segunda-feira, 6 de novembro de 2017

O AMOR


O AMOR
What´s this thing? Called love
This funny thing?/ Called love (...)

Não existe resposta para essa indagação que o grande compositor norte-americano Cole Porter propõe em sua bela canção “What´s this thing called love?”. O que é essa coisa engraçada chamada amor?. Não há como definir-se racionalmente esse sentimento. Mas sabe-se perfeitamente quando se está enamorado, pode-se captar o momento mesmo em que nos damos conta de que esse sentimento nos invade ou quando captamos o seu desvelar no outro. Esse dar-se conta pode surgir após um processo de interação entre duas pessoas, ou o encantamento pode aflorar de uma forma instantânea, “o amor à primeira vista”. É quando ocorre o fall in love, presente em tantas canções românticas na língua inglesa.
            Que coisa maravilhosa quando pela primeira vez somos tocados pela graça daquele lampejo no olhar de nossa parceira, quando percebemos que nossas últimas palavras, nossas últimas frases de uma conversa na qual estávamos inteiramente envolvidos já não foram mais escutadas, e o que recebemos em retorno é um brilho nos olhos a nos dizer: “Eu te amo”. Outras vezes a declaração de amor pode vir através da palavra escrita, desataviadamente, ou, o que é mais gostoso, nas entrelinhas, quando é preciso ler e reler até que não permaneçam dúvidas. Outras vezes ainda a mensagem vem pelo toque: aquele abraço que se torna diferente, aquele beijo de saudação no rosto que começa a se aproximar da boca, aquele doce e cada vez mais consentido alisar dos cabelos, tudo a nos dizer: “Sim, continue”. A partir daí tudo o mais passa a ser irrelevante, o ser amado situa-se no centro do universo, todo o resto irá gravitar em torno dele. “Quem ama ardentemente não vive em si mesmo, mas naquele que ama, e quanto mais se transfere para o outro, mais feliz fica”, proclama Erasmo de Roterdam em Elogio da Loucura, uma das obras clássicas do Renascimento, e na qual figura uma citação de Platão como considerando que “o delírio dos amantes é o mais feliz de todos”.  É com o ser amado que se vai buscar alcançar uma fusão de mentes e corpos. E para ele o pensamento se voltará sempre que liberto das concretudes da vida. Cessarão todas as preocupações quanto às iniqüidades do mundo, tudo estará em seus devidos lugares, a vida humana ganha sentido. A todo instante o par enamorado buscará um no outro a certeza de que seu amor é correspondido. Não correspondido, o amor romântico pode levar a indizíveis sofrimentos, como os do jovem Werther, inesquecível personagem de Goethe que, ao suicidar-se na bela e trágica ficção (“Os sofrimentos do jovem Werther”), acaba por inspirar uma verdadeira leva de suicídios de jovens contemporâneos do poeta alemão. Goethe justamente escreveu essa obra prima da literatura universal a partir de uma dolorosa frustração amorosa que ele próprio experimentou. As criações literárias e artísticas em geral são, aliás, formas postuladas por Freud como de substituição do desejo sexual de seus autores. Nessa mesma linha outro poeta alemão, Rainer Rilk, afirmou em um escrito de 1903, que “de fato a vivência artística está tão inacreditavelmente próxima da vivência sexual, de sua dor e de seu prazer, que os dois fenômenos na verdade constituem apenas formas diversas de um mesmo anseio e de uma mesma ventura”. Mais uma ilustração, jocosa, vem do nosso grande maestro e compositor Tom Jobim, autor de canções que já são parte do patrimônio cultural da humanidade. Preservada na Library of Congress em Washington, com esse fim, na letra e na realização de “A Garota de Ipanema” está um eloquente exemplo do que o compositor certa vez teria dito: “Cada canção que eu fiz, representa uma mulher com quem eu não transei” (ao que o humorista Millor Fernandes, que nunca compôs qualquer canção, cinicamente teria retrucado: “Cada canção que eu não fiz, foi uma mulher com quem eu transei”).
            Enquanto durar o encantamento, o amor, a paixão, o desejo, o homem estará docemente protegido do sentimento da náusea, do absurdo, do qual nos falam, respectivamente, os filósofos existencialistas franceses Sartre e Camus. Mas o amor não dura para sempre e, ao tentarmos aprisioná-lo, somente estaremos precipitando o seu fim. O amor é um pássaro rebelde, que não se pode aprisionar, canta a cigana Carmem, da ópera de mesmo nome, de Bizet. As juras de amor eterno são absolutamente falsas. Podemos coisificarmo-nos em relação a aproximações potencialmente perigosas, fechar os nossos corações em defesa de compromissos socialmente assumidos. Estaríamos seguindo o conselho de Ovídio, poeta da Roma antiga: Principiis obsta, sero medicina parata (Evita no princípio; o remédio virá tarde), ao falar dos riscos do envolvimento amoroso. Entretanto, não importando a idade biológica, estaremos sempre sujeitos a experimentarmos estados de enamoramento, e novamente a dar sentido, ainda que provisório, à vida. E a sofrermos quando o amor chega ao fim? Esse estado de melancolia é mostrado de uma forma excepcionalmente bela e triste na canção francesa “Les feuilles mortes”, cuja letra integral, com tradução, encontra-se ao final deste texto.
Estaria, então, o ser humano fadado a apaixonar-se da forma como é descrita em um infindável número de canções românticas e de obras primas da literatura universal? Seria o amor uma inebriação romântica? Uma fuga? Uma ilusão? Erick Fromm, psicanalista alemão, filósofo e sociólogo, em seu livro “A Arte de Amar”, sustenta que o amor é uma arte e, como tal, necessita ser aprendido. Para ele, não se “cai” apaixonado, o decantado fall in love de tantas lindas canções de amor. O amor não é um afeto passivo, é um “erguimento” e, não, uma “queda”. Em sua argumentação, Fromm cita o filósofo Spinoza, que diferencia os afetos entre ativos, no exercício dos quais o homem é livre, senhor de seus afetos, e passivos, quando o homem é impelido, é objeto de motivações de que ele próprio não tem consciência. O amor seria uma ação, a prática de um poder humano, só podendo ser exercido na liberdade e, jamais, como produto de uma compulsão.
Em seu livro A Náusea, Sartre nos apresenta um personagem que vive intensamente sua angústia e sabe que os expedientes e as ocupações do dia a dia nada mais são do que artimanhas para disfarçar essa condição. A família, os passeios dominicais, o enamoramento, tudo tem como única finalidade mascarar a angústia constitutiva do ser humano. Não há nenhuma razão para existir e, apesar disso, comemos e bebemos para conservar nossa preciosa existência. Ao contemplar um casal de jovens que almoça em uma mesa próxima à sua, ele reflete: “Estão a vontade... acham que o mundo está bem como está, exatamente como é, e cada um deles provisoriamente colhe o sentido de sua vida no outro. Dentro em breve constituirão uma só vida para ambos, uma vida lenta e morna que não terá qualquer sentido − mas eles não se aperceberão disso”. E prossegue: “eles vão várias vezes por semana aos bailes e aos restaurantes, para oferecer o espetáculo de suas dancinhas rituais e mecânicas... Afinal é preciso matar o tempo. São jovens... dão tempo ao tempo, e não estão errados nisso. Quando tiverem dormido juntos, terão que descobrir outra coisa para encobrir o enorme absurdo de suas existências”.
O personagem de Sartre sabe então que os expedientes e as ocupações do dia a dia nada mais são do que artimanhas para disfarçar sua condição constitutiva de angústia. De maneira semelhante Camus aborda a questão da gratuidade das atividades humanas ao comentar o mito de Sísifo. Na mitologia grega, Sísifo foi condenado pelos deuses do Olimpo a eternamente empurrar uma enorme rocha até o alto de uma montanha, da qual ela imediatamente despenca, devendo ser novamente empurrada de volta. No inútil esforço de Sísifo está contida uma metáfora para a gratuidade dos empreendimentos humanos. A vida seria um contínuo de realizações apenas parciais, onde até mesmo o amor só perdura se for contrariado. Aí está o absurdo. Ele se encontra justamente na contingência em que o homem se vê lançado no mundo sem ter sido consultado, que não lhe é compreensível, pelo contrário, lhe é imperscrutável. Ele é um estrangeiro nesse mundo, como o personagem do livro de Camus que leva o próprio título de “O Estrangeiro”.
Retornamos à epígrafe deste ensaio: “What´s this thing? Called love/ This funny thing? Called love”. Alguém se manifesta? E escutem essa obra prima: https://www.youtube.com/watch?v=Xo1C6E7jbPw
Les feuilles mortes

Oh! je voudrais tant que tu te souviennes
Oh! Gostaria tanto que você se lembrasse
Des jours heureux où nous étions amis
Dos dias felizes onde nós éramos amigos
En ce temps-là la vie était plus belle
Naquele tempo a vida era mais bela
Et le soleil plus brûlant qu’aujourd’hui
E o sol mais brilhante que o de hoje
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle
As folhas mortas recolhemos com a pá.
Tu vois, je n’ai pas oublié…
Você vê, eu não me esqueci
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle
As folhas mortas recolhemos com a pá.
Les souvenirs et les regrets aussi
As lembranças e os arrependimentos também.

Et le vent du nord les emporte
E o vento do norte as trazem.
Dans la nuit froide de l’oubli
Na noite fria do esquecimento
Tu vois, je n’ai pas oublié
Você vê, eu não me esqueci
La chanson que tu me chantais
A canção que você me cantava.
C’est une chanson qui nous ressemble
É uma canção que nos aproxima.
Toi, tu m’aimais et je t’aimais
Você, que me amava e eu te amava.
Et nous vivions tous deux ensemble
E nós vivíamos sempre juntos
Toi qui m’aimais, moi qui t’aimais
Você que me amava, eu que te amava.
Mais la vie sépare ceux qui s’aiment
Mas a vida separa aos que se amam.
Tout doucement, sans faire de bruit
Tão docemente, sem fazer barulho.
Et la mer efface sur le sable
E o mar apaga sobre a areia
Les pas des amants désunis
Os passos dos amantes apartados

Letra francesa do poeta Jack Prevert. Pode-se escutar (imprimam a letra, para melhor acompanhar a audição) essa maravilha de canção no youtube na voz de Yves Montand, o primeiro a gravá-la (1946). Os doze primeiros versos, até La chanson que tu me chantais, são declamados, somente a partir do décimo terceiro verso a letra passa a ser cantada.

Posteriormente foi feita uma versão em inglês, com o título de “The autumm leaves”, grande sucesso internacional cantada, entre outros, por Frank Sinatra e Nat King Cole, também disponíveis no youtube.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Um homem desarmado


Um homem desarmado

Ladrões de bicicleta

― Qual é, tá querendo morrer? ― o homem de olhos frios apontava um revolver para Felício, que, montado em sua bicicleta, passeando despreocupadamente em uma bastante movimentada ciclovia da cidade, acabara de fazer menção de dar um soco num vulto que se postara à sua frente, barrando seu movimento.  Felício sempre tivera um discurso de que jamais reagiria a um assalto, principalmente se envolvesse apenas bens materiais. Sua vida valia mais do que isso, a razão lhe dizia. Não era a primeira vez que era vítima de assalto. Em duas outras ocasiões muito semelhantes, dirigindo seu carro por movimentadas vias da cidade, vira, surgindo do nada, um pivete vestindo um casaco estufado, possivelmente pelo cano de uma arma, posicionar-se ao lado de sua porta. ― Passa pra cá o dinheiro, rápido, se, não, vou te estourar. ― ele não pagara para ver. Entregara aos assaltantes algumas cédulas de pequeno valor e com isso se safara incólume. Mas, dessa feita agira diferente. Ao pedalar de cabeça baixa, subitamente intuiu que aquela figura que assomava à sua frente era a de um assaltante. Foi então que armou o soco, sem perceber que havia um segundo bandido que o encarava com gélida frieza. Após uns instantes em que Felício quedou-se sem reação, o bandido de olhos frios começou a sacudir sua bicicleta: ― Sai! ― ordenou. Despertando de seu torpor, Felício lentamente apeou. Logo os meliantes tomaram a bicicleta e se foram, lenta e despreocupadamente, um deles pedalando e o outro seguindo na garupa. Aquela humilhação de ver os bandidos tranquilamente praticarem um assalto à vista de tantos, de vê-los montados em sua bicicleta enquanto ele regressava a pé à sua residência, deixou um travo amargo em Felício. Durante algum tempo a figura do homem de olhos frios surgiria em sua mente e ele fantasiava um dia reencontrá-lo e lhe dar uma paulada.

O desarmamento

A campanha pelo desarmamento gerou amplos debates na sociedade, com acaloradas discussões entre as pessoas favoráveis e as contrárias às medidas. Basicamente, uma parte da população atentava para as alarmantes estatísticas de crimes cometidos pelo uso de armas de fogo. Julgava que o recolhimento dessas armas pelos cidadãos contribuiria imensamente para a redução da violência. Em pólo oposto achavam-se aqueles que acreditavam que tal medida resultaria tão somente em deixar desarmados os homens de bem, pois os bandidos jamais se deram o trabalho de adquirir legalmente os seus mortíferos artefatos e, muito menos, os entregariam mediante um modesto ressarcimento monetário pelo governo. Dentre os que assim pensavam estava Felício, possuidor de um revólver de baixo calibre, de fabricação nacional, há muitos anos comprado e registrado dentro dos parâmetros legais então vigentes. O revolver ficava guardado em sua residência; ele jamais o levaria em seu carro, pois não se arriscaria a perder o controle caso sofresse algum tipo de agressão mais grave num trânsito progressivamente violento. E, em casa, Felício tinha plena consciência de suas limitações como atirador e da vantagem que normalmente um invasor tem sobre suas vítimas. Ele somente reagiria se tivesse uma chance concreta de ser bem-sucedido, ou, na infeliz constatação de que seria vítima de brutalidade ainda que sem esboçar qualquer reação.
Mas a campanha do desarmamento era bastante intimidadora. Toda e qualquer arma, não importando se registrada ou não dentro de trâmites legais que vieram a ser declarados sem validade, deveria ser obrigatoriamente entregue ou recadastrada junto à Polícia Federal até uma determinada data. Quem não o fizesse, e fosse descoberto portando, transportando, ou simplesmente guardando uma arma em sua residência, seria considerado um criminoso, sujeito a severas punições. Na entrega da arma, que seria destruída, regia a normativa, o governo generosamente se comprometia a indenizar o proprietário de acordo com uma tabela de modestos valores fixada consoante o tipo de armamento. Em que prazo? Esse não estava fixado, dependia do processamento, era a informação prestada a todos. Esse processamento poderia levar muitos meses, até anos.
 Felício, que na realidade não gostava de armas, pensava se devia, ou não, entregar a sua. Imaginava quão inútil era todo aquele procedimento. Seu revolver não era nada comparado com o armamento pesado – fuzis, pistolas automáticas, metralhadoras, bazucas, granadas etc. − ostentado pelos poderosos traficantes entrincheirados nas favelas, onde a polícia não ousava exercer o seu papel de defensora da lei e da ordem. Ela somente lá comparecia representada por policiais desviantes, os milicianos, que acobertavam e extorquiam traficantes. Até mesmo os bandidos avulsos que infestavam a cidade portavam impunemente armas poderosas com as quais acuavam os cidadãos. A escalada da criminalidade era uma gravíssima nódoa social, não havendo consenso entre os diversos segmentos da sociedade quanto às suas causas e, muito menos, quanto à maneira de enfrentá-la. “Bandido bom é bandido morto" ― clamavam os defensores de soluções radicais, como os justiceiros. “Pena de morte” ― pleiteavam outros que julgavam, não sem razão, excessivamente brandas as penas aplicadas aos criminosos. “Redução da maioridade penal” ― queriam aqueles já cansados de ver os bandidos de idade inferior a 16 anos, os “dimenor”, praticarem crimes de gente grande e não poderem ser trancafiados atrás das grades como criminosos que eram. “Prisão não ressocializa ninguém” ― era o argumento dos críticos do infame sistema penal do país, e por isso contrários ao encarceramento, especialmente dos “dimenor”. “Temos que cuidar da educação” ― proclamavam aqueles que acreditavam haver uma sólida correlação entre criminalidade e baixa escolaridade. “Ninguém é criminoso porque quer” ― exageravam outros mais ao eximir completamente de responsabilidade o delinquente da prática de seus atos.
Felício, afinal, optou por recadastrar o seu perigoso instrumento. Cumpriu um cansativo ritual, incluindo longos períodos passados em filas de espera formada por aqueles que, como ele, perfilavam-se para recadastrar ou depositar suas armas junto aos agentes policiais. Recebeu um certificado de registro cuja expiração de validade se daria em três anos. Anotou cuidadosamente em sua agenda. Revalidar o documento seria mera formalidade. Esqueceu o assunto.
Três anos passam rápido. ― Felício, você já viu o que estão exigindo para renovar o certificado da arma?
 ― Não, respondeu ele ao amigo que estava tomado de grande fúria. ― Pois é. Complicaram tudo. Pensávamos que revalidar a licença seria simples, pura burocracia. Não é, não! ― Tem que passar por um exame psicotécnico feito por um psicólogo e por uma avaliação de proficiência no uso de cada arma, a critério de um atirador profissional. E não pode ser com qualquer psicólogo e atirador, não. Têm que estar cadastrados na Polícia Federal! ― o amigo continuava esbravejando: ― Eu tenho quatro armas, vou ter que pagar por cada uma delas, além do psicotécnico. Caímos numa armadilha. Quando recadastramos nossas armas, demos a eles os endereços onde elas estão. Se não as devolvermos, ou as recadastrarmos de novo no prazo, eles irão lá buscá-las, seremos automaticamente considerados criminosos. ― É demais. E onde vão parar essas armas, quem pode garantir que serão todas destruídas?

Na Delegacia

Dessa vez, entre indignado e assustado, Felício decidiu que o melhor caminho seria entregar a sua arma. Mas, simplesmente trafegar com um revólver pelas ruas em direção a um posto policial já enquadraria seu proprietário como criminoso. Seria necessária a prévia emissão pela internet de uma guia de transporte do trabuco, de curtíssima validade, especificando o posto escolhido. E na guia não poderia haver qualquer espécie de rasura, o que automaticamente a invalidaria. Saindo direto de sua residência ele chegou ao local que fizera constar na guia e foi logo encaminhado ao agente encarregado da recepção de armas de entrega espontânea. O ambiente lhe desagradava, não se sentia confortável em qualquer dependência policial. Mas, de qualquer forma, o atendente, o agente Aristeu, iniciou os procedimentos afetando cordialidade. Recebeu o saco plástico das mãos de Felício e dele retirou o perigoso artefato, juntamente com algumas cápsulas de munição ainda dentro de sua embalagem original. Colocou as peças sobre o balcão ao seu lado e passou a examinar os documentos que lhe foram exibidos: a carteira de identidade do ainda proprietário da arma, o certificado de registro em vias de caducar e a guia de transporte. Compulsando esses documentos, Aristeu começou a teclar o seu computador. Muitos minutos se passaram, o teclar prosseguia sem que Felício atentasse o porquê de tanta informação precisar ser alimentada ao sistema. Todos os dados estavam na guia de transporte e no certificado de registro, e esses dados estariam no sistema, bastaria, acreditava ele, acessá-los mediante o fornecimento de algum identificador básico do possuidor da arma, como o CPF, por exemplo. Mais tempo se passa, o agente continua tamborilando o teclado, até que Felício, já desconfortável com aquela situação, pergunta: ― Está havendo algum problema? ― Não, é que temos que fazer uma pesquisa da arma ― explicou Aristeu. O que isso poderia significar? ― preocupou-se Felício, que dentro de mais alguns minutos voltou a perguntar: − E então? ― Está dando erro ― respondeu Aristeu, continuando o seu teclar. Uma sensação de desamparo começou a se apossar de Felício. Ele sabia, alguma coisa certamente tinha que dar errado. Olhou para o seu revolver colocado sobre o balcão e de súbito sentiu que aquela coisa o ameaçava, exercia um poder maligno, ele tinha que livrar-se logo dele de qualquer maneira. Ansiava pela emissão do comprovante de entrega, por escapar daquele ambiente mefítico o mais rápido possível.  Tec, tec, tec, continuava Aristeu em seu eterno ofício. ― E agora? ― É, continua dando erro. Vou ter que reiniciar. O site está com problema, proclamou Aristeu encarando Felício com uma expressão que a este não agradou. De qualquer forma, pensou, a circunstância de um site estar fora do ar poderia realmente ocorrer. Embora já invadido por uma espécie de náusea, Felício decidiu dar mais um tempo, até que finalmente perguntou ao agente se não seria o caso de desistir; ele retornaria outro dia. Aristeu então se dispôs a fazer um contato telefônico com a sede, ou alguma central; não especificou exatamente com quem falaria. Da conversa travada, Felício apenas entreouviu “... horário comercial...”. Ah, então seria isso? Era um sábado, e por essa razão não seria possível fazer a entrega da arma? Mas isso deveria estar explícito na própria guia de transporte. E agora, este sábado era justamente a data limite para a entrega conforme constava da guia. Felício estremeceu diante da ideia de ter que retornar a sua casa com aquela coisa, rezando para que nada lhe acontecesse no trajeto, voltar com ela para o escaninho de onde a retirara e emitir outra guia para um novo transporte. Com esses pensamentos perpassando a sua mente Felício pediu a Aristeu que desse fim ao procedimento. Como quem não dá muita atenção, o agente continuou em seu computador até que um já bastante deprimido Felício insistiu que não queria mais prosseguir. Aristeu, tomando o revolver, disse que iria então falar com a “Autoridade”. Desapareceu por trás de uma porta, retornando pouco tempo depois e acedeu em não mais continuar com o processo. Mas ofereceu a Felício a opção de deixar a arma com ele mediante um “recibo provisório”. Já bastante assustado, Felício não aceitou essa oferta e, com uma sensação de urgência de sair daquele ambiente, recolocou o revolver dentro do saco plástico, pegou a salvadora guia que lhe garantiria o regresso a sua casa e retirou-se. Era o início de tarde de um sábado radioso, após muitos dias de chuva, mas ele não tinha qualquer desejo de aproveitar aquela dádiva.


De volta à casa, ainda armado

Em casa, Felício retornou a arma e a caixa de munição de onde as retirara e deixou-se cair sobre a poltrona da sala. Não tinha ânimo para nada. Lentamente foi sucumbindo às lembranças de tantos episódios em que se sentira esmagado pela mão pesada da tortuosa burocracia e da justiça, pelos labirintos da lei. Logo ele, que sempre perseguira a mais absoluta correção em suas ações. Por ironia do destino, justamente por tentar ser honesto, muitas vezes acabara constatando que honestidade em excesso pode fazer muito mal em um mundo de espertos. O importante, ele agora reconhecia claramente, teria sido aprender a caminhar entre os desvãos da lei. “Você quer fazer tudo muito certinho, se estressa demais” –; “Você explica demais, acaba se ferrando” –; “Às vezes é melhor não dizer toda a verdade, o importante é ser convincente” –; tais eram as coisas que lhe diziam seus amigos. É, eles tinham razão. O importante não era a verdade, mas, sim, montar uma história que fosse verossímil. Não era assim que se procedia nos tribunais? Não era sobre historias montadas pelos advogados de acusação e de defesa que o juiz decidia? E, afinal, o que era a verdade? Mas Felício nunca conseguira ser diferente. Ele vivia enredado nos problemas do cotidiano, especialmente na teia da burocracia do Estado em todas as suas esferas, e da qual não conseguia se desvencilhar. Chegou mesmo a cunhar um desanimado aforismo: “A vida é tentar, em vão, resolver problemas”. Agora era tarde demais para mudar. Era um velho, não tinha outra perspectiva senão a de levar com dignidade o que lhe restava de vida. Ficou toda a tarde e o início da noite afundado no sofá até que, tomando o controle remoto, ligou o aparelho de televisão. Do telejornal da noite jorravam as notícias de sempre: corrupção, violência, descaso das autoridades, impunidade, calamidades. Seus valores estavam em completa dissonância com o mundo atual. Desligou o aparelho. Permaneceu em estagio letárgico até levantar-se ao raiar do dia.

Novamente em uma Delegacia

Levantou-se naquela manhã de domingo, preparou seu café e o sorveu em lentos goles. Voltou a sentar-se em sua poltrona, sem vontade para nada, novamente imerso em um balanço de uma vida que lhe parecia equivocada. Mas, havia ainda algo de concreto em sua náusea. Esse algo era a arma, lá escondida, um cadáver insepulto a exalar sua pestilência. Era preciso se livrar dela o mais rápido possível, sua presença o manteve insone durante toda a noite. Ao finalmente levantar-se na manhã de segunda feira foi tomado pela urgência de dirigir-se o mais rápido possível a outro posto de entrega de armas (não retornaria em nenhuma hipótese ao anterior) para fazer o que não podia mais ser postergado. Ligou o computador buscando o site para a necessária emissão da guia de transporte. Recebeu a mensagem de que o site estava momentaneamente indisponível. Desesperou-se. E se o site assim permanecesse até a data de expiração de seu certificado provisório? Tentou mais algumas vezes, até que finalmente o site se abriu. Freneticamente preencheu todos os dados, ligou a impressora e clicou: imprimir. Nada. A mensagem era a de que o documento não podia ser impresso. Estremeceu. Os policiais já estavam a caminho, invadiriam seu apartamento e o carregariam para uma prisão inafiançável. Não, ele apenas delirava, era preciso manter a calma. Após mais algumas tentativas frustradas, imaginou que o problema com a impressora poderia ser pura e simplesmente falta de tinta no cartucho. Saiu de casa e, com a impressão de estar sendo atentamente observado nas ruas, dirigiu-se ao info-shopping mais próximo e comprou um novo cartucho. Instalou-o na impressora, clicou novamente: imprimir. Dessa feita, o milagre ocorreu: lá estava a guia impressa, sem qualquer rasura. Não havia tempo a perder. Revolver e caixa de munição no saco plástico, a salvadora guia em mãos, Felício tomou um taxi e dirigiu-se ao novo posto policial escolhido. Dessa feita, contrariando suas expectativas, o ritual de emissão do certificado definitivo de entrega da arma lhe foi fornecido pelo atendente, juntamente com um número de registro que, juntamente com uma senha cadastrada por Felício naquele ato, lhe permitiria, dentro de poucos dias, sacar diretamente de um caixa eletrônico de um banco a indenização estabelecida pelo governo. À sua pergunta se já estava tudo certo, se ele poderia ir embora, o policial lhe disse que sim, se houvesse qualquer problema, eles tinham o seu telefone, o chamariam.   “E por que haveriam de chamá-lo?”  ― inquietou-se. Ainda não dava para relaxar completamente.
  

Um homem desarmado

Naquela noite Felício, deitado em sua cama, finalmente conseguiu pregar os olhos, começando um sono intranqüilo. Subitamente escutou um barulho como que produzido por alguém forçando a porta de entrada de seu apartamento, seguido de um discreto estalido de arrombamento. Apurou os ouvidos e, em seguida, o que se ouviu foram leves passos pelo corredor. Felício fez menção de buscar a sua arma em seu esconderijo, mas ela não estava mais lá! Agora, mais que a presença, é a ausência do revolver que o deixava desesperado. Coração descompassado, encharcado de suor, Felício se contraiu em seu leito a espera do fim inexorável.  Ainda escutou os passos por muito tempo a ressoar em seu apartamento, até o retorno do silêncio. Ao levantar-se pela manhã Felício foi, de súbito, acometido pela consciência de que algo terrível ocorrera em sua casa. “Sim, é claro, sua casa fora assaltada.” Lembrou-se de tudo. Correu à porta de entrada para verificar o a arrombamento. Não constatou qualquer sinal de violação, ela estava intacta, assim como o trinco, a fechadura e a corrente que a ligava ao portal. “Incrível” – pensou. Buscando evidências da passagem do ladrão por sua casa, passou horas checando armários, cômodas, revirando papeis. Nada encontrou que comprovasse a ocorrência de um assalto.

Desespero

Mais uma noite e novamente Felício escutou passos, dessa vez na varanda de seu apartamento. Entreabriu os olhos e divisou sombras atrás da cortina que recobria o vidro da porta divisória do quarto com a varanda. Eram vultos que o espreitavam malignamente, ele sentiu. Novamente o suor, a náusea, mas logo se deu conta de que precisava agir rápido antes que aqueles abutres se lançassem sobre ele. Sacando rapidamente o revolver que guardava sob o travesseiro, Felício removeu de um só golpe a cortina e atirou repetidas vezes através do vidro contra os invasores, que tombaram ensanguentados. Olhou aqueles corpos e sentiu um horror indizível diante do que acabara de fazer. Precisava se livrar imediatamente daquela mortalha. Acordou com aquela vívida sensação, até constatar que as divisórias de vidro estavam intactas, não havia nenhum corpo na varanda, e se dar conta de que sua arma já fora entregue à polícia havia já vários dias.

A saidinha de banco

Bem cedo pela manhã do primeiro dia a partir do qual poderia sacar a sua indenização Felício dirigiu-se a um caixa automático do banco designado para tal fim. Era o único cliente ali presente. Teclou cuidadosamente a longa série de números do registro e em seguida a senha: duas notas saltaram da máquina. Olhou para os lados, não havia ninguém, colocou-as na carteira e saiu do banco. Mas, na calçada, houvera uma testemunha de seu ato:
― Perdeu, mané! Perdeu! Passa pra cá a carteira se, não, eu te estouro aqui, agora. ― Felício sentiu o sinistro cano de uma arma pressionando sua lombar, e que sua vida estava inteiramente nas mãos daquele que o proclamava: “Mané!” ― qualquer movimento errado, qualquer vacilação e ele teria sua coluna partida pelo tiro do bandido. Ele era, sim, inequivocamente um mané, sempre fora um mané. Não esboçou qualquer reação enquanto a mão nervosa do pivete se introduzia em seu bolso e lhe surrupiava a carteira; mas, ainda assim, o dedo nervoso da mão que empunhava o revolver apertou o gatilho e deu-se um disparo. Assustado, o pivete fugiu em disparada, deixando cair a arma ao solo. Na rua, até então praticamente deserta, logo começaram a surgir pessoas atraídas pelo ruído de um tiro. – O que aconteceu? ― era a questão de todos. – Eu só sei que escutei um barulho de tiro, vi uma pessoa correndo e este senhor caído no chão. Deve estar muito ferido. – Olha só, um revolver! – disse uma terceira pessoa. – Não mexe nisso. Vamos chamar a polícia e uma ambulância. Urgente!

Epílogo


Felício dera muita sorte de escapar com vida. Surpreendentemente a ambulância atendeu prontamente ao chamamento e o transportou ao hospital público mais próximo. O tremor das mãos do atirador resultara em um desvio do cano da arma para fora de sua coluna. O ferimento fora grave, mas uma cirurgia muito bem conduzida afastara o risco de morte. Felício, um paciente não identificado, já despertara da inconsciência da anestesia quando, na tela de um velho aparelho de televisão situado na enfermaria do hospital, viu a conhecida face do locutor do telejornal anunciar: “A polícia ainda não conseguiu identificar o assaltante que baleou um idoso em mais um golpe conhecido como saidinha de banco. Mas já tem uma pista: a numeração da arma do crime identifica que o nome do seu proprietário é Felício Praxedes Antunes de Souza, que se encontra desaparecido. A polícia está em seu encalço, e há expectativa de que ele será encontrado dentro de 24 horas”. Numa só pessoa, Felício era, ao mesmo tempo, a vítima e o agressor da vítima. 

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Ninguém mais escuta nada

Ninguém mais escuta nada

Por longos anos trabalhamos em uma mesma empresa e, grandes amigos, almoçávamos juntos com muita regularidade. Esses encontros se espaçaram quando mudamos para diferentes empregos. Mas, era sempre um prazer reencontrar o Eurico em uma mesa de restaurante. Ele chegou antes de mim, lá estava sentado, parecia alegre, descontraído. Ao aproximar-me, constatei, bastante surpreso, que ele sorvia, de um copo guarnecido com pedras de gelo e rodelas de limão, um refrigerante que logo identifiquei pela garrafa vazia sobre a mesa: Água Tônica. Bastante surpreso, pois sabia do horror que o amigo devotava a tal bebida, perguntei, antes mesmo de saudá-lo: “Eurico, você, bebendo Água Tônica, e com gelo e limão?” – Com um olhar diabólico respondeu-me: “Lembra-se, sempre que eu, no restaurante, pedia Mirinda ou Sukyta e nunca tinha? E que então eu pedia Coca Cola, sem gelo e limão no copo, e não adiantava nada? E que eu ficava muito brabo? Porque eu detesto gelo e limão no refrigerante? Lembra?” – é claro que eu jamais esqueceria os verdadeiros ataques que o meu amigo dava com os garçons, tendo mesmo chegado a derramar todo o conteúdo de um copo no chão do restaurante. Mas, não esperou a minha resposta. Continuou, o olho rútilo: “Pois é. Como não tem mesmo jeito, o refrigerante virá sempre com gelo e limão, eu agora peço Água Cômica, que é um refrigerante tão ruim que nem gelo e limão vai fazê-lo pior”. E terminou, agora relaxado, tamborilando os dedos sobre a mesa: “Então, eu agora só bebo Água Cômica.” ― em tempo: o meu pedido de água mineral sem gás foi, naturalmente atendido com uma água mineral com gás. E, ao sacar o cartão para pagar a conta informei claramente ao garçom: crédito. Ele, como um autômato, me perguntou: débito ou crédito?
Iniciei esta crônica relatando um divertido episódio para falar de um fenômeno pós moderno em nossa sociedade: Ninguém mais escuta nada. Poderíamos citar um sem número de casos no dia a dia de completa falta de escuta em nossa comunicação presencial ou através dos meios fornecidos pela técnica ― telefone, internet (especialmente pelas redes sociais, onde frequentemente se responde a uma postagem de forma atravessada, sem qualquer reflexão), etc. Ficaremos numa situação montada a partir de uma ligação de um cliente para o tele atendimento de uma operadora, e inspirada na fábula política de George Orwell, A Revolução dos Bichos, que assim termina:
“As criaturas de fora [da sala] olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco.” (os porcos haviam assumido os vícios dos humanos a quem haviam expulsado da fazenda). Transpondo para a pós modernidade:
“Se o seu problema é isto, disque 1; se é isso, disque 2; se é aquilo, disque 3, se é mais aquilo, disque 4; se é... disque 7; para repetir o menu de opções, disque 8; se quiser falar com um de nossos operadores, disque 9”. Continua a voz gravada: “Um momento, que estaremos transferindo sua ligação". ― ouve-se uma musiquinha. Novamente a gravação: “No momento, todos os nossos operadores estão ocupados. Tente mais tarde.” A ligação cai. Nova tentativa: “Se o seu problema...”. ― cai, outra vez. Mais uma tentativa, escuta-se o menu eletronicamente fornecido. Atende, finalmente, uma voz humana, ao vivo: “SENHOR, em que posso ajudá-lo”? ― o cliente explica claramente o seu problema. A atendente não escuta. O demandante repete uma, duas, três vezes, e a atendente: “SENHOR..., SENHOR..., SENHOR...” ― ela não se conecta com a pergunta. “Já expliquei três vezes qual é o meu problema” ― se enfurece o suplicante. “SENHOR, um momento que estaremos transferindo a sua ligação para outra atendente”. ― a outra atendente: “Um momento que estaremos verificando a sua reclamação”. “SENHOR, o seu problema somente poderá estar sendo tratado pelo nosso site.” “Mas eu já entrei no site, e lá está dito que esse problema só pode ser atendido pela Central de Atendimento.” ― “SENHOR, um momento que estaremos gerundizando o protocolo de sua reclamação.” ― uma espera. “Queira estar anotando o número do seu protocolo: 6666666666; a Operadora Demoníaca agradece a sua ligação e lhe deseja uma boa tarde.” ― ligação encerrada. Ao ter sido passado do atendimento automático para a voz humana, da voz humana para a máquina, da máquina outra vez para a voz humana, para o suplicante já era impossível distinguir quem era homem, quem era máquina. Era a Revolução das Máquinas. Ninguém mais escuta nada.
Assim terminava a crônica que escrevi há alguns anos, e postada no blog cujo conteúdo inadvertidamente foi inteiramente deletado. A parte relativa à paródia do livro de George Orwell, “A revolução dos bichos”, já foi postada isoladamente no blog em fase de reconstituição sob o nome de “A revolução das máquinas”. Quando escrevi a crônica original, a febre do uso do WhatsApp ainda estava em fase de conquistar corações e mentes dos aficionados na comunicação digital. Hoje, esse aplicativo nos telefones celulares já de longe supera todos os demais instalados num aparelho originariamente concebido para ser usado como telefone. No frenético batucar dos dedos sobre teclas, andando nas ruas, ao volante dos automóveis, nas salas de cinema e de shows, em qualquer lugar, o que se pode esperar em termos de uma comunicação clara entre os interlocutores? Frequentemente, estática na “escuta” das mensagens.
Retornando ao mundo da comunicação presencial, descrevo uma situação pela qual passei há alguns dias para mais uma ilustração do meu ponto. Necessitando comprar um novo carregador para o meu notebook – o meu deixara de carregar a bateria - procurei em duas lojas de artigos de informática por um de fabricação DELL. Não havia o modelo que eu buscava, em ambas estava para chegar, ao preço de R$ 90,00 na primeira das lojas e a R$ 99,00 na segunda. Tentando resolver logo o problema, fui a uma terceira loja, onde igualmente não havia carregador DELL, pelo que me foi oferecido pelo atendente (proprietário?) um genérico, que se adaptaria a qualquer tipo de notebook. À minha observação de desconfiança na qualidade do equipamento ao constatar que era produto chinês de marca desconhecida, ele respondeu enfaticamente: “Tudo hoje é fabricado na China.” ― ao que retruquei: “Eu sei, quase tudo é fabricado na China, mas qual a garantia de qualidade quando a marca é uma Xing-Ling qualquer?” – “A Microsoft fabrica tudo na China, insistiu ele.” – E eu, novamente: “Eu sei, a China tem tecnologia para mandar o homem à lua, estão extremamente desenvolvidos, não vão relaxar na qualidade quando fabricam para a Microsoft, para a própria DELL ou para qualquer outra marca internacionalmente respeitada, o problema é quando não estão comprometidos, quando apenas querem conquistar mercados, como o Japão fez nas décadas de 60 e 70 do século passado”. Achei que colocara com clareza o meu ponto. Qual nada, ele contra-atacou na mesma linha: “A Philips fabrica tudo na China.” – Eu, já irritado, respondi que ele não escutava nada, decidi examinar o genérico, e aí me dei conta de que ainda não perguntara o preço. “R$ 78,00” ― respondeu. Disse-lhe que a esse preço eu preferiria comprar um DELL, não me importando se fabricado na China, por R$ 90,00, ao que ele reagiu com um sorriso irônico dizendo que seria impossível comprar um DELL por R$ 90,00. Saí imediatamente da loja agradecendo, agora na minha vez de ser sarcástico, a gentileza com que ele tratava seus clientes.
Para terminar, fui a uma quarta loja onde o mesmo genérico me foi ofertado, e por apenas R$ 60,00. Manifestei novamente desconfiança quanto à qualidade do equipamento. Comprei, com a condição prontamente aceita, de que, caso não funcionasse, eu o trocaria por algum outro artigo. Cheguei em casa e logo conectei o carregador. Mensagem: “Conectado, mas não carregando.” Minhas suspeitas se confirmaram. Devolvi o genérico e troquei por um cartucho de tinta. Assim, como toda regra tem exceção, esse comerciante não só escutara o que eu dissera como cumpriu o acordado.
Vou comprar um DELL, muito provavelmente fabricado na China, certo de sua qualidade.


Outubro/2017

domingo, 1 de outubro de 2017

É proibido proibir?


É PROIBIDO PROIBIR?

           
            O lema, cunhado na década de 1960, foi uma reação natural de artistas e intelectuais ao regime de supressão de liberdades imposto pelo regime militar no Brasil. A própria frase é contraditória em si mesma. Proibido proibir significa permitir tudo, indiscriminadamente, inclusive a liberdade de proibir. Seria, então, permitido exercer a liberdade de proibir? Mas, deixando de lado especulações de caráter filosófico, constatamos que a frase fazia sentido naquele contexto histórico, serviu de bandeira a todos aqueles que clamavam por liberdade. Hoje, contrariamente, parece tudo estar permitido ― “Tout est pardonné”, prega-se após o bárbaro atentado contra cartunistas franceses em janeiro de 2015 (novamente, pode-se questionar: Perdoar até mesmo o próprio atentado?) ― num movimento pendular muito típico dos modos de ser dos humanos. Este sentimento de que é proibido proibir, num momento de quase completa libertinagem em nossa sociedade, é absolutamente nefasto. Examinemos o contexto em que tal máxima continua inspirando atitudes.
            Vivemos tempos de individualismo exacerbado, de hipercompetição, da negação da alteridade, da afirmação pelo alcance do sucesso social a qualquer preço, da substituição do ser pelo ter e, até mesmo, pelo simples parecer ter, de corrupção. A possibilidade de dizer não, de colocação de limites, é questionada como manifestação de resquícios de autoritarismo, de repressão. Como resultado, pais e educadores sentem-se tolhidos no exercício de seus papéis sociais. Confunde-se o exercício da autoridade quando ela se faz necessária com o puro e simples autoritarismo. Aos pais é imputada toda a responsabilidade, quando não a culpa, pela dificuldade no diálogo com seus filhos. Aos professores, culpa-se pelo mau desempenho escolar e comportamento agressivo dos alunos. Pela televisão, pela leitura dos jornais e pelo exercício da clínica psicoterapêutica vemos professores acuados moral e, cada vez mais, fisicamente, pelos alunos.  As cidades vivem a desordem urbana, os marginais cada vez mais usurpando o poder dos governantes. Completamente desmoralizadas, mergulhadas em um atoleiro de corrupção, autoridades constituídas já em nada se diferenciam da bandidagem que lhes cabe combater. A sociedade pede providências, exige ação de seus governantes. No plano individual as pessoas sentem-se muito ciosas de seus direitos, como algo que lhes foi sonegado durante os anos de governos militares, e não aceitam limites. Mas a contrapartida a esses direitos, os deveres do cidadão, parece cada vez menos imbuída nessas mesmas pessoas.
            Estados fracassam quando os governos nacionais, destituídos de autoridade, perdem o controle de parte ou de todo o seu território e não podem mais garantir a segurança física de seus cidadãos. Quando os governos perdem o monopólio do poder, a lei e a ordem começam a se desintegrar. Quando não conseguem mais prover serviços básicos como educação, saúde pública e alimentação eles perdem sua legitimidade. Um governo nessas condições pode perder a capacidade de coletar os tributos necessários a uma efetiva governabilidade. Consequentemente, as sociedades se tornam fragmentadas e sem coesão para tomar decisões. Esses Estados, referidos como Failing States (Estados Fracassados) pelo economista e pensador social Lester Brown, já compreendem uma extensa lista de países, a maioria deles localizada no continente africano. E essa lista só faz aumentar.
            No campo social vemos, não somente nos “Estado Fracassados” já assim caracterizados, mas também no Brasil, cada dia mais sinais alarmantes de quebra dos parâmetros mínimos que balizam a civilização.  Alastram-se a corrupção, os desmandos e a inépcia nos poderes constituídos – Executivo, Legislativo e Judiciário – e o país avança perigosamente para a anarquia em sua pior acepção. A transgressão torna-se regra. A aplicação da lei, com a punição dos culpados, é cada vez mais escamoteada por tecnicalidades jurídicas, quando não pela pura e simples venda de sentenças por magistrados completamente divorciados da majestade de suas funções. Freud, em seu texto “O mal estar na civilização”, traça importantes considerações sobre os aspectos que caracterizariam a civilização. Segundo ele, um desses aspectos mais próprios da civilização seria a maneira pela qual os relacionamentos mútuos dos homens, seus relacionamentos sociais, são regulados. Freud entende que o elemento de civilização entra em cena com a primeira tentativa de fazer-se tal regulação, pois sem regulamentos os relacionamentos ficariam sujeitos à vontade arbitrária do indivíduo, prevalecendo à vontade dos fisicamente mais fortes a decidir no sentido de seus próprios interesses e impulsos instintivos. A vida humana em comum só se torna possível, prossegue ele, com a reunião de uma maioria mais forte do que qualquer indivíduo isolado, e que permanece unida contra todo e qualquer indivíduo isolado. O poder da comunidade desta forma se estabelece como “direito”, em oposição ao poder do indivíduo, condenado como “força bruta”. O poder da comunidade substituindo o poder do indivíduo constituindo o passo decisivo da civilização. Assim sendo, a justiça é a primeira exigência da civilização, o que implica na criação da lei que, uma vez criada, não será violada em favor de um indivíduo. Subjacente à implantação do Estado regulado por leis limitando as liberdades individuais está a aceitação de uma outra conceituação de Freud, segundo a qual os homens não são criaturas gentis que desejam ser amadas, mas que, contrariamente, são criaturas cujos dotes instintivos incorporam uma poderosa parcela de agressividade. E essa agressividade seria inata ao homem, existindo desde os tempos primitivos, o que contraria a crença comunista de que o homem é inteiramente bom, mas que sua natureza teria sido corrompida pela instituição da propriedade privada. Freud, em suma, crê na necessidade da repressão dos instintos do homem em prol da civilização.    
            Ao que parece a história tem dado razão a Freud. O “É proibido proibir” (libera-se, então, a tortura, o incesto, o estupro, a pedofilia, o racismo, a apologia do nazismo?), o laissez faire, a falta do exercício da autoridade tem feito muito mal às sociedades, da lassidão dos costumes às periódicas crises do capitalismo. A ação reguladora e fiscalizadora do Estado tem se demonstrado essencial para o funcionamento da sociedade, no Brasil ou em qualquer outro país. Quando, no regime capitalista, se levam às últimas consequências crenças fundamentalistas na ação da “mão invisível que regula os mercados” e no “quanto menos governo, melhor” apregoado pelo neoliberalismo, pode-se chegar ao total caos nos mercados. Tal situação foi atingida nas recorrentes crises econômico-financeiras que assolam o mundo, como já acontecera a partir do célebre crack da Bolsa norte-americana em 1929, sendo a de 2009 a mais recente. Não há qualquer comprovação científica para a existência da tal mão invisível. Ela se baseia no pressuposto de que o mercado aloca recursos de uma forma que nenhum planejamento centralizado (como adotado nos países de regime comunista) pode fazer, facilmente equilibrando a oferta e a demanda. Esta teoria, mesmo admitindo-se como sendo conceitualmente correta, tem graves falhas. E isto porque na vida real os preços de mercado não incorporam os custos indiretos da produção de mercadorias, tais como os custos ambientais, os custos sociais e os custos militares envolvidos em garantir suprimento de matérias primas em regiões politicamente instáveis. É o que acontece, por exemplo, no caso do petróleo, que nos Estado Unidos, deixam de incorporar os imensos custos da mobilização militar e das guerras travadas para garantir acesso àquele suprimento vital. Assim sendo, os preços de mercado estão distorcidos, e é sobre uma referência de preços distorcidos que a mão invisível atua realocando recursos. Diametralmente oposto ao fundamentalismo do mercado está a exacerbação do planejamento centralizado, na desenfreada estatização da atividade econômica, podendo, no extremo, levar ao stalinismo. Neste caso, o que é completamente proibida é a livre iniciativa.
            Tanto uma quanto outra destas formas extremas de organização econômica das relações humanas, o turbo capitalismo e o comunismo, uma por excesso de liberdade, outra por excesso de proibições, levaram os países que escolheram tais regimes a sérias crises. Embora o filósofo Sartre tenha afirmado que o homem é livre para fazer suas escolhas, este tem se mostrado tentado a fazer escolhas pelos extremos. O provérbio romano diz que a virtude está no meio. Talvez a melhor forma de se atentar para este conselho seja a de se buscar uma combinação entre pilares do capitalismo, como a livre iniciativa, e do socialismo, como a presença do Estado no papel de agente regulador e controlador, um freio à ganância. Se o Estado extrapola as suas funções, a questão não é o Estado, ele não é o problema, como dizia o presidente Ronald Reagan, arauto e apóstolo mor do neoliberalismo, mas, sim, o ser humano. Não é proibindo a intervenção do Estado sobre a economia que se atingirá a melhor organização social possível. A intervenção do Estado é necessária, sim. Na sua ausência, implanta-se o caos nos mercados, que só retomam a sua caracteristicamente precária situação de equilíbrio justamente pela ação estatal anteriormente repudiada.

José Antonio de Carvalho e Silva
Setembro/2015


quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Uma questão de Ética


Uma questão de Ética

O professor Ben Dupré, em seu livro “50 ideias de filosofia que você precisa aprender” (Planeta, 2007) coloca a seguinte situação:
“O sr. Quelch não sabia se tubarões tinham lábios e, se tinham, se podiam lambê-los; mas sabia que, se tivessem e pudessem, era exatamente isso que estavam fazendo agora. O balão caía cada vez mais rápido na direção do mar, e ele podia ver claramente, descrevendo círculos na água, as muitas barbatanas dos tubarões reunidos para jantar (...) O sr.  Quelch sabia que nos próximos dois minutos ele e os melhores alunos de Greyfriars [uma escola fictícia britânica] virariam isca de tubarão ― a menos que se livrassem de mais lastro. Mas tudo já havia sido jogado fora do cesto ― tudo o que restava eram os seis meninos e ele. Era óbvio que só Bunter tinha peso suficiente para salvar o dia. Uma situação difícil para o Corujão Gordo, mas não havia outra saída... [está implícito que o sr. Quelch, o único capaz de manejar o balão, não seria uma opção de alívio de lastro].”

            Só existem mesmo duas opções: os seis meninos, incluindo Bunter, caem no mar e são devorados pelos tubarões, ou apenas Bunter é jogado no mar e comido. Para Bunter, o desfecho seria o mesmo, iria morrer de qualquer forma, mas, no caso dele ser atirado fora do balão, os demais se salvariam. É o que se chamaria uma “Escolha de Sofia”. Dupré provoca: é valido sacrificar Bunter? O fim (salvar várias vidas inocentes) justifica o meio (tirar uma vida inocente)? O que você faria? Está em jogo uma importante linha divisória de ética ― a linha que separa as teorias baseadas no dever (deontológicas) e as baseadas nas consequências (consequencialistas).

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A TOCA - de Franz Kafka


A TOCA, de Franz Kafka

“Estou com medo, traumatizada mesmo, de sair na rua”, diz moradora.
“Com medo, moradores se impõem um toque de recolher.” As pessoas se entrincheiram em prédios cercados por grades de metal e munidos de sistemas eletrônicos de segurança. (do cotidiano de nossa cidade).

O animal um texugo? Uma toupeira? Kafka não especifica ― sentindo-se ameaçado, construiu a sua toca, uma obra astuciosa, ramificada em um verdadeiro labirinto de caminhos subterrâneos com a finalidade de proteger o seu construtor.
A ligação da toca com o exterior se faz por meio de muitos orifícios estreitos, tubos de ventilação, com a finalidade de permitir a entrada do ar em seu interior. Apenas uma entrada dá acesso ao sistema de caminhos subterrâneos. As demais entradas são falsas, para ludibriar intrusos. Mas essa entrada verdadeira é um ponto de vulnerabilidade da toca, um caminho por onde inimigos poderiam ter acesso ao labirinto e atacar o animal entocado.
Para corrigir esse calcanhar de Aquiles em seu sistema defensivo, o animal disfarça essa entrada cobrindo-a com uma camada de musgo e plantas e constrói para despistar uma entrada falsa, a cerca de mil passos da verdadeira, e que não conduz a parte alguma. Para certificar-se da eficiência do disfarce, o animal de tempos em tempos sai de sua toca para o exterior e procura buscar alguma eventual falha em seu sistema. Contudo, o medo de que essas suas saídas pudessem ser observadas por inimigos que, dessa forma, identificariam a verdadeira entrada para o labirinto, o animal vai reduzindo suas saídas, até quedar-se em definitivo em seu abrigo. Por algum tempo ele experimenta momentos de tranquilidade, propiciada pela constatação de que suas provisões são fartas.
Mas essa tranquilidade dura pouco, logo ele se entrega novamente à sua paranoica preocupação com segurança conferência do sistema de defesa, a disposição dos corredores e a localização das reservas de víveres. Ao imaginar fraquezas, põe-se laboriosamente a mudar de lugar suas provisões, a alterar o traçado de alguns corredores ou a ampliar o espaço da praça central do esconderijo. É uma faina tão desesperada, a cavar com o focinho, que este até sangra. Mas, todo esse trabalho não lhe traz segurança, permanece sentindo-se em risco. E já então não teme apenas os inimigos externos à toca, pois escutou que existiriam seres que vivem no interior da terra e que, a qualquer momento, poderiam surgir das profundezas para ataca-lo.
Eis que ouve um ruído estranho, até então não percebido, e que com certa regularidade volta a soar. Pensa que talvez seja o ruído próprio da circulação do ar pelas galerias subterrâneas, ou, porventura, produzido pela movimentação de pequenos animais, como insetos. Mas o desconhecimento da causa do estranho ruído tem um efeito assustador sobre o animal, que passa, inclusive, a imaginar se ele não seria o aviso da aproximação dos seres do interior da terra.
Finalmente acaba se convencendo de que o ruído é proveniente da escavação de um outro animal, e tenta confortar-se imaginando que poderia ser possível um entendimento com o invasor: lhe ofereceria comida e ele então o deixaria em paz. Desgraçadamente, no entanto, esse outro hipotético animal nunca aparece, o que continua é o ruído misterioso, que não aumenta nem diminui de intensidade.
Qualquer semelhança do drama vivido pelo animal kafkiano com o dos habitantes do Rio de Janeiro de hoje não é mera coincidência.


A resenha por mim apresentada é, por sua vez, feita a partir de uma resenha escrita por Leandro Konder, brilhante pensador social, já falecido, em seu livro KAFKA – Vida e Obra (José Álvaro, Editor, 1968) do conto que foi um dos últimos escritos por Kafka, talvez o último, e que permaneceu inacabado, o que em nada sacrifica a mensagem nele transmitida. Neste brilhante livro Konder, a partir dos contos mais significativos do grande escritor, analisa suas relações com a família, suas ideias políticas, o drama da solidão, o tema da alienação e outras facetas do atormentado escritor tcheco precocemente falecido (1883-1924).

sábado, 15 de julho de 2017

Ninguém mais lê e-mails


Ninguém mais lê e-mails

Há muitos anos minha atenção vem sendo despertada para um fenômeno que constato no dia a dia das relações sociais: ninguém mais lê e-mails. Isto não significa necessariamente que eles, pura e simplesmente, não sejam mais lidos pelos destinatários, embora isso possa de fato ocorrer. Mas o sentido da minha afirmação é o de que com uma alarmante frequência as pessoas não fazem mais uma leitura linear de textos na forma em que a humanidade o fazia até o advento da internet. A leitura atenta dos textos vem sendo rapidamente substituída por uma leitura salteada, sôfrega, um garimpo de palavras capturadas aqui e ali por um olhar lançado de relance sobre a tela dos celulares, laptops, desktops tablets, Kindles e congêneres. Como resultado, tem-se, frequentemente, uma distorcida captação do conteúdo da mensagem, levando a respostas equivocadas, desentendimentos, estresse nas relações, desperdício de energia, tempo, dinheiro etc. E essa leitura salteada e desatenta nem de longe se limita a e-mails; ela se aplica a qualquer tipo de texto eletrônico.
O que estará acontecendo? Uma resposta muito bem estruturada eu a encontrei no livro do escritor norte-americano Nicholas Carr “O que a internet está fazendo com os nossos cérebros – A geração superficial” (AGIR, Rio de Janeiro, 2011); todas as citações ao longo deste artigo, salvo expressa identificação de outro modo, estão contidas nesse livro. O subtítulo é enganador, poderá levar à precipitada crença de que o autor seja um ludita, um rabugento em relação à internet e um preconceituoso quanto à juventude. Nada mais errôneo. Carr é um homem absolutamente afinado com o desenvolvimento da informática, um ativo usuário das mais atualizadas ferramentas que ela coloca à disposição da sociedade. O que sucedeu, e o levou a escrever o livro, foi o fato de ele ter se dado conta de que a internet passara a exercer sobre si uma influência que em muito superava aquela experimentada com o seu velho PC. E não se tratava tão somente de que ele estava passando muito mais tempo diante de seu computador, nem tampouco a circunstância de que muitos de seus hábitos e rotinas haviam mudado porque ele se acostumara e se tornara dependente de sites e serviços visuais. O que mais o surpreendeu foi a constatação de que o próprio funcionamento de seu cérebro parecia estar mudando. Carr começou então a se preocupar com a sua incapacidade de prestar atenção a uma coisa por mais do que alguns minutos.
            A princípio, Carr imaginou que a razão do que lhe acontecia seria atribuível a um sintoma de deterioração mental da meia idade. Mas, logo percebeu, ocorria que o seu cérebro não estava apenas se distraindo, ele estava faminto. E exigia ser alimentado da forma como a internet o fazia e, insaciável, quanto mais alimentado mais faminto se tornava. Quando longe de seu computador, Carr ansiava por checar seus e-mails, clicar em links, pesquisar no Google. Ele queria estar conectado.

            Vivendo conectado

A necessidade de estar conectado torna-se uma febre: jovens e grandes aficionados da internet de todas as idades têm um profundo interesse em estar informados sobre o que acontece aqui e agora na vida de seus contatos, manifestando enorme ansiedade em participar de forma permanente da roda de amigos nas redes sociais. Parar de enviar e responder mensagens os tornaria invisíveis. Introduzo uma inversão de um conhecido chiste psicanalítico para ilustrar bem essa preocupação. Na piada clássica, um paciente está deitado no sofá do analista e, aflito, confidencia: “Doutor, sinto que estou sendo seguido”. E automaticamente se capacita a ser enquadrado como alguém que sofre de complexo de perseguição. Na versão atualizada, o paciente, igualmente aflito, queixa-se ao analista: “O problema, doutor, é que às vezes sinto que não estou sendo seguido”.
As conseqüências da adição à internet são analisadas em profundidade por Nicholas Carr em seu mencionado livro. Suas afirmações são suportadas na auto-avaliação, em conversas com amigos e, sobretudo, em uma vasta coletânea de resultados de pesquisas e de reflexões efetuadas por neurologistas, psicólogos, matemáticos, especialistas em informática e em outros ramos da ciência, filósofos, poetas etc. As conclusões são surpreendentes. Das ultramodernas técnicas de escaneamento cerebral e de cuidadosas pesquisas efetuadas com seres humanos e animais ficou demonstrado aquilo que já havia sido afirmado por pensadores e filósofos como Martin Heidegger e Marshall McLuhan: a técnica e seus objetos modificam o nosso modo de ser. McLuhann tornou-se bastante famoso na década de 1960 com seus estudos sobre os meios de comunicação. Sua máxima “o meio é a mensagem” tornou-se célebre. O que significa isso? Conforme pontua Carr, os meios não são meros canais de informação, eles fornecem o material para o pensamento, mas também moldam o processo do pensamento. Ele constata que a net parece estar desbastando sua capacidade de contemplação, e quer esteja contatado ou não, sua configuração mental agora espera receber informação do modo como a net a distribui, ou seja, um fluxo de partículas em movimento veloz.
Carr relembra que na década de 1980 muitos educadores estavam convencidos de que a introdução de hiperlinks no texto exibido em telas de computador seria de grande ajuda para o aprendizado: esse artifício facilitaria o pensamento crítico dos estudantes, possibilitando que facilmente acessassem diferentes pontos de vista. Ao final daquela década, o entusiasmo tinha começado a esmorecer. As pesquisas estavam traçando um quadro mais completo, muito mais amplo dos efeitos cognitivos do hipertexto. A avaliação dos links e a navegação entre eles envolviam tarefas de resolução de problemas que eram estranhos ao hábito da leitura em si. Decifrar hipertextos aumentava consideravelmente a carga cognitiva dos leitores, enfraquecendo, dessa maneira, a sua capacidade de compreender e reter o que estavam lendo. Os leitores frequentemente terminavam clicando distraidamente “pelas páginas em vez de lê-las cuidadosamente”. Constatou-se que grupos de leitores que realizavam pesquisas em documentos eletrônicos tiveram desempenho inferior àqueles que fizeram a mesma pesquisa em documentos impressos. Estudos realizados muitos anos depois, quando os leitores já estavam bastante familiarizados com o hipertexto, levaram às mesmas conclusões. Ocorre que, na apreciação de Carr, a necessidade de avaliar links e tomar as decisões de navegação relacionadas, enquanto processa uma quantidade impressionante de estímulos sensoriais, exige constante coordenação mental e tomada de decisões, distraindo o cérebro do trabalho de interpretar textos e outras informações. Sempre que os leitores se defrontam com um link, têm que pausar, ao menos por uma fração de segundo, para permitir que o córtex pré-frontal avalie se é o caso de se clicar ou não. O redirecionamento dos recursos mentais, da leitura das palavras para a realização de julgamentos, pode ser imperceptível para as pessoas, pois o cérebro é veloz, mas foi demonstrado que ele impede a compreensão e a retenção. Particularmente quando este redirecionamento é constantemente repetido.

 Determinismo?

Nossos modos de pensar, perceber e agir - agora se comprova pelos resultados de estudos científicos - não são inteiramente determinados pelos nossos genes. Nem são inteiramente determinados pelas experiências da nossa infância. Nós os mudamos através do modo como vivemos e através dos instrumentos que usamos: pesquisas demonstraram quão profundamente o cérebro pode ser influenciado pela tecnologia. Isso ocorre devido a neuroplasticidade, a faculdade através da qual o cérebro está constantemente se modificando em resposta às nossas experiências e comportamentos, remodelando os seus circuitos a “cada estímulo sensorial, ação motora, associação, sinal de recompensa, plano de ação ou [deslocamento] da consciência”, conforme o pesquisador em neurologia Alvaro Pascual-Leone. Segundo esse cientista, a neuroplasticidade ou, simplesmente, plasticidade, é um dos mais importantes produtos da evolução, uma característica que permite que o sistema nervoso “escape das restrições do nosso genoma e assim se adapte a pressões ambientais, mudanças psicológicas e experiências”. A seleção natural, de acordo com o filósofo David Buller, “não projetou um cérebro constituído de numerosas adaptações pré-fabricadas”; ao contrário, ele é capaz de “se adaptar às exigências ambientais locais ao longo da vida de um indivíduo, e, algumas vezes, em um período de dias, formando estruturas especializadas para lidar com essas exigências”. E, de forma bastante singular, Pascual-Leone realizou um experimento utilizando uma técnica chamada Estimulação Magnética Transcraniana, demonstrando que o cérebro muda não somente em relação às ações humanas, mas, também, em relação a pensamentos. Ele colocou dois grupos de pessoas sem experiência em tocar piano e lhes ensinou a tocar uma melodia simples constituída de uma série de notas curtas. Aos membros de um dos grupos foi solicitado que tocassem a melodia durante um determinado tempo. Aos membros do outro grupo foi pedido que apenas imaginassem que tocassem a música no mesmo período de tempo. O surpreendente resultado foi que o grupo de pessoas que tão somente imaginara tocar as notas exibia, exatamente, as mesmas alterações no cérebro que o grupo de pessoas que efetivamente tinham tocado as mesmas notas. Ficava cientificamente comprovado que nossos pensamentos podem exercer uma influência física em nossos cérebros.

Guerra e Paz

Ninguém mais lê e-mails. E “ninguém lê Guerra e Paz”, a colossal obra de Liev Tolstói, no entendimento de Clay Shirky, um estudioso de mídias digitais da Universidade de Nova York, que faz idêntica consideração ao livro Em busca do tempo perdido, de Proust. De fato, na opinião dele, estivemos “elogiando de um modo vazio” escritores como Tolstói e Proust “todos esses anos”. Nossos velhos hábitos literários “são apenas um efeito colateral de vivermos em um ambiente de acesso empobrecido”. Prosseguindo, Shirky conclui que podemos finalmente nos livrar desses hábitos desgastados (nessa mesma linha, Shirk poderia igualmente condenar a obra dos grandes mestres da música: ela seria tediosa, exigiria demasiado tempo para sua apreensão). Carr considera tais afirmações teatrais demais para serem levadas a sério. Mas é inegável que a introdução do e-book está transformando a maneira como os leitores se posicionam diante de um livro. Steven Johnson, especialista em semiótica (ciência geral dos signos e da semiose que estuda todos os fenômenos culturais como se fossem sistemas sígnicos, isto é, sistemas de significação – Wikipedia) logo após começar a ler no seu novo Kindle, prognosticou que: “a migração do livro ao reino digital não seria uma simples questão de trocar tinta por pixels, mas provavelmente mudaria profundamente o modo como lemos, escrevemos e vendemos livros”. Ele estava excitado com o potencial do Kindle para expandir “o universo dos livros na ponta dos nossos dedos” e tornar os livros tão buscáveis como web pages. Mas o serviço digital também deixou Johnson inseguro: “Temo que um dos grandes prazeres da leitura dos livros – a total imersão em outro mundo, ou no mundo das ideias do autor – estará comprometido. Todos nós poderemos ler livros do mesmo modo como cada vez mais estamos lendo revistas e jornais: um pedacinho aqui, outro ali”. Na avaliação do escritor John Updike, “quando um livro impresso, seja ele uma obra acadêmica de história recentemente publicada ou um romance vitoriano com duzentos anos de idade, é transferido para um aparelho eletrônico conectado à internet, ele se transforma em algo parecido com a página de um site. Suas palavras ficam envoltas em todas as distrações do computador em rede. Seus links e outros aditivos digitais jogam o leitor para cá e para lá”. Ele perde o que Updike chama de suas “bordas” e se dissolve nas vastas águas da net. A linearidade do livro é quebrada, junto com a calma atenção que encoraja no leitor. (meu comentário: o e-book não deixa de ter algumas vantagens, deixo aos seus defensores a apresentação de seus argumentos).
            Ninguém mais lê Guerra e Paz, o esforço não compensa. A leitura desse tipo de texto e sua própria produção – os escritores estarão desconcentrados, senão desestimulados a escrevê-los, sabedores da indiferença com que serão acolhidos – está seriamente ameaçada. E o que dizer da leitura de complexos textos filosóficos? Será possível fazer-se a exegese do pensamento dos luminares do gênero humano através do saltitar do olhar sobre as palavras? E os textos científicos em geral? Restará o entendimento dessas matérias restrito tão somente a um reduzido grupo de especialistas, os modernos monges copistas da idade média? E o que dizer dos compêndios do Direito? Sabemos que os magistrados se debruçam sobre volumosos processos sobre os quais precisam formar um conceito e emitir uma decisão. Premidos pelo tempo, e cada vez mais desabituados à prática da leitura profunda, estarão lendo os extensos textos processuais da maneira fragmentada como o fazem os aditos à internet? Parece que sim, na maioria dos casos. É bastante preocupante o que pode sair daí. O fato insofismável é que a leitura profunda, essencial à compreensão de um texto complexo, exige uma mente calma, não a mente frenética que está se tornando largamente predominante. “Como os usuários lêem na web?” Essa foi a pergunta lançada em 1997 por Jacob Nielsen, “um consultor experiente de design de web pages”, após seu primeiro estudo da leitura on-line. Em 2006, Nielsen, que já vinha estudando a leitura on-line desde a década de 1990, levou a cabo uma pesquisa de rastreamento ocular de usuários da web. Ele descobriu que raramente qualquer uma das 232 pessoas participantes de uma leitura proposta lia o texto on-line de forma semelhante à que faziam quando liam páginas de um livro: linha por linha, de modo metódico. Analisando os dados, o pesquisador constatou que os usuários da web gastavam apenas alguns segundos em uma página. Respondendo, então, à sua própria pergunta feita em 1997, Nielsen, de forma sucinta, radicalizou: “Eles não leem’.

              Ganhos e Trocas

            “Não existe almoço grátis”. Esta famosa frase de Milton Friedman, economista laureado com o Prêmio Nobel, se aplica perfeitamente à análise dos inquestionáveis e prodigiosos ganhos da net em confronto com o que se está dando em troca: a mente linear calma, focada, sem distrações está sendo expulsa por um novo tipo de mente que quer e precisa tomar e aquinhoar informação em pulsos curtos, desconexos, frequentemente superpostos – quanto mais rapidamente, melhor. O que sucedeu a Carr é um perfeito exemplo dos efeitos no modo de ser das pessoas causados pelo hábito da imersão profunda e continuada na rede. Conforme ele relata, não foi fácil escrever o seu livro. No começo, lutava em vão para manter sua mente fixa na tarefa. Ele tendia a escrever em “arrancos desconexos”, da mesma forma que fazia em seu blog. Compreendeu então que seriam necessárias grandes mudanças em suas rotinas. Carr mudou-se de sua residência em um subúrbio altamente conectado de Boston para as montanhas do Colorado. Lá instalado, cancelou sua conta no Twitter, suspendeu por um tempo sua filiação no Facebook, e colocou o seu blog em compasso de espera. E ainda fechou o seu leitor RSS, restringiu o Skype e as mensagens instantâneas, além de desacelerar seu aplicativo de e-mail. Os efeitos? “O desmantelamento de minha vida on-line não foi de modo algum indolor (...) ocasionalmente eu caía numa farra na web por um dia inteiro (...) mas com o tempo a fissura cedeu (...) alguns velhos circuitos neurais, em desuso, estavam voltando à vida, parecia, e alguns dos mais novos, ligados na web, estavam se aquietando (...)”. E foi assim que ele conseguiu paz e concentração para escrever o livro. Carr reconhece, entretanto, que a sua condição de trabalhador autônomo e de natureza relativamente solitária, tendo a opção de se desconectar, não é típica. Ele assinala que para a grande maioria das pessoas atualmente a web é tão essencial para o seu trabalho e para a sua vida social que elas não têm essa alternativa. Na verdade, essa opção, em tese, sempre existiria, porém exercê-la em muitas circunstâncias pode ter um custo excessivamente alto. E como que para provar não ser um ludita, Carr, de forma bem humorada, escreve, quase ao final de seu texto, que voltara a deixar o seu e-mail correndo o tempo todo e que reabrira o seu feed RSS, reativara o seu blog, experimentava novos serviços das redes sociais e que comprara “um blue-ray com conexão wi-fi embutida”. E admite: “Tenho que confessar: é legal. Não tenho certeza se poderia viver sem isso”.
           Para ajudar a explicar como a dependência dos computadores digitais “cresceu constantemente e, aparentemente, de forma inexorável desde que essas máquinas foram inventadas no final da segunda guerra mundial”, Carr evoca as considerações bastante provocativas feitas por Joseph Weinsenbaum, um cientista de computação do MIT-Massachusetts Institute of Technology. Para Weinsenbaum, “uma tecnologia intelectual [assim como o mapa e o relógio] torna-se um componente indispensável de toda a estrutura uma vez que tenha sido tão inteiramente integrada a ela, tão entremeada nas várias subestruturas vitais, que não pode mais ser removida sem mutilar fatalmente toda a estrutura (...) “a sua adoção [do computador] entusiástica, acrítica, pelos elementos ‘progressistas’ do governo, negócio e indústria dos Estados Unidos, tornou-o um recurso essencial para a sobrevivência da sociedade na forma como o próprio computador foi instrumento para moldar”. Aqui cabe um chiste de um amigo meu, técnico em informática, que, de forma satírica, afirma que “o computador é um excelente instrumento para resolver problemas que ele mesmo criou”.
            Ao final de seu livro, Carr faz diversas citações de filósofo Martin Heidegger, que muito se preocupava, já na década de 1950, com “a onda de revolução tecnológica” iminente, que poderia “cativar, enfeitiçar, deslumbrar e distrair de tal forma o homem que o pensamento calculista poderia um dia vir a ser aceito e praticado como o único modo de pensar”. A nossa capacidade de engajamento no pensamento reflexivo, que Heidegger considerava como a própria essência da humanidade, poderia ser sufocada pela desmedida adesão à técnica. Carr poderia ter feito mais uma citação de Heidegger encontrada no texto Serenidade (Instituto Piaget, Lisboa, 1959) - uma resposta simples ao dilema entre endeusar ou demonizar a técnica - e da qual ele próprio se valeu na estratégia para escrever o seu livro: “Podemos dizer ‘sim’ à utilização inevitável dos objetos técnicos e podemos ao mesmo tempo dizer ‘não’, impedindo que nos absorvam e, desse modo, verguem, confundam e, por fim, esgotem a nossa natureza (Wesen) [ser]”.
            O tema abordado no livro de Nicholas Carr é fascinante e atualíssimo, e tem sido objeto de um crescente número de pesquisas em muitos países. Em recente entrevista ao jornal O Gobo (11/02/2012), Caderno Prosa @ Verso, o autor reafirma suas preocupações com o abuso da net, em quem ele reconhece muitas qualidades, daí a utilizarmos tanto, mas acredita que “ela nos transforma em pensadores mais superficiais”. Publicações sobre o assunto não faltam. Sugiro a leitura da matéria publicada no jornal O Globo (13/01/2012), Caderno Ciência, onde serão encontradas referências interessantes na matéria que tem como título “Viciados em Internet”. O Estudo constata alterações no cérebro similares às registradas com álcool e drogas. Recomendo ainda a leitura do livro O Inverno de nossa Desconexão, de Susan Maushart, Paz e Terra, 2011.

Este texto foi escrito em 2012, antes da febre do WhatsApp vir a reforçar as preocupações aqui descritas. A versão agora postada é, com ligeiras alterações, o texto originalmente publicado na revista virtual Desenvolvimento Pessoal, naquele ano. Trata-se da primeira das três partes do que vim a denominar a “Trilogia da Irreflexão”. Naturalmente que desde então preciosa literatura sobre a questão vem sendo produzida. Com relação à progressiva dependência da Humanidade à internet, é particularmente preocupante o capítulo Apagão Digital – Uma interrupção generalizada e duradoura na internet, no livro O Colapso de Tudo, de John Casti (Editora Intrínseca Ltda, 2012). Casti é um matemático, ph.D, especializado em estudos das teorias dos sistemas e da complexidade.