-me com a Edna, e o meu Natal passou a ser sempre celebrado na grande casa colonial dos meus sogros, Seu Dino e Dona Belinha, em Ouro Preto. A casa tinha ao fundo uma enorme chácara com toda a sorte de árvores frutíferas e criação de animais. As comemorações eram sempre grandiosas, a extensa família mineira comparecendo em peso, além de um grande número de convidados. A decoração da casa era composta de ricas peça de arte barroca.  A ceia, de uma fartura espantosa, era servida à meia noite, na passagem do dia 24 para o dia 25. Seguia-se a solenidade de entrega dos presentes postados ao lado da árvore de Natal, e que algumas vezes varava a noite, em um clima de excitação contagiante, da parte dos adultos e, sobretudo, das crianças ― sobrinhos e sobrinhas da Edna. Éramos todos felizes. E vieram ao mundo os nossos amados filhos, Juliana e Cristiano, e que em poucos anos já faziam coro com seus primos naquela festa. Ao vê-los, naquela excitação da entrega dos presentes, eu, em parte, revivia neles a criança deixada para trás naquela noite de Natal de tantos anos passados.

        Foi um Natal mágico, aquele de 1990. Chegamos, eu, Edna e nossos filhos Juliana e Cristiano, a Nova Iorque - Manhattan a poucos dias antes do 25 de dezembro. Inverno, iríamos finalmente vivenciar um Natal Branco, o tão decantado White Christmas Natal Branco da canção que embala os natais do mundo cristão desde que foi composta em 1942 por Irving Berlin. Mas ao chegarmos lá ainda não caia neve, a temperatura era agradável até mesmo para um friorento como eu. Aproveitamos para fazer um passeio pelas cercanias do Central Park e pelo Pier 42, uma área portuária restaurada e ponto de atração turística. Lá experimentamos a primeira emoção, diante da Chorus Tree, uma construção de madeira em formato de árvore, em cujos galhos se alinhavam pessoas vestidas de Papai Noel formando um coral a cantar os sucessos natalinos de sempre, terminando com a canção que virou uma espécie de hino da cidade: “New York, New York”. Foi lindo.

      Passeávamos e aproveitávamos tudo o que a Big Apple nos oferecia. Nova Iorque é uma cidade muitíssimo especial, sob tantos aspectos, e sabe se preparar como nenhuma outra para o período natalino. Lojas, prédios e árvores enfeitados, o Central Park iluminado, uma infinidade de luzinhas piscando em toda parte, uma energia contagiante no ar.  Naquele cenário, com um pouco de imaginação pode-se até acreditar que Papai Noel de fato existe. Assistimos shows, curtimos restaurantes, visitamos os icônicos prédios do Madison Square Garden, o Empire State Building, o Lincoln Center, o Rockefeller Center, onde nossos filhos patinaram no gelo, e outros mais. Visitamos o Zoo no Bronx, na companhia do meu sobrinho Erick que, na época, morava em NY. Fizemos o tour de barco em torno da ilha de Manhattan, estávamos felizes ao extremo. E foi numa noite no Village, numa loja de CD´s, que vislumbrei pequenos flocos brancos caindo sobre a calçada, e nossos filhos tiveram sua primeira visão da neve, componente indispensável para compor o cenário natalino.  

      Finalmente chegou a noite do dia 24, a Noite Santa. Fomos à Missa do Galo, celebrada na Catedral de Saint Patrick, acompanhados de um casal de franceses residentes em NY, e com quem fizéramos amizade quando residiram no Brasil. A Missa é um espetáculo à parte. Muito concorrida, os ingressos precisam ser reservados com bastante antecedência, e a lotação se esgota. Personalidades se fazem presentes. O ritual é de gala, belíssimo. Em um momento particularmente tocante, foi distribuído a cada um dos presentes uma folha de papel com a letra de “Silent Night”. Foi de arrepiar participarmos daquele imenso coral cantando aqueles versos eternos: “Silent night/ Holy night/ Al is calm/ Al lis bright...”. E, ao final, ao término da celebração, saímos ao som do “Hallelujah”, de Handel, executado por grandioso órgão e coral. Foi de arrepiar.

      No dia 25, feriado, as pessoas ficam em suas casas, as ruas vazias, lojas fechadas. Seria muito triste para nós se não tivéssemos a fortuna de passarmos o dia no apartamento daquele casal de franceses. O marido, diretor de um banco francês, fora transferido do Rio de Janeiro para NY, e nessa condição o casal morava então num apartamento com vista de 360º para Manhattan. Foi maravilhoso. A esposa, como boa francesa, se esmerou em preparar um almoço dos deuses, degustado ao longo de várias horas, pequenas porções acompanhadas dos vinhos apropriados a cada tipo de comida, e intercaladas com provas de sorbet, sorvete de frutas com pouquíssimo açúcar e à base de água, tão ao gosto dos franceses, para ajustar o paladar para a próxima secção. Até hoje nos lembramos daquele “almoço longo”, como o definiu nosso filho. Um Natal encantado, uma viagem particularmente inesquecível dentre tantas outras na companhia de nossos filhos, que nos são gratos por lhes termos ensinado o prazer de viajar.

      Outro Natal marcante na minha vida foi aquele passado em 2014 na Toscana, em uma Villa, como os italianos chamam uma casa de campo, de veraneio, próxima à Firenze. Para lá fomos eu, Edna, filhos, a nora Priscilla, o genro Carlos e sua família, e ainda uma grande amiga chilena, a Karin. Preparamos nós mesmos a ceia de Natal, deliciosa, o que não é difícil de se imaginar tendo-se a mão os maravilhosos ingredientes da culinária italiana. Após a ceia, trocamos presentes; as duas crianças do grupo, sobrinhas do Carlos, já não acreditavam em Papai Noel, mas ajudaram a criar o clima natalino. A estada na Toscana, com o nosso grupo deslocando-se em três carros alugados através da região, descortinando vistas “de chorar” de tanta beleza, foi também algo para não se esquecer.  Isso sem falar nas visitas à charmosa Firenze, certamente uma das cidades mais encantadoras do mundo.

      Bem, mudou o Natal, hoje um evento muito mais associado ao comercio do que à religião, assim como também eu mudei. As comemorações natalinas mais recentes têm sido na casa da sogra da minha filha, Regina, em um ambiente de congraçamento familiar, com um momento de agradecimento a Deus, e onde não faltam crianças. Mas... há uma grande novidade no ar. Em outubro de 2015 nasceu o meu netinho Rafael, filho da Juliana e Carlos, e que recebe muito carinho das duas  famílias. Ainda é muito novo para perceber o sentido do Natal, no último ficou apenas na curtição dos presentes recebidos. Do jeito que ele é fico imaginando que não demorará muito a acreditar que aqueles presentes lhes são trazidos pelo “Bom Velhinho”, e eu novamente reviverei nele um pouco daquela criança que já fui.

Dezembro/2017


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

O AMOR


O AMOR
What´s this thing? Called love
This funny thing?/ Called love (...)

Não existe resposta para essa indagação que o grande compositor norte-americano Cole Porter propõe em sua bela canção “What´s this thing called love?”. O que é essa coisa engraçada chamada amor?. Não há como definir-se racionalmente esse sentimento. Mas sabe-se perfeitamente quando se está enamorado, pode-se captar o momento mesmo em que nos damos conta de que esse sentimento nos invade ou quando captamos o seu desvelar no outro. Esse dar-se conta pode surgir após um processo de interação entre duas pessoas, ou o encantamento pode aflorar de uma forma instantânea, “o amor à primeira vista”. É quando ocorre o fall in love, presente em tantas canções românticas na língua inglesa.
            Que coisa maravilhosa quando pela primeira vez somos tocados pela graça daquele lampejo no olhar de nossa parceira, quando percebemos que nossas últimas palavras, nossas últimas frases de uma conversa na qual estávamos inteiramente envolvidos já não foram mais escutadas, e o que recebemos em retorno é um brilho nos olhos a nos dizer: “Eu te amo”. Outras vezes a declaração de amor pode vir através da palavra escrita, desataviadamente, ou, o que é mais gostoso, nas entrelinhas, quando é preciso ler e reler até que não permaneçam dúvidas. Outras vezes ainda a mensagem vem pelo toque: aquele abraço que se torna diferente, aquele beijo de saudação no rosto que começa a se aproximar da boca, aquele doce e cada vez mais consentido alisar dos cabelos, tudo a nos dizer: “Sim, continue”. A partir daí tudo o mais passa a ser irrelevante, o ser amado situa-se no centro do universo, todo o resto irá gravitar em torno dele. “Quem ama ardentemente não vive em si mesmo, mas naquele que ama, e quanto mais se transfere para o outro, mais feliz fica”, proclama Erasmo de Roterdam em Elogio da Loucura, uma das obras clássicas do Renascimento, e na qual figura uma citação de Platão como considerando que “o delírio dos amantes é o mais feliz de todos”.  É com o ser amado que se vai buscar alcançar uma fusão de mentes e corpos. E para ele o pensamento se voltará sempre que liberto das concretudes da vida. Cessarão todas as preocupações quanto às iniqüidades do mundo, tudo estará em seus devidos lugares, a vida humana ganha sentido. A todo instante o par enamorado buscará um no outro a certeza de que seu amor é correspondido. Não correspondido, o amor romântico pode levar a indizíveis sofrimentos, como os do jovem Werther, inesquecível personagem de Goethe que, ao suicidar-se na bela e trágica ficção (“Os sofrimentos do jovem Werther”), acaba por inspirar uma verdadeira leva de suicídios de jovens contemporâneos do poeta alemão. Goethe justamente escreveu essa obra prima da literatura universal a partir de uma dolorosa frustração amorosa que ele próprio experimentou. As criações literárias e artísticas em geral são, aliás, formas postuladas por Freud como de substituição do desejo sexual de seus autores. Nessa mesma linha outro poeta alemão, Rainer Rilk, afirmou em um escrito de 1903, que “de fato a vivência artística está tão inacreditavelmente próxima da vivência sexual, de sua dor e de seu prazer, que os dois fenômenos na verdade constituem apenas formas diversas de um mesmo anseio e de uma mesma ventura”. Mais uma ilustração, jocosa, vem do nosso grande maestro e compositor Tom Jobim, autor de canções que já são parte do patrimônio cultural da humanidade. Preservada na Library of Congress em Washington, com esse fim, na letra e na realização de “A Garota de Ipanema” está um eloquente exemplo do que o compositor certa vez teria dito: “Cada canção que eu fiz, representa uma mulher com quem eu não transei” (ao que o humorista Millor Fernandes, que nunca compôs qualquer canção, cinicamente teria retrucado: “Cada canção que eu não fiz, foi uma mulher com quem eu transei”).
            Enquanto durar o encantamento, o amor, a paixão, o desejo, o homem estará docemente protegido do sentimento da náusea, do absurdo, do qual nos falam, respectivamente, os filósofos existencialistas franceses Sartre e Camus. Mas o amor não dura para sempre e, ao tentarmos aprisioná-lo, somente estaremos precipitando o seu fim. O amor é um pássaro rebelde, que não se pode aprisionar, canta a cigana Carmem, da ópera de mesmo nome, de Bizet. As juras de amor eterno são absolutamente falsas. Podemos coisificarmo-nos em relação a aproximações potencialmente perigosas, fechar os nossos corações em defesa de compromissos socialmente assumidos. Estaríamos seguindo o conselho de Ovídio, poeta da Roma antiga: Principiis obsta, sero medicina parata (Evita no princípio; o remédio virá tarde), ao falar dos riscos do envolvimento amoroso. Entretanto, não importando a idade biológica, estaremos sempre sujeitos a experimentarmos estados de enamoramento, e novamente a dar sentido, ainda que provisório, à vida. E a sofrermos quando o amor chega ao fim? Esse estado de melancolia é mostrado de uma forma excepcionalmente bela e triste na canção francesa “Les feuilles mortes”, cuja letra integral, com tradução, encontra-se ao final deste texto.
Estaria, então, o ser humano fadado a apaixonar-se da forma como é descrita em um infindável número de canções românticas e de obras primas da literatura universal? Seria o amor uma inebriação romântica? Uma fuga? Uma ilusão? Erick Fromm, psicanalista alemão, filósofo e sociólogo, em seu livro “A Arte de Amar”, sustenta que o amor é uma arte e, como tal, necessita ser aprendido. Para ele, não se “cai” apaixonado, o decantado fall in love de tantas lindas canções de amor. O amor não é um afeto passivo, é um “erguimento” e, não, uma “queda”. Em sua argumentação, Fromm cita o filósofo Spinoza, que diferencia os afetos entre ativos, no exercício dos quais o homem é livre, senhor de seus afetos, e passivos, quando o homem é impelido, é objeto de motivações de que ele próprio não tem consciência. O amor seria uma ação, a prática de um poder humano, só podendo ser exercido na liberdade e, jamais, como produto de uma compulsão.
Em seu livro A Náusea, Sartre nos apresenta um personagem que vive intensamente sua angústia e sabe que os expedientes e as ocupações do dia a dia nada mais são do que artimanhas para disfarçar essa condição. A família, os passeios dominicais, o enamoramento, tudo tem como única finalidade mascarar a angústia constitutiva do ser humano. Não há nenhuma razão para existir e, apesar disso, comemos e bebemos para conservar nossa preciosa existência. Ao contemplar um casal de jovens que almoça em uma mesa próxima à sua, ele reflete: “Estão a vontade... acham que o mundo está bem como está, exatamente como é, e cada um deles provisoriamente colhe o sentido de sua vida no outro. Dentro em breve constituirão uma só vida para ambos, uma vida lenta e morna que não terá qualquer sentido − mas eles não se aperceberão disso”. E prossegue: “eles vão várias vezes por semana aos bailes e aos restaurantes, para oferecer o espetáculo de suas dancinhas rituais e mecânicas... Afinal é preciso matar o tempo. São jovens... dão tempo ao tempo, e não estão errados nisso. Quando tiverem dormido juntos, terão que descobrir outra coisa para encobrir o enorme absurdo de suas existências”.
O personagem de Sartre sabe então que os expedientes e as ocupações do dia a dia nada mais são do que artimanhas para disfarçar sua condição constitutiva de angústia. De maneira semelhante Camus aborda a questão da gratuidade das atividades humanas ao comentar o mito de Sísifo. Na mitologia grega, Sísifo foi condenado pelos deuses do Olimpo a eternamente empurrar uma enorme rocha até o alto de uma montanha, da qual ela imediatamente despenca, devendo ser novamente empurrada de volta. No inútil esforço de Sísifo está contida uma metáfora para a gratuidade dos empreendimentos humanos. A vida seria um contínuo de realizações apenas parciais, onde até mesmo o amor só perdura se for contrariado. Aí está o absurdo. Ele se encontra justamente na contingência em que o homem se vê lançado no mundo sem ter sido consultado, que não lhe é compreensível, pelo contrário, lhe é imperscrutável. Ele é um estrangeiro nesse mundo, como o personagem do livro de Camus que leva o próprio título de “O Estrangeiro”.
Retornamos à epígrafe deste ensaio: “What´s this thing? Called love/ This funny thing? Called love”. Alguém se manifesta? E escutem essa obra prima: https://www.youtube.com/watch?v=Xo1C6E7jbPw
Les feuilles mortes

Oh! je voudrais tant que tu te souviennes
Oh! Gostaria tanto que você se lembrasse
Des jours heureux où nous étions amis
Dos dias felizes onde nós éramos amigos
En ce temps-là la vie était plus belle
Naquele tempo a vida era mais bela
Et le soleil plus brûlant qu’aujourd’hui
E o sol mais brilhante que o de hoje
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle
As folhas mortas recolhemos com a pá.
Tu vois, je n’ai pas oublié…
Você vê, eu não me esqueci
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle
As folhas mortas recolhemos com a pá.
Les souvenirs et les regrets aussi
As lembranças e os arrependimentos também.

Et le vent du nord les emporte
E o vento do norte as trazem.
Dans la nuit froide de l’oubli
Na noite fria do esquecimento
Tu vois, je n’ai pas oublié
Você vê, eu não me esqueci
La chanson que tu me chantais
A canção que você me cantava.
C’est une chanson qui nous ressemble
É uma canção que nos aproxima.
Toi, tu m’aimais et je t’aimais
Você, que me amava e eu te amava.
Et nous vivions tous deux ensemble
E nós vivíamos sempre juntos
Toi qui m’aimais, moi qui t’aimais
Você que me amava, eu que te amava.
Mais la vie sépare ceux qui s’aiment
Mas a vida separa aos que se amam.
Tout doucement, sans faire de bruit
Tão docemente, sem fazer barulho.
Et la mer efface sur le sable
E o mar apaga sobre a areia
Les pas des amants désunis
Os passos dos amantes apartados

Letra francesa do poeta Jack Prevert. Pode-se escutar (imprimam a letra, para melhor acompanhar a audição) essa maravilha de canção no youtube na voz de Yves Montand, o primeiro a gravá-la (1946). Os doze primeiros versos, até La chanson que tu me chantais, são declamados, somente a partir do décimo terceiro verso a letra passa a ser cantada.

Posteriormente foi feita uma versão em inglês, com o título de “The autumm leaves”, grande sucesso internacional cantada, entre outros, por Frank Sinatra e Nat King Cole, também disponíveis no youtube.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Um homem desarmado


Um homem desarmado

Ladrões de bicicleta

― Qual é, tá querendo morrer? ― o homem de olhos frios apontava um revolver para Felício, que, montado em sua bicicleta, passeando despreocupadamente em uma bastante movimentada ciclovia da cidade, acabara de fazer menção de dar um soco num vulto que se postara à sua frente, barrando seu movimento.  Felício sempre tivera um discurso de que jamais reagiria a um assalto, principalmente se envolvesse apenas bens materiais. Sua vida valia mais do que isso, a razão lhe dizia. Não era a primeira vez que era vítima de assalto. Em duas outras ocasiões muito semelhantes, dirigindo seu carro por movimentadas vias da cidade, vira, surgindo do nada, um pivete vestindo um casaco estufado, possivelmente pelo cano de uma arma, posicionar-se ao lado de sua porta. ― Passa pra cá o dinheiro, rápido, se, não, vou te estourar. ― ele não pagara para ver. Entregara aos assaltantes algumas cédulas de pequeno valor e com isso se safara incólume. Mas, dessa feita agira diferente. Ao pedalar de cabeça baixa, subitamente intuiu que aquela figura que assomava à sua frente era a de um assaltante. Foi então que armou o soco, sem perceber que havia um segundo bandido que o encarava com gélida frieza. Após uns instantes em que Felício quedou-se sem reação, o bandido de olhos frios começou a sacudir sua bicicleta: ― Sai! ― ordenou. Despertando de seu torpor, Felício lentamente apeou. Logo os meliantes tomaram a bicicleta e se foram, lenta e despreocupadamente, um deles pedalando e o outro seguindo na garupa. Aquela humilhação de ver os bandidos tranquilamente praticarem um assalto à vista de tantos, de vê-los montados em sua bicicleta enquanto ele regressava a pé à sua residência, deixou um travo amargo em Felício. Durante algum tempo a figura do homem de olhos frios surgiria em sua mente e ele fantasiava um dia reencontrá-lo e lhe dar uma paulada.

O desarmamento

A campanha pelo desarmamento gerou amplos debates na sociedade, com acaloradas discussões entre as pessoas favoráveis e as contrárias às medidas. Basicamente, uma parte da população atentava para as alarmantes estatísticas de crimes cometidos pelo uso de armas de fogo. Julgava que o recolhimento dessas armas pelos cidadãos contribuiria imensamente para a redução da violência. Em pólo oposto achavam-se aqueles que acreditavam que tal medida resultaria tão somente em deixar desarmados os homens de bem, pois os bandidos jamais se deram o trabalho de adquirir legalmente os seus mortíferos artefatos e, muito menos, os entregariam mediante um modesto ressarcimento monetário pelo governo. Dentre os que assim pensavam estava Felício, possuidor de um revólver de baixo calibre, de fabricação nacional, há muitos anos comprado e registrado dentro dos parâmetros legais então vigentes. O revolver ficava guardado em sua residência; ele jamais o levaria em seu carro, pois não se arriscaria a perder o controle caso sofresse algum tipo de agressão mais grave num trânsito progressivamente violento. E, em casa, Felício tinha plena consciência de suas limitações como atirador e da vantagem que normalmente um invasor tem sobre suas vítimas. Ele somente reagiria se tivesse uma chance concreta de ser bem-sucedido, ou, na infeliz constatação de que seria vítima de brutalidade ainda que sem esboçar qualquer reação.
Mas a campanha do desarmamento era bastante intimidadora. Toda e qualquer arma, não importando se registrada ou não dentro de trâmites legais que vieram a ser declarados sem validade, deveria ser obrigatoriamente entregue ou recadastrada junto à Polícia Federal até uma determinada data. Quem não o fizesse, e fosse descoberto portando, transportando, ou simplesmente guardando uma arma em sua residência, seria considerado um criminoso, sujeito a severas punições. Na entrega da arma, que seria destruída, regia a normativa, o governo generosamente se comprometia a indenizar o proprietário de acordo com uma tabela de modestos valores fixada consoante o tipo de armamento. Em que prazo? Esse não estava fixado, dependia do processamento, era a informação prestada a todos. Esse processamento poderia levar muitos meses, até anos.
 Felício, que na realidade não gostava de armas, pensava se devia, ou não, entregar a sua. Imaginava quão inútil era todo aquele procedimento. Seu revolver não era nada comparado com o armamento pesado – fuzis, pistolas automáticas, metralhadoras, bazucas, granadas etc. − ostentado pelos poderosos traficantes entrincheirados nas favelas, onde a polícia não ousava exercer o seu papel de defensora da lei e da ordem. Ela somente lá comparecia representada por policiais desviantes, os milicianos, que acobertavam e extorquiam traficantes. Até mesmo os bandidos avulsos que infestavam a cidade portavam impunemente armas poderosas com as quais acuavam os cidadãos. A escalada da criminalidade era uma gravíssima nódoa social, não havendo consenso entre os diversos segmentos da sociedade quanto às suas causas e, muito menos, quanto à maneira de enfrentá-la. “Bandido bom é bandido morto" ― clamavam os defensores de soluções radicais, como os justiceiros. “Pena de morte” ― pleiteavam outros que julgavam, não sem razão, excessivamente brandas as penas aplicadas aos criminosos. “Redução da maioridade penal” ― queriam aqueles já cansados de ver os bandidos de idade inferior a 16 anos, os “dimenor”, praticarem crimes de gente grande e não poderem ser trancafiados atrás das grades como criminosos que eram. “Prisão não ressocializa ninguém” ― era o argumento dos críticos do infame sistema penal do país, e por isso contrários ao encarceramento, especialmente dos “dimenor”. “Temos que cuidar da educação” ― proclamavam aqueles que acreditavam haver uma sólida correlação entre criminalidade e baixa escolaridade. “Ninguém é criminoso porque quer” ― exageravam outros mais ao eximir completamente de responsabilidade o delinquente da prática de seus atos.
Felício, afinal, optou por recadastrar o seu perigoso instrumento. Cumpriu um cansativo ritual, incluindo longos períodos passados em filas de espera formada por aqueles que, como ele, perfilavam-se para recadastrar ou depositar suas armas junto aos agentes policiais. Recebeu um certificado de registro cuja expiração de validade se daria em três anos. Anotou cuidadosamente em sua agenda. Revalidar o documento seria mera formalidade. Esqueceu o assunto.
Três anos passam rápido. ― Felício, você já viu o que estão exigindo para renovar o certificado da arma?
 ― Não, respondeu ele ao amigo que estava tomado de grande fúria. ― Pois é. Complicaram tudo. Pensávamos que revalidar a licença seria simples, pura burocracia. Não é, não! ― Tem que passar por um exame psicotécnico feito por um psicólogo e por uma avaliação de proficiência no uso de cada arma, a critério de um atirador profissional. E não pode ser com qualquer psicólogo e atirador, não. Têm que estar cadastrados na Polícia Federal! ― o amigo continuava esbravejando: ― Eu tenho quatro armas, vou ter que pagar por cada uma delas, além do psicotécnico. Caímos numa armadilha. Quando recadastramos nossas armas, demos a eles os endereços onde elas estão. Se não as devolvermos, ou as recadastrarmos de novo no prazo, eles irão lá buscá-las, seremos automaticamente considerados criminosos. ― É demais. E onde vão parar essas armas, quem pode garantir que serão todas destruídas?

Na Delegacia

Dessa vez, entre indignado e assustado, Felício decidiu que o melhor caminho seria entregar a sua arma. Mas, simplesmente trafegar com um revólver pelas ruas em direção a um posto policial já enquadraria seu proprietário como criminoso. Seria necessária a prévia emissão pela internet de uma guia de transporte do trabuco, de curtíssima validade, especificando o posto escolhido. E na guia não poderia haver qualquer espécie de rasura, o que automaticamente a invalidaria. Saindo direto de sua residência ele chegou ao local que fizera constar na guia e foi logo encaminhado ao agente encarregado da recepção de armas de entrega espontânea. O ambiente lhe desagradava, não se sentia confortável em qualquer dependência policial. Mas, de qualquer forma, o atendente, o agente Aristeu, iniciou os procedimentos afetando cordialidade. Recebeu o saco plástico das mãos de Felício e dele retirou o perigoso artefato, juntamente com algumas cápsulas de munição ainda dentro de sua embalagem original. Colocou as peças sobre o balcão ao seu lado e passou a examinar os documentos que lhe foram exibidos: a carteira de identidade do ainda proprietário da arma, o certificado de registro em vias de caducar e a guia de transporte. Compulsando esses documentos, Aristeu começou a teclar o seu computador. Muitos minutos se passaram, o teclar prosseguia sem que Felício atentasse o porquê de tanta informação precisar ser alimentada ao sistema. Todos os dados estavam na guia de transporte e no certificado de registro, e esses dados estariam no sistema, bastaria, acreditava ele, acessá-los mediante o fornecimento de algum identificador básico do possuidor da arma, como o CPF, por exemplo. Mais tempo se passa, o agente continua tamborilando o teclado, até que Felício, já desconfortável com aquela situação, pergunta: ― Está havendo algum problema? ― Não, é que temos que fazer uma pesquisa da arma ― explicou Aristeu. O que isso poderia significar? ― preocupou-se Felício, que dentro de mais alguns minutos voltou a perguntar: − E então? ― Está dando erro ― respondeu Aristeu, continuando o seu teclar. Uma sensação de desamparo começou a se apossar de Felício. Ele sabia, alguma coisa certamente tinha que dar errado. Olhou para o seu revolver colocado sobre o balcão e de súbito sentiu que aquela coisa o ameaçava, exercia um poder maligno, ele tinha que livrar-se logo dele de qualquer maneira. Ansiava pela emissão do comprovante de entrega, por escapar daquele ambiente mefítico o mais rápido possível.  Tec, tec, tec, continuava Aristeu em seu eterno ofício. ― E agora? ― É, continua dando erro. Vou ter que reiniciar. O site está com problema, proclamou Aristeu encarando Felício com uma expressão que a este não agradou. De qualquer forma, pensou, a circunstância de um site estar fora do ar poderia realmente ocorrer. Embora já invadido por uma espécie de náusea, Felício decidiu dar mais um tempo, até que finalmente perguntou ao agente se não seria o caso de desistir; ele retornaria outro dia. Aristeu então se dispôs a fazer um contato telefônico com a sede, ou alguma central; não especificou exatamente com quem falaria. Da conversa travada, Felício apenas entreouviu “... horário comercial...”. Ah, então seria isso? Era um sábado, e por essa razão não seria possível fazer a entrega da arma? Mas isso deveria estar explícito na própria guia de transporte. E agora, este sábado era justamente a data limite para a entrega conforme constava da guia. Felício estremeceu diante da ideia de ter que retornar a sua casa com aquela coisa, rezando para que nada lhe acontecesse no trajeto, voltar com ela para o escaninho de onde a retirara e emitir outra guia para um novo transporte. Com esses pensamentos perpassando a sua mente Felício pediu a Aristeu que desse fim ao procedimento. Como quem não dá muita atenção, o agente continuou em seu computador até que um já bastante deprimido Felício insistiu que não queria mais prosseguir. Aristeu, tomando o revolver, disse que iria então falar com a “Autoridade”. Desapareceu por trás de uma porta, retornando pouco tempo depois e acedeu em não mais continuar com o processo. Mas ofereceu a Felício a opção de deixar a arma com ele mediante um “recibo provisório”. Já bastante assustado, Felício não aceitou essa oferta e, com uma sensação de urgência de sair daquele ambiente, recolocou o revolver dentro do saco plástico, pegou a salvadora guia que lhe garantiria o regresso a sua casa e retirou-se. Era o início de tarde de um sábado radioso, após muitos dias de chuva, mas ele não tinha qualquer desejo de aproveitar aquela dádiva.


De volta à casa, ainda armado

Em casa, Felício retornou a arma e a caixa de munição de onde as retirara e deixou-se cair sobre a poltrona da sala. Não tinha ânimo para nada. Lentamente foi sucumbindo às lembranças de tantos episódios em que se sentira esmagado pela mão pesada da tortuosa burocracia e da justiça, pelos labirintos da lei. Logo ele, que sempre perseguira a mais absoluta correção em suas ações. Por ironia do destino, justamente por tentar ser honesto, muitas vezes acabara constatando que honestidade em excesso pode fazer muito mal em um mundo de espertos. O importante, ele agora reconhecia claramente, teria sido aprender a caminhar entre os desvãos da lei. “Você quer fazer tudo muito certinho, se estressa demais” –; “Você explica demais, acaba se ferrando” –; “Às vezes é melhor não dizer toda a verdade, o importante é ser convincente” –; tais eram as coisas que lhe diziam seus amigos. É, eles tinham razão. O importante não era a verdade, mas, sim, montar uma história que fosse verossímil. Não era assim que se procedia nos tribunais? Não era sobre historias montadas pelos advogados de acusação e de defesa que o juiz decidia? E, afinal, o que era a verdade? Mas Felício nunca conseguira ser diferente. Ele vivia enredado nos problemas do cotidiano, especialmente na teia da burocracia do Estado em todas as suas esferas, e da qual não conseguia se desvencilhar. Chegou mesmo a cunhar um desanimado aforismo: “A vida é tentar, em vão, resolver problemas”. Agora era tarde demais para mudar. Era um velho, não tinha outra perspectiva senão a de levar com dignidade o que lhe restava de vida. Ficou toda a tarde e o início da noite afundado no sofá até que, tomando o controle remoto, ligou o aparelho de televisão. Do telejornal da noite jorravam as notícias de sempre: corrupção, violência, descaso das autoridades, impunidade, calamidades. Seus valores estavam em completa dissonância com o mundo atual. Desligou o aparelho. Permaneceu em estagio letárgico até levantar-se ao raiar do dia.

Novamente em uma Delegacia

Levantou-se naquela manhã de domingo, preparou seu café e o sorveu em lentos goles. Voltou a sentar-se em sua poltrona, sem vontade para nada, novamente imerso em um balanço de uma vida que lhe parecia equivocada. Mas, havia ainda algo de concreto em sua náusea. Esse algo era a arma, lá escondida, um cadáver insepulto a exalar sua pestilência. Era preciso se livrar dela o mais rápido possível, sua presença o manteve insone durante toda a noite. Ao finalmente levantar-se na manhã de segunda feira foi tomado pela urgência de dirigir-se o mais rápido possível a outro posto de entrega de armas (não retornaria em nenhuma hipótese ao anterior) para fazer o que não podia mais ser postergado. Ligou o computador buscando o site para a necessária emissão da guia de transporte. Recebeu a mensagem de que o site estava momentaneamente indisponível. Desesperou-se. E se o site assim permanecesse até a data de expiração de seu certificado provisório? Tentou mais algumas vezes, até que finalmente o site se abriu. Freneticamente preencheu todos os dados, ligou a impressora e clicou: imprimir. Nada. A mensagem era a de que o documento não podia ser impresso. Estremeceu. Os policiais já estavam a caminho, invadiriam seu apartamento e o carregariam para uma prisão inafiançável. Não, ele apenas delirava, era preciso manter a calma. Após mais algumas tentativas frustradas, imaginou que o problema com a impressora poderia ser pura e simplesmente falta de tinta no cartucho. Saiu de casa e, com a impressão de estar sendo atentamente observado nas ruas, dirigiu-se ao info-shopping mais próximo e comprou um novo cartucho. Instalou-o na impressora, clicou novamente: imprimir. Dessa feita, o milagre ocorreu: lá estava a guia impressa, sem qualquer rasura. Não havia tempo a perder. Revolver e caixa de munição no saco plástico, a salvadora guia em mãos, Felício tomou um taxi e dirigiu-se ao novo posto policial escolhido. Dessa feita, contrariando suas expectativas, o ritual de emissão do certificado definitivo de entrega da arma lhe foi fornecido pelo atendente, juntamente com um número de registro que, juntamente com uma senha cadastrada por Felício naquele ato, lhe permitiria, dentro de poucos dias, sacar diretamente de um caixa eletrônico de um banco a indenização estabelecida pelo governo. À sua pergunta se já estava tudo certo, se ele poderia ir embora, o policial lhe disse que sim, se houvesse qualquer problema, eles tinham o seu telefone, o chamariam.   “E por que haveriam de chamá-lo?”  ― inquietou-se. Ainda não dava para relaxar completamente.
  

Um homem desarmado

Naquela noite Felício, deitado em sua cama, finalmente conseguiu pregar os olhos, começando um sono intranqüilo. Subitamente escutou um barulho como que produzido por alguém forçando a porta de entrada de seu apartamento, seguido de um discreto estalido de arrombamento. Apurou os ouvidos e, em seguida, o que se ouviu foram leves passos pelo corredor. Felício fez menção de buscar a sua arma em seu esconderijo, mas ela não estava mais lá! Agora, mais que a presença, é a ausência do revolver que o deixava desesperado. Coração descompassado, encharcado de suor, Felício se contraiu em seu leito a espera do fim inexorável.  Ainda escutou os passos por muito tempo a ressoar em seu apartamento, até o retorno do silêncio. Ao levantar-se pela manhã Felício foi, de súbito, acometido pela consciência de que algo terrível ocorrera em sua casa. “Sim, é claro, sua casa fora assaltada.” Lembrou-se de tudo. Correu à porta de entrada para verificar o a arrombamento. Não constatou qualquer sinal de violação, ela estava intacta, assim como o trinco, a fechadura e a corrente que a ligava ao portal. “Incrível” – pensou. Buscando evidências da passagem do ladrão por sua casa, passou horas checando armários, cômodas, revirando papeis. Nada encontrou que comprovasse a ocorrência de um assalto.

Desespero

Mais uma noite e novamente Felício escutou passos, dessa vez na varanda de seu apartamento. Entreabriu os olhos e divisou sombras atrás da cortina que recobria o vidro da porta divisória do quarto com a varanda. Eram vultos que o espreitavam malignamente, ele sentiu. Novamente o suor, a náusea, mas logo se deu conta de que precisava agir rápido antes que aqueles abutres se lançassem sobre ele. Sacando rapidamente o revolver que guardava sob o travesseiro, Felício removeu de um só golpe a cortina e atirou repetidas vezes através do vidro contra os invasores, que tombaram ensanguentados. Olhou aqueles corpos e sentiu um horror indizível diante do que acabara de fazer. Precisava se livrar imediatamente daquela mortalha. Acordou com aquela vívida sensação, até constatar que as divisórias de vidro estavam intactas, não havia nenhum corpo na varanda, e se dar conta de que sua arma já fora entregue à polícia havia já vários dias.

A saidinha de banco

Bem cedo pela manhã do primeiro dia a partir do qual poderia sacar a sua indenização Felício dirigiu-se a um caixa automático do banco designado para tal fim. Era o único cliente ali presente. Teclou cuidadosamente a longa série de números do registro e em seguida a senha: duas notas saltaram da máquina. Olhou para os lados, não havia ninguém, colocou-as na carteira e saiu do banco. Mas, na calçada, houvera uma testemunha de seu ato:
― Perdeu, mané! Perdeu! Passa pra cá a carteira se, não, eu te estouro aqui, agora. ― Felício sentiu o sinistro cano de uma arma pressionando sua lombar, e que sua vida estava inteiramente nas mãos daquele que o proclamava: “Mané!” ― qualquer movimento errado, qualquer vacilação e ele teria sua coluna partida pelo tiro do bandido. Ele era, sim, inequivocamente um mané, sempre fora um mané. Não esboçou qualquer reação enquanto a mão nervosa do pivete se introduzia em seu bolso e lhe surrupiava a carteira; mas, ainda assim, o dedo nervoso da mão que empunhava o revolver apertou o gatilho e deu-se um disparo. Assustado, o pivete fugiu em disparada, deixando cair a arma ao solo. Na rua, até então praticamente deserta, logo começaram a surgir pessoas atraídas pelo ruído de um tiro. – O que aconteceu? ― era a questão de todos. – Eu só sei que escutei um barulho de tiro, vi uma pessoa correndo e este senhor caído no chão. Deve estar muito ferido. – Olha só, um revolver! – disse uma terceira pessoa. – Não mexe nisso. Vamos chamar a polícia e uma ambulância. Urgente!

Epílogo


Felício dera muita sorte de escapar com vida. Surpreendentemente a ambulância atendeu prontamente ao chamamento e o transportou ao hospital público mais próximo. O tremor das mãos do atirador resultara em um desvio do cano da arma para fora de sua coluna. O ferimento fora grave, mas uma cirurgia muito bem conduzida afastara o risco de morte. Felício, um paciente não identificado, já despertara da inconsciência da anestesia quando, na tela de um velho aparelho de televisão situado na enfermaria do hospital, viu a conhecida face do locutor do telejornal anunciar: “A polícia ainda não conseguiu identificar o assaltante que baleou um idoso em mais um golpe conhecido como saidinha de banco. Mas já tem uma pista: a numeração da arma do crime identifica que o nome do seu proprietário é Felício Praxedes Antunes de Souza, que se encontra desaparecido. A polícia está em seu encalço, e há expectativa de que ele será encontrado dentro de 24 horas”. Numa só pessoa, Felício era, ao mesmo tempo, a vítima e o agressor da vítima. 

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Ninguém mais escuta nada

Ninguém mais escuta nada

Por longos anos trabalhamos em uma mesma empresa e, grandes amigos, almoçávamos juntos com muita regularidade. Esses encontros se espaçaram quando mudamos para diferentes empregos. Mas, era sempre um prazer reencontrar o Eurico em uma mesa de restaurante. Ele chegou antes de mim, lá estava sentado, parecia alegre, descontraído. Ao aproximar-me, constatei, bastante surpreso, que ele sorvia, de um copo guarnecido com pedras de gelo e rodelas de limão, um refrigerante que logo identifiquei pela garrafa vazia sobre a mesa: Água Tônica. Bastante surpreso, pois sabia do horror que o amigo devotava a tal bebida, perguntei, antes mesmo de saudá-lo: “Eurico, você, bebendo Água Tônica, e com gelo e limão?” – Com um olhar diabólico respondeu-me: “Lembra-se, sempre que eu, no restaurante, pedia Mirinda ou Sukyta e nunca tinha? E que então eu pedia Coca Cola, sem gelo e limão no copo, e não adiantava nada? E que eu ficava muito brabo? Porque eu detesto gelo e limão no refrigerante? Lembra?” – é claro que eu jamais esqueceria os verdadeiros ataques que o meu amigo dava com os garçons, tendo mesmo chegado a derramar todo o conteúdo de um copo no chão do restaurante. Mas, não esperou a minha resposta. Continuou, o olho rútilo: “Pois é. Como não tem mesmo jeito, o refrigerante virá sempre com gelo e limão, eu agora peço Água Cômica, que é um refrigerante tão ruim que nem gelo e limão vai fazê-lo pior”. E terminou, agora relaxado, tamborilando os dedos sobre a mesa: “Então, eu agora só bebo Água Cômica.” ― em tempo: o meu pedido de água mineral sem gás foi, naturalmente atendido com uma água mineral com gás. E, ao sacar o cartão para pagar a conta informei claramente ao garçom: crédito. Ele, como um autômato, me perguntou: débito ou crédito?
Iniciei esta crônica relatando um divertido episódio para falar de um fenômeno pós moderno em nossa sociedade: Ninguém mais escuta nada. Poderíamos citar um sem número de casos no dia a dia de completa falta de escuta em nossa comunicação presencial ou através dos meios fornecidos pela técnica ― telefone, internet (especialmente pelas redes sociais, onde frequentemente se responde a uma postagem de forma atravessada, sem qualquer reflexão), etc. Ficaremos numa situação montada a partir de uma ligação de um cliente para o tele atendimento de uma operadora, e inspirada na fábula política de George Orwell, A Revolução dos Bichos, que assim termina:
“As criaturas de fora [da sala] olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco.” (os porcos haviam assumido os vícios dos humanos a quem haviam expulsado da fazenda). Transpondo para a pós modernidade:
“Se o seu problema é isto, disque 1; se é isso, disque 2; se é aquilo, disque 3, se é mais aquilo, disque 4; se é... disque 7; para repetir o menu de opções, disque 8; se quiser falar com um de nossos operadores, disque 9”. Continua a voz gravada: “Um momento, que estaremos transferindo sua ligação". ― ouve-se uma musiquinha. Novamente a gravação: “No momento, todos os nossos operadores estão ocupados. Tente mais tarde.” A ligação cai. Nova tentativa: “Se o seu problema...”. ― cai, outra vez. Mais uma tentativa, escuta-se o menu eletronicamente fornecido. Atende, finalmente, uma voz humana, ao vivo: “SENHOR, em que posso ajudá-lo”? ― o cliente explica claramente o seu problema. A atendente não escuta. O demandante repete uma, duas, três vezes, e a atendente: “SENHOR..., SENHOR..., SENHOR...” ― ela não se conecta com a pergunta. “Já expliquei três vezes qual é o meu problema” ― se enfurece o suplicante. “SENHOR, um momento que estaremos transferindo a sua ligação para outra atendente”. ― a outra atendente: “Um momento que estaremos verificando a sua reclamação”. “SENHOR, o seu problema somente poderá estar sendo tratado pelo nosso site.” “Mas eu já entrei no site, e lá está dito que esse problema só pode ser atendido pela Central de Atendimento.” ― “SENHOR, um momento que estaremos gerundizando o protocolo de sua reclamação.” ― uma espera. “Queira estar anotando o número do seu protocolo: 6666666666; a Operadora Demoníaca agradece a sua ligação e lhe deseja uma boa tarde.” ― ligação encerrada. Ao ter sido passado do atendimento automático para a voz humana, da voz humana para a máquina, da máquina outra vez para a voz humana, para o suplicante já era impossível distinguir quem era homem, quem era máquina. Era a Revolução das Máquinas. Ninguém mais escuta nada.
Assim terminava a crônica que escrevi há alguns anos, e postada no blog cujo conteúdo inadvertidamente foi inteiramente deletado. A parte relativa à paródia do livro de George Orwell, “A revolução dos bichos”, já foi postada isoladamente no blog em fase de reconstituição sob o nome de “A revolução das máquinas”. Quando escrevi a crônica original, a febre do uso do WhatsApp ainda estava em fase de conquistar corações e mentes dos aficionados na comunicação digital. Hoje, esse aplicativo nos telefones celulares já de longe supera todos os demais instalados num aparelho originariamente concebido para ser usado como telefone. No frenético batucar dos dedos sobre teclas, andando nas ruas, ao volante dos automóveis, nas salas de cinema e de shows, em qualquer lugar, o que se pode esperar em termos de uma comunicação clara entre os interlocutores? Frequentemente, estática na “escuta” das mensagens.
Retornando ao mundo da comunicação presencial, descrevo uma situação pela qual passei há alguns dias para mais uma ilustração do meu ponto. Necessitando comprar um novo carregador para o meu notebook – o meu deixara de carregar a bateria - procurei em duas lojas de artigos de informática por um de fabricação DELL. Não havia o modelo que eu buscava, em ambas estava para chegar, ao preço de R$ 90,00 na primeira das lojas e a R$ 99,00 na segunda. Tentando resolver logo o problema, fui a uma terceira loja, onde igualmente não havia carregador DELL, pelo que me foi oferecido pelo atendente (proprietário?) um genérico, que se adaptaria a qualquer tipo de notebook. À minha observação de desconfiança na qualidade do equipamento ao constatar que era produto chinês de marca desconhecida, ele respondeu enfaticamente: “Tudo hoje é fabricado na China.” ― ao que retruquei: “Eu sei, quase tudo é fabricado na China, mas qual a garantia de qualidade quando a marca é uma Xing-Ling qualquer?” – “A Microsoft fabrica tudo na China, insistiu ele.” – E eu, novamente: “Eu sei, a China tem tecnologia para mandar o homem à lua, estão extremamente desenvolvidos, não vão relaxar na qualidade quando fabricam para a Microsoft, para a própria DELL ou para qualquer outra marca internacionalmente respeitada, o problema é quando não estão comprometidos, quando apenas querem conquistar mercados, como o Japão fez nas décadas de 60 e 70 do século passado”. Achei que colocara com clareza o meu ponto. Qual nada, ele contra-atacou na mesma linha: “A Philips fabrica tudo na China.” – Eu, já irritado, respondi que ele não escutava nada, decidi examinar o genérico, e aí me dei conta de que ainda não perguntara o preço. “R$ 78,00” ― respondeu. Disse-lhe que a esse preço eu preferiria comprar um DELL, não me importando se fabricado na China, por R$ 90,00, ao que ele reagiu com um sorriso irônico dizendo que seria impossível comprar um DELL por R$ 90,00. Saí imediatamente da loja agradecendo, agora na minha vez de ser sarcástico, a gentileza com que ele tratava seus clientes.
Para terminar, fui a uma quarta loja onde o mesmo genérico me foi ofertado, e por apenas R$ 60,00. Manifestei novamente desconfiança quanto à qualidade do equipamento. Comprei, com a condição prontamente aceita, de que, caso não funcionasse, eu o trocaria por algum outro artigo. Cheguei em casa e logo conectei o carregador. Mensagem: “Conectado, mas não carregando.” Minhas suspeitas se confirmaram. Devolvi o genérico e troquei por um cartucho de tinta. Assim, como toda regra tem exceção, esse comerciante não só escutara o que eu dissera como cumpriu o acordado.
Vou comprar um DELL, muito provavelmente fabricado na China, certo de sua qualidade.


Outubro/2017

domingo, 1 de outubro de 2017

É proibido proibir?


É PROIBIDO PROIBIR?

           
            O lema, cunhado na década de 1960, foi uma reação natural de artistas e intelectuais ao regime de supressão de liberdades imposto pelo regime militar no Brasil. A própria frase é contraditória em si mesma. Proibido proibir significa permitir tudo, indiscriminadamente, inclusive a liberdade de proibir. Seria, então, permitido exercer a liberdade de proibir? Mas, deixando de lado especulações de caráter filosófico, constatamos que a frase fazia sentido naquele contexto histórico, serviu de bandeira a todos aqueles que clamavam por liberdade. Hoje, contrariamente, parece tudo estar permitido ― “Tout est pardonné”, prega-se após o bárbaro atentado contra cartunistas franceses em janeiro de 2015 (novamente, pode-se questionar: Perdoar até mesmo o próprio atentado?) ― num movimento pendular muito típico dos modos de ser dos humanos. Este sentimento de que é proibido proibir, num momento de quase completa libertinagem em nossa sociedade, é absolutamente nefasto. Examinemos o contexto em que tal máxima continua inspirando atitudes.
            Vivemos tempos de individualismo exacerbado, de hipercompetição, da negação da alteridade, da afirmação pelo alcance do sucesso social a qualquer preço, da substituição do ser pelo ter e, até mesmo, pelo simples parecer ter, de corrupção. A possibilidade de dizer não, de colocação de limites, é questionada como manifestação de resquícios de autoritarismo, de repressão. Como resultado, pais e educadores sentem-se tolhidos no exercício de seus papéis sociais. Confunde-se o exercício da autoridade quando ela se faz necessária com o puro e simples autoritarismo. Aos pais é imputada toda a responsabilidade, quando não a culpa, pela dificuldade no diálogo com seus filhos. Aos professores, culpa-se pelo mau desempenho escolar e comportamento agressivo dos alunos. Pela televisão, pela leitura dos jornais e pelo exercício da clínica psicoterapêutica vemos professores acuados moral e, cada vez mais, fisicamente, pelos alunos.  As cidades vivem a desordem urbana, os marginais cada vez mais usurpando o poder dos governantes. Completamente desmoralizadas, mergulhadas em um atoleiro de corrupção, autoridades constituídas já em nada se diferenciam da bandidagem que lhes cabe combater. A sociedade pede providências, exige ação de seus governantes. No plano individual as pessoas sentem-se muito ciosas de seus direitos, como algo que lhes foi sonegado durante os anos de governos militares, e não aceitam limites. Mas a contrapartida a esses direitos, os deveres do cidadão, parece cada vez menos imbuída nessas mesmas pessoas.
            Estados fracassam quando os governos nacionais, destituídos de autoridade, perdem o controle de parte ou de todo o seu território e não podem mais garantir a segurança física de seus cidadãos. Quando os governos perdem o monopólio do poder, a lei e a ordem começam a se desintegrar. Quando não conseguem mais prover serviços básicos como educação, saúde pública e alimentação eles perdem sua legitimidade. Um governo nessas condições pode perder a capacidade de coletar os tributos necessários a uma efetiva governabilidade. Consequentemente, as sociedades se tornam fragmentadas e sem coesão para tomar decisões. Esses Estados, referidos como Failing States (Estados Fracassados) pelo economista e pensador social Lester Brown, já compreendem uma extensa lista de países, a maioria deles localizada no continente africano. E essa lista só faz aumentar.
            No campo social vemos, não somente nos “Estado Fracassados” já assim caracterizados, mas também no Brasil, cada dia mais sinais alarmantes de quebra dos parâmetros mínimos que balizam a civilização.  Alastram-se a corrupção, os desmandos e a inépcia nos poderes constituídos – Executivo, Legislativo e Judiciário – e o país avança perigosamente para a anarquia em sua pior acepção. A transgressão torna-se regra. A aplicação da lei, com a punição dos culpados, é cada vez mais escamoteada por tecnicalidades jurídicas, quando não pela pura e simples venda de sentenças por magistrados completamente divorciados da majestade de suas funções. Freud, em seu texto “O mal estar na civilização”, traça importantes considerações sobre os aspectos que caracterizariam a civilização. Segundo ele, um desses aspectos mais próprios da civilização seria a maneira pela qual os relacionamentos mútuos dos homens, seus relacionamentos sociais, são regulados. Freud entende que o elemento de civilização entra em cena com a primeira tentativa de fazer-se tal regulação, pois sem regulamentos os relacionamentos ficariam sujeitos à vontade arbitrária do indivíduo, prevalecendo à vontade dos fisicamente mais fortes a decidir no sentido de seus próprios interesses e impulsos instintivos. A vida humana em comum só se torna possível, prossegue ele, com a reunião de uma maioria mais forte do que qualquer indivíduo isolado, e que permanece unida contra todo e qualquer indivíduo isolado. O poder da comunidade desta forma se estabelece como “direito”, em oposição ao poder do indivíduo, condenado como “força bruta”. O poder da comunidade substituindo o poder do indivíduo constituindo o passo decisivo da civilização. Assim sendo, a justiça é a primeira exigência da civilização, o que implica na criação da lei que, uma vez criada, não será violada em favor de um indivíduo. Subjacente à implantação do Estado regulado por leis limitando as liberdades individuais está a aceitação de uma outra conceituação de Freud, segundo a qual os homens não são criaturas gentis que desejam ser amadas, mas que, contrariamente, são criaturas cujos dotes instintivos incorporam uma poderosa parcela de agressividade. E essa agressividade seria inata ao homem, existindo desde os tempos primitivos, o que contraria a crença comunista de que o homem é inteiramente bom, mas que sua natureza teria sido corrompida pela instituição da propriedade privada. Freud, em suma, crê na necessidade da repressão dos instintos do homem em prol da civilização.    
            Ao que parece a história tem dado razão a Freud. O “É proibido proibir” (libera-se, então, a tortura, o incesto, o estupro, a pedofilia, o racismo, a apologia do nazismo?), o laissez faire, a falta do exercício da autoridade tem feito muito mal às sociedades, da lassidão dos costumes às periódicas crises do capitalismo. A ação reguladora e fiscalizadora do Estado tem se demonstrado essencial para o funcionamento da sociedade, no Brasil ou em qualquer outro país. Quando, no regime capitalista, se levam às últimas consequências crenças fundamentalistas na ação da “mão invisível que regula os mercados” e no “quanto menos governo, melhor” apregoado pelo neoliberalismo, pode-se chegar ao total caos nos mercados. Tal situação foi atingida nas recorrentes crises econômico-financeiras que assolam o mundo, como já acontecera a partir do célebre crack da Bolsa norte-americana em 1929, sendo a de 2009 a mais recente. Não há qualquer comprovação científica para a existência da tal mão invisível. Ela se baseia no pressuposto de que o mercado aloca recursos de uma forma que nenhum planejamento centralizado (como adotado nos países de regime comunista) pode fazer, facilmente equilibrando a oferta e a demanda. Esta teoria, mesmo admitindo-se como sendo conceitualmente correta, tem graves falhas. E isto porque na vida real os preços de mercado não incorporam os custos indiretos da produção de mercadorias, tais como os custos ambientais, os custos sociais e os custos militares envolvidos em garantir suprimento de matérias primas em regiões politicamente instáveis. É o que acontece, por exemplo, no caso do petróleo, que nos Estado Unidos, deixam de incorporar os imensos custos da mobilização militar e das guerras travadas para garantir acesso àquele suprimento vital. Assim sendo, os preços de mercado estão distorcidos, e é sobre uma referência de preços distorcidos que a mão invisível atua realocando recursos. Diametralmente oposto ao fundamentalismo do mercado está a exacerbação do planejamento centralizado, na desenfreada estatização da atividade econômica, podendo, no extremo, levar ao stalinismo. Neste caso, o que é completamente proibida é a livre iniciativa.
            Tanto uma quanto outra destas formas extremas de organização econômica das relações humanas, o turbo capitalismo e o comunismo, uma por excesso de liberdade, outra por excesso de proibições, levaram os países que escolheram tais regimes a sérias crises. Embora o filósofo Sartre tenha afirmado que o homem é livre para fazer suas escolhas, este tem se mostrado tentado a fazer escolhas pelos extremos. O provérbio romano diz que a virtude está no meio. Talvez a melhor forma de se atentar para este conselho seja a de se buscar uma combinação entre pilares do capitalismo, como a livre iniciativa, e do socialismo, como a presença do Estado no papel de agente regulador e controlador, um freio à ganância. Se o Estado extrapola as suas funções, a questão não é o Estado, ele não é o problema, como dizia o presidente Ronald Reagan, arauto e apóstolo mor do neoliberalismo, mas, sim, o ser humano. Não é proibindo a intervenção do Estado sobre a economia que se atingirá a melhor organização social possível. A intervenção do Estado é necessária, sim. Na sua ausência, implanta-se o caos nos mercados, que só retomam a sua caracteristicamente precária situação de equilíbrio justamente pela ação estatal anteriormente repudiada.

José Antonio de Carvalho e Silva
Setembro/2015