quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Uma questão de Ética


Uma questão de Ética

O professor Ben Dupré, em seu livro “50 ideias de filosofia que você precisa aprender” (Planeta, 2007) coloca a seguinte situação:
“O sr. Quelch não sabia se tubarões tinham lábios e, se tinham, se podiam lambê-los; mas sabia que, se tivessem e pudessem, era exatamente isso que estavam fazendo agora. O balão caía cada vez mais rápido na direção do mar, e ele podia ver claramente, descrevendo círculos na água, as muitas barbatanas dos tubarões reunidos para jantar (...) O sr.  Quelch sabia que nos próximos dois minutos ele e os melhores alunos de Greyfriars [uma escola fictícia britânica] virariam isca de tubarão ― a menos que se livrassem de mais lastro. Mas tudo já havia sido jogado fora do cesto ― tudo o que restava eram os seis meninos e ele. Era óbvio que só Bunter tinha peso suficiente para salvar o dia. Uma situação difícil para o Corujão Gordo, mas não havia outra saída... [está implícito que o sr. Quelch, o único capaz de manejar o balão, não seria uma opção de alívio de lastro].”

            Só existem mesmo duas opções: os seis meninos, incluindo Bunter, caem no mar e são devorados pelos tubarões, ou apenas Bunter é jogado no mar e comido. Para Bunter, o desfecho seria o mesmo, iria morrer de qualquer forma, mas, no caso dele ser atirado fora do balão, os demais se salvariam. É o que se chamaria uma “Escolha de Sofia”. Dupré provoca: é valido sacrificar Bunter? O fim (salvar várias vidas inocentes) justifica o meio (tirar uma vida inocente)? O que você faria? Está em jogo uma importante linha divisória de ética ― a linha que separa as teorias baseadas no dever (deontológicas) e as baseadas nas consequências (consequencialistas).

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A TOCA - de Franz Kafka


A TOCA, de Franz Kafka

“Estou com medo, traumatizada mesmo, de sair na rua”, diz moradora.
“Com medo, moradores se impõem um toque de recolher.” As pessoas se entrincheiram em prédios cercados por grades de metal e munidos de sistemas eletrônicos de segurança. (do cotidiano de nossa cidade).

O animal um texugo? Uma toupeira? Kafka não especifica ― sentindo-se ameaçado, construiu a sua toca, uma obra astuciosa, ramificada em um verdadeiro labirinto de caminhos subterrâneos com a finalidade de proteger o seu construtor.
A ligação da toca com o exterior se faz por meio de muitos orifícios estreitos, tubos de ventilação, com a finalidade de permitir a entrada do ar em seu interior. Apenas uma entrada dá acesso ao sistema de caminhos subterrâneos. As demais entradas são falsas, para ludibriar intrusos. Mas essa entrada verdadeira é um ponto de vulnerabilidade da toca, um caminho por onde inimigos poderiam ter acesso ao labirinto e atacar o animal entocado.
Para corrigir esse calcanhar de Aquiles em seu sistema defensivo, o animal disfarça essa entrada cobrindo-a com uma camada de musgo e plantas e constrói para despistar uma entrada falsa, a cerca de mil passos da verdadeira, e que não conduz a parte alguma. Para certificar-se da eficiência do disfarce, o animal de tempos em tempos sai de sua toca para o exterior e procura buscar alguma eventual falha em seu sistema. Contudo, o medo de que essas suas saídas pudessem ser observadas por inimigos que, dessa forma, identificariam a verdadeira entrada para o labirinto, o animal vai reduzindo suas saídas, até quedar-se em definitivo em seu abrigo. Por algum tempo ele experimenta momentos de tranquilidade, propiciada pela constatação de que suas provisões são fartas.
Mas essa tranquilidade dura pouco, logo ele se entrega novamente à sua paranoica preocupação com segurança conferência do sistema de defesa, a disposição dos corredores e a localização das reservas de víveres. Ao imaginar fraquezas, põe-se laboriosamente a mudar de lugar suas provisões, a alterar o traçado de alguns corredores ou a ampliar o espaço da praça central do esconderijo. É uma faina tão desesperada, a cavar com o focinho, que este até sangra. Mas, todo esse trabalho não lhe traz segurança, permanece sentindo-se em risco. E já então não teme apenas os inimigos externos à toca, pois escutou que existiriam seres que vivem no interior da terra e que, a qualquer momento, poderiam surgir das profundezas para ataca-lo.
Eis que ouve um ruído estranho, até então não percebido, e que com certa regularidade volta a soar. Pensa que talvez seja o ruído próprio da circulação do ar pelas galerias subterrâneas, ou, porventura, produzido pela movimentação de pequenos animais, como insetos. Mas o desconhecimento da causa do estranho ruído tem um efeito assustador sobre o animal, que passa, inclusive, a imaginar se ele não seria o aviso da aproximação dos seres do interior da terra.
Finalmente acaba se convencendo de que o ruído é proveniente da escavação de um outro animal, e tenta confortar-se imaginando que poderia ser possível um entendimento com o invasor: lhe ofereceria comida e ele então o deixaria em paz. Desgraçadamente, no entanto, esse outro hipotético animal nunca aparece, o que continua é o ruído misterioso, que não aumenta nem diminui de intensidade.
Qualquer semelhança do drama vivido pelo animal kafkiano com o dos habitantes do Rio de Janeiro de hoje não é mera coincidência.


A resenha por mim apresentada é, por sua vez, feita a partir de uma resenha escrita por Leandro Konder, brilhante pensador social, já falecido, em seu livro KAFKA – Vida e Obra (José Álvaro, Editor, 1968) do conto que foi um dos últimos escritos por Kafka, talvez o último, e que permaneceu inacabado, o que em nada sacrifica a mensagem nele transmitida. Neste brilhante livro Konder, a partir dos contos mais significativos do grande escritor, analisa suas relações com a família, suas ideias políticas, o drama da solidão, o tema da alienação e outras facetas do atormentado escritor tcheco precocemente falecido (1883-1924).

sábado, 15 de julho de 2017

Ninguém mais lê e-mails


Ninguém mais lê e-mails

Há muitos anos minha atenção vem sendo despertada para um fenômeno que constato no dia a dia das relações sociais: ninguém mais lê e-mails. Isto não significa necessariamente que eles, pura e simplesmente, não sejam mais lidos pelos destinatários, embora isso possa de fato ocorrer. Mas o sentido da minha afirmação é o de que com uma alarmante frequência as pessoas não fazem mais uma leitura linear de textos na forma em que a humanidade o fazia até o advento da internet. A leitura atenta dos textos vem sendo rapidamente substituída por uma leitura salteada, sôfrega, um garimpo de palavras capturadas aqui e ali por um olhar lançado de relance sobre a tela dos celulares, laptops, desktops tablets, Kindles e congêneres. Como resultado, tem-se, frequentemente, uma distorcida captação do conteúdo da mensagem, levando a respostas equivocadas, desentendimentos, estresse nas relações, desperdício de energia, tempo, dinheiro etc. E essa leitura salteada e desatenta nem de longe se limita a e-mails; ela se aplica a qualquer tipo de texto eletrônico.
O que estará acontecendo? Uma resposta muito bem estruturada eu a encontrei no livro do escritor norte-americano Nicholas Carr “O que a internet está fazendo com os nossos cérebros – A geração superficial” (AGIR, Rio de Janeiro, 2011); todas as citações ao longo deste artigo, salvo expressa identificação de outro modo, estão contidas nesse livro. O subtítulo é enganador, poderá levar à precipitada crença de que o autor seja um ludita, um rabugento em relação à internet e um preconceituoso quanto à juventude. Nada mais errôneo. Carr é um homem absolutamente afinado com o desenvolvimento da informática, um ativo usuário das mais atualizadas ferramentas que ela coloca à disposição da sociedade. O que sucedeu, e o levou a escrever o livro, foi o fato de ele ter se dado conta de que a internet passara a exercer sobre si uma influência que em muito superava aquela experimentada com o seu velho PC. E não se tratava tão somente de que ele estava passando muito mais tempo diante de seu computador, nem tampouco a circunstância de que muitos de seus hábitos e rotinas haviam mudado porque ele se acostumara e se tornara dependente de sites e serviços visuais. O que mais o surpreendeu foi a constatação de que o próprio funcionamento de seu cérebro parecia estar mudando. Carr começou então a se preocupar com a sua incapacidade de prestar atenção a uma coisa por mais do que alguns minutos.
            A princípio, Carr imaginou que a razão do que lhe acontecia seria atribuível a um sintoma de deterioração mental da meia idade. Mas, logo percebeu, ocorria que o seu cérebro não estava apenas se distraindo, ele estava faminto. E exigia ser alimentado da forma como a internet o fazia e, insaciável, quanto mais alimentado mais faminto se tornava. Quando longe de seu computador, Carr ansiava por checar seus e-mails, clicar em links, pesquisar no Google. Ele queria estar conectado.

            Vivendo conectado

A necessidade de estar conectado torna-se uma febre: jovens e grandes aficionados da internet de todas as idades têm um profundo interesse em estar informados sobre o que acontece aqui e agora na vida de seus contatos, manifestando enorme ansiedade em participar de forma permanente da roda de amigos nas redes sociais. Parar de enviar e responder mensagens os tornaria invisíveis. Introduzo uma inversão de um conhecido chiste psicanalítico para ilustrar bem essa preocupação. Na piada clássica, um paciente está deitado no sofá do analista e, aflito, confidencia: “Doutor, sinto que estou sendo seguido”. E automaticamente se capacita a ser enquadrado como alguém que sofre de complexo de perseguição. Na versão atualizada, o paciente, igualmente aflito, queixa-se ao analista: “O problema, doutor, é que às vezes sinto que não estou sendo seguido”.
As conseqüências da adição à internet são analisadas em profundidade por Nicholas Carr em seu mencionado livro. Suas afirmações são suportadas na auto-avaliação, em conversas com amigos e, sobretudo, em uma vasta coletânea de resultados de pesquisas e de reflexões efetuadas por neurologistas, psicólogos, matemáticos, especialistas em informática e em outros ramos da ciência, filósofos, poetas etc. As conclusões são surpreendentes. Das ultramodernas técnicas de escaneamento cerebral e de cuidadosas pesquisas efetuadas com seres humanos e animais ficou demonstrado aquilo que já havia sido afirmado por pensadores e filósofos como Martin Heidegger e Marshall McLuhan: a técnica e seus objetos modificam o nosso modo de ser. McLuhann tornou-se bastante famoso na década de 1960 com seus estudos sobre os meios de comunicação. Sua máxima “o meio é a mensagem” tornou-se célebre. O que significa isso? Conforme pontua Carr, os meios não são meros canais de informação, eles fornecem o material para o pensamento, mas também moldam o processo do pensamento. Ele constata que a net parece estar desbastando sua capacidade de contemplação, e quer esteja contatado ou não, sua configuração mental agora espera receber informação do modo como a net a distribui, ou seja, um fluxo de partículas em movimento veloz.
Carr relembra que na década de 1980 muitos educadores estavam convencidos de que a introdução de hiperlinks no texto exibido em telas de computador seria de grande ajuda para o aprendizado: esse artifício facilitaria o pensamento crítico dos estudantes, possibilitando que facilmente acessassem diferentes pontos de vista. Ao final daquela década, o entusiasmo tinha começado a esmorecer. As pesquisas estavam traçando um quadro mais completo, muito mais amplo dos efeitos cognitivos do hipertexto. A avaliação dos links e a navegação entre eles envolviam tarefas de resolução de problemas que eram estranhos ao hábito da leitura em si. Decifrar hipertextos aumentava consideravelmente a carga cognitiva dos leitores, enfraquecendo, dessa maneira, a sua capacidade de compreender e reter o que estavam lendo. Os leitores frequentemente terminavam clicando distraidamente “pelas páginas em vez de lê-las cuidadosamente”. Constatou-se que grupos de leitores que realizavam pesquisas em documentos eletrônicos tiveram desempenho inferior àqueles que fizeram a mesma pesquisa em documentos impressos. Estudos realizados muitos anos depois, quando os leitores já estavam bastante familiarizados com o hipertexto, levaram às mesmas conclusões. Ocorre que, na apreciação de Carr, a necessidade de avaliar links e tomar as decisões de navegação relacionadas, enquanto processa uma quantidade impressionante de estímulos sensoriais, exige constante coordenação mental e tomada de decisões, distraindo o cérebro do trabalho de interpretar textos e outras informações. Sempre que os leitores se defrontam com um link, têm que pausar, ao menos por uma fração de segundo, para permitir que o córtex pré-frontal avalie se é o caso de se clicar ou não. O redirecionamento dos recursos mentais, da leitura das palavras para a realização de julgamentos, pode ser imperceptível para as pessoas, pois o cérebro é veloz, mas foi demonstrado que ele impede a compreensão e a retenção. Particularmente quando este redirecionamento é constantemente repetido.

 Determinismo?

Nossos modos de pensar, perceber e agir - agora se comprova pelos resultados de estudos científicos - não são inteiramente determinados pelos nossos genes. Nem são inteiramente determinados pelas experiências da nossa infância. Nós os mudamos através do modo como vivemos e através dos instrumentos que usamos: pesquisas demonstraram quão profundamente o cérebro pode ser influenciado pela tecnologia. Isso ocorre devido a neuroplasticidade, a faculdade através da qual o cérebro está constantemente se modificando em resposta às nossas experiências e comportamentos, remodelando os seus circuitos a “cada estímulo sensorial, ação motora, associação, sinal de recompensa, plano de ação ou [deslocamento] da consciência”, conforme o pesquisador em neurologia Alvaro Pascual-Leone. Segundo esse cientista, a neuroplasticidade ou, simplesmente, plasticidade, é um dos mais importantes produtos da evolução, uma característica que permite que o sistema nervoso “escape das restrições do nosso genoma e assim se adapte a pressões ambientais, mudanças psicológicas e experiências”. A seleção natural, de acordo com o filósofo David Buller, “não projetou um cérebro constituído de numerosas adaptações pré-fabricadas”; ao contrário, ele é capaz de “se adaptar às exigências ambientais locais ao longo da vida de um indivíduo, e, algumas vezes, em um período de dias, formando estruturas especializadas para lidar com essas exigências”. E, de forma bastante singular, Pascual-Leone realizou um experimento utilizando uma técnica chamada Estimulação Magnética Transcraniana, demonstrando que o cérebro muda não somente em relação às ações humanas, mas, também, em relação a pensamentos. Ele colocou dois grupos de pessoas sem experiência em tocar piano e lhes ensinou a tocar uma melodia simples constituída de uma série de notas curtas. Aos membros de um dos grupos foi solicitado que tocassem a melodia durante um determinado tempo. Aos membros do outro grupo foi pedido que apenas imaginassem que tocassem a música no mesmo período de tempo. O surpreendente resultado foi que o grupo de pessoas que tão somente imaginara tocar as notas exibia, exatamente, as mesmas alterações no cérebro que o grupo de pessoas que efetivamente tinham tocado as mesmas notas. Ficava cientificamente comprovado que nossos pensamentos podem exercer uma influência física em nossos cérebros.

Guerra e Paz

Ninguém mais lê e-mails. E “ninguém lê Guerra e Paz”, a colossal obra de Liev Tolstói, no entendimento de Clay Shirky, um estudioso de mídias digitais da Universidade de Nova York, que faz idêntica consideração ao livro Em busca do tempo perdido, de Proust. De fato, na opinião dele, estivemos “elogiando de um modo vazio” escritores como Tolstói e Proust “todos esses anos”. Nossos velhos hábitos literários “são apenas um efeito colateral de vivermos em um ambiente de acesso empobrecido”. Prosseguindo, Shirky conclui que podemos finalmente nos livrar desses hábitos desgastados (nessa mesma linha, Shirk poderia igualmente condenar a obra dos grandes mestres da música: ela seria tediosa, exigiria demasiado tempo para sua apreensão). Carr considera tais afirmações teatrais demais para serem levadas a sério. Mas é inegável que a introdução do e-book está transformando a maneira como os leitores se posicionam diante de um livro. Steven Johnson, especialista em semiótica (ciência geral dos signos e da semiose que estuda todos os fenômenos culturais como se fossem sistemas sígnicos, isto é, sistemas de significação – Wikipedia) logo após começar a ler no seu novo Kindle, prognosticou que: “a migração do livro ao reino digital não seria uma simples questão de trocar tinta por pixels, mas provavelmente mudaria profundamente o modo como lemos, escrevemos e vendemos livros”. Ele estava excitado com o potencial do Kindle para expandir “o universo dos livros na ponta dos nossos dedos” e tornar os livros tão buscáveis como web pages. Mas o serviço digital também deixou Johnson inseguro: “Temo que um dos grandes prazeres da leitura dos livros – a total imersão em outro mundo, ou no mundo das ideias do autor – estará comprometido. Todos nós poderemos ler livros do mesmo modo como cada vez mais estamos lendo revistas e jornais: um pedacinho aqui, outro ali”. Na avaliação do escritor John Updike, “quando um livro impresso, seja ele uma obra acadêmica de história recentemente publicada ou um romance vitoriano com duzentos anos de idade, é transferido para um aparelho eletrônico conectado à internet, ele se transforma em algo parecido com a página de um site. Suas palavras ficam envoltas em todas as distrações do computador em rede. Seus links e outros aditivos digitais jogam o leitor para cá e para lá”. Ele perde o que Updike chama de suas “bordas” e se dissolve nas vastas águas da net. A linearidade do livro é quebrada, junto com a calma atenção que encoraja no leitor. (meu comentário: o e-book não deixa de ter algumas vantagens, deixo aos seus defensores a apresentação de seus argumentos).
            Ninguém mais lê Guerra e Paz, o esforço não compensa. A leitura desse tipo de texto e sua própria produção – os escritores estarão desconcentrados, senão desestimulados a escrevê-los, sabedores da indiferença com que serão acolhidos – está seriamente ameaçada. E o que dizer da leitura de complexos textos filosóficos? Será possível fazer-se a exegese do pensamento dos luminares do gênero humano através do saltitar do olhar sobre as palavras? E os textos científicos em geral? Restará o entendimento dessas matérias restrito tão somente a um reduzido grupo de especialistas, os modernos monges copistas da idade média? E o que dizer dos compêndios do Direito? Sabemos que os magistrados se debruçam sobre volumosos processos sobre os quais precisam formar um conceito e emitir uma decisão. Premidos pelo tempo, e cada vez mais desabituados à prática da leitura profunda, estarão lendo os extensos textos processuais da maneira fragmentada como o fazem os aditos à internet? Parece que sim, na maioria dos casos. É bastante preocupante o que pode sair daí. O fato insofismável é que a leitura profunda, essencial à compreensão de um texto complexo, exige uma mente calma, não a mente frenética que está se tornando largamente predominante. “Como os usuários lêem na web?” Essa foi a pergunta lançada em 1997 por Jacob Nielsen, “um consultor experiente de design de web pages”, após seu primeiro estudo da leitura on-line. Em 2006, Nielsen, que já vinha estudando a leitura on-line desde a década de 1990, levou a cabo uma pesquisa de rastreamento ocular de usuários da web. Ele descobriu que raramente qualquer uma das 232 pessoas participantes de uma leitura proposta lia o texto on-line de forma semelhante à que faziam quando liam páginas de um livro: linha por linha, de modo metódico. Analisando os dados, o pesquisador constatou que os usuários da web gastavam apenas alguns segundos em uma página. Respondendo, então, à sua própria pergunta feita em 1997, Nielsen, de forma sucinta, radicalizou: “Eles não leem’.

              Ganhos e Trocas

            “Não existe almoço grátis”. Esta famosa frase de Milton Friedman, economista laureado com o Prêmio Nobel, se aplica perfeitamente à análise dos inquestionáveis e prodigiosos ganhos da net em confronto com o que se está dando em troca: a mente linear calma, focada, sem distrações está sendo expulsa por um novo tipo de mente que quer e precisa tomar e aquinhoar informação em pulsos curtos, desconexos, frequentemente superpostos – quanto mais rapidamente, melhor. O que sucedeu a Carr é um perfeito exemplo dos efeitos no modo de ser das pessoas causados pelo hábito da imersão profunda e continuada na rede. Conforme ele relata, não foi fácil escrever o seu livro. No começo, lutava em vão para manter sua mente fixa na tarefa. Ele tendia a escrever em “arrancos desconexos”, da mesma forma que fazia em seu blog. Compreendeu então que seriam necessárias grandes mudanças em suas rotinas. Carr mudou-se de sua residência em um subúrbio altamente conectado de Boston para as montanhas do Colorado. Lá instalado, cancelou sua conta no Twitter, suspendeu por um tempo sua filiação no Facebook, e colocou o seu blog em compasso de espera. E ainda fechou o seu leitor RSS, restringiu o Skype e as mensagens instantâneas, além de desacelerar seu aplicativo de e-mail. Os efeitos? “O desmantelamento de minha vida on-line não foi de modo algum indolor (...) ocasionalmente eu caía numa farra na web por um dia inteiro (...) mas com o tempo a fissura cedeu (...) alguns velhos circuitos neurais, em desuso, estavam voltando à vida, parecia, e alguns dos mais novos, ligados na web, estavam se aquietando (...)”. E foi assim que ele conseguiu paz e concentração para escrever o livro. Carr reconhece, entretanto, que a sua condição de trabalhador autônomo e de natureza relativamente solitária, tendo a opção de se desconectar, não é típica. Ele assinala que para a grande maioria das pessoas atualmente a web é tão essencial para o seu trabalho e para a sua vida social que elas não têm essa alternativa. Na verdade, essa opção, em tese, sempre existiria, porém exercê-la em muitas circunstâncias pode ter um custo excessivamente alto. E como que para provar não ser um ludita, Carr, de forma bem humorada, escreve, quase ao final de seu texto, que voltara a deixar o seu e-mail correndo o tempo todo e que reabrira o seu feed RSS, reativara o seu blog, experimentava novos serviços das redes sociais e que comprara “um blue-ray com conexão wi-fi embutida”. E admite: “Tenho que confessar: é legal. Não tenho certeza se poderia viver sem isso”.
           Para ajudar a explicar como a dependência dos computadores digitais “cresceu constantemente e, aparentemente, de forma inexorável desde que essas máquinas foram inventadas no final da segunda guerra mundial”, Carr evoca as considerações bastante provocativas feitas por Joseph Weinsenbaum, um cientista de computação do MIT-Massachusetts Institute of Technology. Para Weinsenbaum, “uma tecnologia intelectual [assim como o mapa e o relógio] torna-se um componente indispensável de toda a estrutura uma vez que tenha sido tão inteiramente integrada a ela, tão entremeada nas várias subestruturas vitais, que não pode mais ser removida sem mutilar fatalmente toda a estrutura (...) “a sua adoção [do computador] entusiástica, acrítica, pelos elementos ‘progressistas’ do governo, negócio e indústria dos Estados Unidos, tornou-o um recurso essencial para a sobrevivência da sociedade na forma como o próprio computador foi instrumento para moldar”. Aqui cabe um chiste de um amigo meu, técnico em informática, que, de forma satírica, afirma que “o computador é um excelente instrumento para resolver problemas que ele mesmo criou”.
            Ao final de seu livro, Carr faz diversas citações de filósofo Martin Heidegger, que muito se preocupava, já na década de 1950, com “a onda de revolução tecnológica” iminente, que poderia “cativar, enfeitiçar, deslumbrar e distrair de tal forma o homem que o pensamento calculista poderia um dia vir a ser aceito e praticado como o único modo de pensar”. A nossa capacidade de engajamento no pensamento reflexivo, que Heidegger considerava como a própria essência da humanidade, poderia ser sufocada pela desmedida adesão à técnica. Carr poderia ter feito mais uma citação de Heidegger encontrada no texto Serenidade (Instituto Piaget, Lisboa, 1959) - uma resposta simples ao dilema entre endeusar ou demonizar a técnica - e da qual ele próprio se valeu na estratégia para escrever o seu livro: “Podemos dizer ‘sim’ à utilização inevitável dos objetos técnicos e podemos ao mesmo tempo dizer ‘não’, impedindo que nos absorvam e, desse modo, verguem, confundam e, por fim, esgotem a nossa natureza (Wesen) [ser]”.
            O tema abordado no livro de Nicholas Carr é fascinante e atualíssimo, e tem sido objeto de um crescente número de pesquisas em muitos países. Em recente entrevista ao jornal O Gobo (11/02/2012), Caderno Prosa @ Verso, o autor reafirma suas preocupações com o abuso da net, em quem ele reconhece muitas qualidades, daí a utilizarmos tanto, mas acredita que “ela nos transforma em pensadores mais superficiais”. Publicações sobre o assunto não faltam. Sugiro a leitura da matéria publicada no jornal O Globo (13/01/2012), Caderno Ciência, onde serão encontradas referências interessantes na matéria que tem como título “Viciados em Internet”. O Estudo constata alterações no cérebro similares às registradas com álcool e drogas. Recomendo ainda a leitura do livro O Inverno de nossa Desconexão, de Susan Maushart, Paz e Terra, 2011.

Este texto foi escrito em 2012, antes da febre do WhatsApp vir a reforçar as preocupações aqui descritas. A versão agora postada é, com ligeiras alterações, o texto originalmente publicado na revista virtual Desenvolvimento Pessoal, naquele ano. Trata-se da primeira das três partes do que vim a denominar a “Trilogia da Irreflexão”. Naturalmente que desde então preciosa literatura sobre a questão vem sendo produzida. Com relação à progressiva dependência da Humanidade à internet, é particularmente preocupante o capítulo Apagão Digital – Uma interrupção generalizada e duradoura na internet, no livro O Colapso de Tudo, de John Casti (Editora Intrínseca Ltda, 2012). Casti é um matemático, ph.D, especializado em estudos das teorias dos sistemas e da complexidade.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Alto Paraíso de Goiás


ALTO PARAÍSO DE GOIÁS

Quer ver um disco voador? É só acordar às quatro horas da manhã e olhar para o céu.

Geograficamente falando, o município de Alto Paraíso de Goiás situa-se na Chapada dos Veadeiros, em uma altitude de 1.300 m, distando 230 km de Brasília. Possui uma população estimada em cerca de 7.000 habitantes. Desses, uma parte é composta de egressos de outros estados: são gaúchos, paranaenses, paulistas, cariocas etc., gente que chegou em busca de um novo estilo de vida e por lá acabou ficando.  E há também estrangeiros, residentes ou de passagem. A vegetação é a do cerrado, que lembra muito a savana africana. Ao contemplá-la, eu fantasiava ver os leões, os elefantes, as girafas e toda a maravilhosa fauna que víamos nos safáris realizados na África do Sul. Em Alto Paraíso o que se vê é uma grande variedade de pássaros: araras em lindas revoadas, tucanos, sanhaços etc. Não chegamos a ver nenhum dos animais daquelas bandas, como tamanduá e lobo guará. Vimos uma cascavel que se esgueirava pela estrada.  Além de propiciar ao visitante uma vasta oferta de passeios por trilhas ao encontro de deslumbrantes cachoeiras, Alto Paraíso é também um lugar mágico. Comecemos a crônica de nossa viagem pela concretude.
Resolvidos a escapar do Carnaval carioca de 2013, eu e minha esposa Edna marcamos uma viagem a AP saindo da cidade do Rio de Janeiro no sábado de Carnaval. Partimos de avião até Brasília e lá, no aeroporto, alugamos um carro para completar o percurso. Era a nossa segunda viagem a AP; a primeira ocorrera há dois anos, uma esticada de pouco mais de um dia a partir de uma estada em Brasília, com nossos filhos e genro. Gostamos muito, ficáramos de voltar. E lá estávamos, na mesma simpática pousada, a Alfa & Ômega. Edna ficou comigo até a quarta feira de cinzas, quando teve que regressar ao Rio. Eu decidira prolongar a minha estada até o domingo pós Carnaval.
Chegados a AP na noite de sábado, fomos direto à casa do sobrinho Erick e sua esposa Juliana, onde está instalado o Restaurante Semfronteira, especializado em comida mexicana, os famosos Tacos, mas oferecendo outras opções. Era uma noite muito agradável, céu estrelado, eu fantasiando que poderia avistar um disco voador, experiência que parece bastante trivial naquela localidade. Conversando com os sobrinhos logo tratamos de agendar um primeiro passeio para o dia seguinte, com um guia credenciado. Aprendemos que percorrer trilhas pode demandar muitas horas, o sol é forte, deve-se levar protetor solar, chapéu, alimentação e água. No que acabou sendo um golpe de sorte, o tal guia não apareceu na pousada e nem deu qualquer satisfação. Recorremos à outra indicação, e nos veio o Fernando. Não poderíamos estar mais bem servidos: biólogo, Fernando, ao longo das diversas trilhas que com ele percorremos, a sós ou na agradável companhia de três moças paulistas, ia nos passando oportunas informações sobre a flora e fauna local. Guia atento, sempre bem humorado, Fernando, inclusive, salvou uma moça de outro grupo de ser arrastada para uma potencialmente bastante perigosa cachoeira. Caminhar nas trilhas exige cuidado, atenção, muitas delas só podem ser percorridas com um guia credenciado. E outras podem ser um tanto cansativas para quem não estiver em boa forma. Mas, compensa. É turismo ecológico de alta qualidade. O contato com a terra e com a mata, os refrescantes banhos de cachoeira e a deslumbrante vista da chapada definitivamente valem o esforço.
Existe uma grande oferta de passeios a disposição. As trilhas não começam próximas ao centro do pequeno município. Há que se chegar a elas por estradas de asfalto e de terra dirigindo por distâncias que podem ser razoavelmente longas. Para melhor aproveitamento deve-se iniciar a jornada razoavelmente cedo, mas sem necessidade de madrugar. Munidos cada um de nós com uma “merenda” providencialmente preparada pelo casal de sobrinhos, saíamos em torno das 9:00 horas da pousada, que nos oferecia um caprichado café da manhã. Os passeios selecionados para os três primeiros dias foram: Cachoeira dos Macaquinhos, Parque Nacional Cânions e Catarata dos Couros. A distância a percorrer de carro até o início das trilhas variava ente 37 e 53 km. As trilhas em si, classificadas como de grau fácil, médio e difícil, tinham seu percurso variando entre algumas centenas de metros até 10 km, contados os trajetos de ida e de volta. Regressávamos ao final da tarde ou início da noite para um saboroso jantar preparado no Semfronteiras. Na quarta feira a Edna precisava pegar o vôo em Brasília, de modo que só dispúnhamos da manhã para um passeio, e então fomos à Cachoeira Loquinhas, próxima ao Centro, e com caminhada curta e leve. Alem das citadas, visitei ainda, agora na companhia dos sobrinhos, a Cachoeira dos Cristais. Trata-se de uma trilha de fácil acesso, pontilhada por pequenas cachoeiras que formam piscinas muito propícias ao banho. Na entrada, existe uma lanchonete onde se pode saborear excelentes pastéis de palmito, bacalhau etc., acompanhados de uma cerveja gelada, porque ninguém é de ferro.

ALTO PARAÍSO MÍSTICA
Há uma suposição bastante difundida de que Alto Paraíso desfruta de uma condição muito especial. Particularmente ante a crença de que o mundo acabaria no dia 21 de dezembro de 2012, segundo uma interpretação do Calendário Maia, muitas pessoas acorreram àquele sítio mágico, onde estariam a salvo do Apocalipse. O mundo não acabou em lugar algum do planeta, mas AP segue mantendo a sua aura de transcendentalidade. Sobre essa condição transcrevemos algumas considerações do escritor denominado polígrafo Luís A. Weber Salvi, em seu livro 2013 – A Cidade Portal (citado pelo mesmo autor em outro de seus trabalhos, Harmonização Planetária, Editorial Agartha, 2009):

Este livro demonstra, através de uma série de revelações sobre as coisas da Nova Era que, por todos os signos, a cidade de Alto Paraíso de Goiás, está predestinada a ser uma Cidade Portal para os atuais momentos de transição planetária, e talvez por muito tempo ainda no futuro. Alto Paraíso acha-se sob uma especial confluência de energias da Nova Era e do Novo Mundo, tendo por tarefa terminar de unificar estas dimensões e projetar para o futuro as bases de uma civilização efetivamente sagrada e universalista.

            Após a partida da Edna, eu tinha como projeto explorar essa questão, visitando determinados sítios e conversando com pessoas. Com esse objetivo contratei mais uma vez os serviços do nosso eficiente guia, Fernando, para um tour. Começamos dentro da própria cidade. Eu estava interessado em ver a casa em cuja parede aparecia escrito, e registrado na foto da reportagem do jornal O Globo sobre AP, realizada antes do “fim do mundo” : CONSERTAMOS DISCO VOADOR. Ah, lá estava ela. Tratei logo de obter uma foto, na qual eu apareço como que consertando uma peça em frente à casa, e postei em meu facebook. Seguimos então para um local um tanto afastado, com o objetivo de visitar um sítio particularmente interessante, o ateliê de um renomado artista plástico, o Conde Alberto Frioli.

Reptilianos
No caminho, tive a oportunidade de escutar do meu guia uma descrição dos reptilianos, seres intraterrenos que saem das profundezas da terra através de um Portal na montanha e podem viver entre nós, assumindo a forma humana. Nessa condição, eles são obesos. Aqueles que entendem sua missão terrena se tornam bem sucedidos, como fazendeiros, por exemplo, comprando terras justo acima de onde vive sua comunidade intraterrena. Já aqueles que não compreendem sua missão terrena são ainda mais obesos, e exalam um cheiro forte. Têm apego material e são capazes de hipnotizar para conseguir seus objetivos. Fernando disse ter ouvido de alguém uma autodeclaração de reptiliano. Essa teoria da existência de reptilianos logo viria a ser reafirmada por uma respeitável senhora, professora universitária aposentada, que visitaríamos em sua casa octogonal construída na grande área de propriedade do Conde Alberto Frioli, muito próxima ao ateliê desse artista. Essa senhora viria a reportar que certa feita, quando pescavam, ela e seu marido, à beira de uma praia no Rio Grande do Sul, viram emergir do mar, na vertical e com enorme velocidade, uma nave em forma de carrapeta, que logo desapareceu de suas vistas. Ela nos apresentou essa visão como prova da existência de reptilianos.

O ateliê de Alberto Frioli
Alberto Frioli, Conde de Rezzano, nascido na Itália, em 1943, naturalizou-se brasileiro. Tendo vivido entre Europa e São Paulo, está radicado em Alto Paraíso. Lá comprou uma ampla área de terra onde construiu sua casa e seu ateliê. (Segundo sua assistente, o senhor Alberto tem um ambicioso projeto de construir em sua propriedade um parque à semelhança do Parque Inhotim, em Minas Gerais).  Em um enorme salão encontram-se dispostas uma coletânea de obras produzidas dentro de um design definido como “técnico-mítico”, sobressaindo-se o Harmonizador Planetário e o Cavalo Áquilon.
O Harmonizador Planetário é uma impressionante escultura de 3,2 metros de altura. Na definição de seu criador, conforme citado no livro Harmonização Planetária:
Parte da simbologia hermética que em tempos passados foi semeada e fixada na arquitetura gótica, e que hoje é conhecida como “o mistério das Catedrais”, está sintetizado no Harmonizador Planetário. Um conjunto de ensinamentos ocultos que mostram o caminho alquímico destinado a resgatar o homem dos planos inferiores da existência (...).
Visualmente ainda muito mais impactante é a escultura do cavalo Áquilon, feita com fibra de carbono, em tamanho natural, e que se equilibra em uma só pata, o que transmite uma forte impressão de movimento e ascensão, propiciada pelas suas doze asas, com uma extensão de seis metros. Segundo o texto do livro Harmonização Planetária, “Áquilon é o cavalo alado ‘andrógino’ que se volta vitorioso para as estrelas. ‘Representando o resgate e a libertação final do próprio homem desde os planos inferiores de seu ser”. Seja lá o que representar, o cavalo é, em si, uma belíssima escultura.

            OVNI´S e ET´s
Praticamente de todos aqueles com quem conversei, de aparência mística ou absolutamente racional, acabei recolhendo, muitas vezes após uma “preparação do terreno”, relatos que merecem ser reportados:
Certa feita encontrei-me com duas amigas que estavam entrando em um carro. Iriam, disseram, visitar uma base fixa de discos voadores. Decidi ir junto. Era noite, subimos uma montanha e lá em cima, no espaço, vimos dois discos voadores fixos. Uma de minhas amigas ficou muito assustada, eu também tive medo, mas a outra amiga, que portava uma lanterna decidiu fazer contato. A tal lanterna podia emitir luzes vermelha ou amarela. Quando ela emitia luz vermelha, uma das naves sinalizava na mesma cor. Quando emitia luz amarela, recebia de volta luz branca, da outra nave – E foi tudo? – perguntei. – Foi. – a senhora retornou alguma vez àquele lugar? – Não. (Relato daquela respeitável senhora, residente em Brasília, e com uma casa em AP).
Uma tarde saí de uma agência bancária e vi um carro da polícia próximo a uma casa lotérica. Havia algum movimento de pessoas em torno. Achei aquilo curioso, mas retornei à pousada. Lá, perguntei a uma hóspede, uma senhora de aparência absolutamente racional, se ela sabia de alguma ocorrência. – Então você não sabe? – retrucou, perplexa, a hóspede. – É a polícia intergaláctica. Ela está por toda a cidade. Está perseguindo ET´s. Eu, inclusive, para minha segurança, estou proibida de voltar para a minha casa. (Relato de outra respeitável senhora, gerente de uma pousada, que nada mais disse à hóspede). ― era o caso de temer-se que as diárias da estadia viessem a ser pagas com um “cartão intergaláctico”, o que, felizmente, não ocorreu. E foi assim que eu fiquei sabendo da existência da tal patrulha, que impunha a lei contra ET´s desviantes.
Uma noite um casal de japoneses e um rapaz, chegaram à pousada para se hospedar. Pediram autorização para usar o espaço Metatron (um salão ao fundo da pousada, consagrado à prática de massagens, meditação, palestras etc.). Eles haviam encontrado a polícia intergaláctica e precisavam estar no Metatron para entrar em contato com ela. (Relato daquela mesma senhora, gerente da pousada).
Uma noite, estávamos nós, dois biólogos e um geógrafo, no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, monitorando o pato mergulhão. Subitamente surgiram sete pontos de luz prateada ziguezagueando no céu. O fenômeno repetiu-se sete vezes ao longo de uma hora. Certamente não eram aviões, pois durante aquele intervalo pudemos comparar as luzes emitidas por um deles em sua passagem pelo céu com aquelas estranhas aparições. (Relato de nosso guia biólogo).
Quatro horas da tarde. Estávamos, eu e uma amiga, aguardando a chegada de um ônibus na estação rodoviária [minúscula] quando, vimos, nitidamente, um disco voador se deslocar nos céus. Disse a ela que não comentasse nada, mas viemos a perceber que muitas outras pessoas também haviam visto o fenômeno. No dia seguinte, retornamos, ao mesmo local e na mesma hora. Pontualmente o disco voador fez idêntica aparição. (Relato de um senhor, contador de causos, e autor da afirmação na epígrafe desta crônica).
Certa feita um morador daqui foi abduzido por um disco voador que, posteriormente, o trouxe de volta. Passado algum tempo, esse morador começou a sentir um incômodo, na altura do cangote. No hospital, foi identificada a presença de um cristal – um chip de monitoramento − que fora inserido naquela região. O cristal foi removido mediante uma pequena cirurgia. (Relato de um senhor de aparência insuspeita).

Rituais e tratamentos não hipocráticos
            Anualmente realiza-se em AP o Festival do Ayuascar, ao qual acorrem pessoas de todo o mundo. Dura 15 dias, e os participantes pagam o preço de R$ 150,00 por dia. Há uma série de vivências, e conferências, proferidas inclusive, por pajés. A prática de tomar-se o chá do Santo Daime é corrente nesses encontros e, também fora deles. Fui informado ainda que AP abriga uma escola de bruxas, dentre outros sítios misteriosos. Não fui verificar.
            Uma pessoa me contou sua fantástica experiência ao tomar o chá. Foi em uma espécie de culto. Passou terrivelmente mal, experimentou diversas visões, inclusive de Jesus Cristo, viu a sua vida escoando, escutava as pessoas ao seu redor e, em desespero, pedia que não o deixassem passar. E então escutou lhe oferecerem a oportunidade de retornar como feto no ventre de uma grávida lá presente. Recusou, queria ficar como era, e então lhe colocaram por cima o “cobertor da cura”. Quando, finalmente, retornou do transe sentiu que estava liberto de seus males.
            Outras práticas curativas nada ortodoxas que me foram reportadas são a uritoterapia – relatada como praticada, inclusive, por um médico e sua família −, a hemoterapia – a extração do sangue venoso de uma pessoa e a imediata aplicação no músculo dessa mesma pessoa −, jejuns absolutos de quinze dias, sendo que os sete primeiros com abstinência até mesmo de água. Existiriam pessoas que vivem sem comer e beber, alimentando-se tão somente do sol. Para os não afetos a tais práticas recomendo a massagem ayurvédica (palavra sânscrita que significa ciência da vida). A massagem ayurvédica é reconhecida pela OMS (Organização Mundial da Saúde). Atuando sobre os sistemas linfático e circulatório, é considerada como bastante benéfica à saúde. Tomei duas sessões com duas profissionais diferentes, uma gaúcha e uma francesa. É bastante relaxante.
Telepatia
            A geologia de Alto Paraíso, com a sua abundância em cristais de quartzo, favoreceria as comunicações, potencializando, inclusive, a telepatia. A mentalização de uma pessoa faria essa pessoa aparecer. Outro efeito dos cristais de quartzo seria a de cura de alguns males, como dor de cabeça, por absorverem energia.

Minhas considerações sobre OVNI´s e ET´s
            Nunca me preocupei muito com a suposta existência de OVNI´s e ET´s, mas, em AP, dei bastante tratos à bola sobre o assunto. Se existe vida extraterrena, creio, não será na forma em que nossa limitada capacidade de abstração a concebe. Humanóides transportados em naves especiais, abduzindo e monitorando seres humanos são apenas projeções de nossas vivências. Por que fazer experiências científicas em seres humanos, da mesma forma com que as realizamos em camundongos? Quem pode se transportar através de milhares, ou milhões, de anos-luz está mais distante dos humanos do que esses de suas cobaias. Tendemos a imaginar ET´s assim como o fazíamos com os deuses do Olimpo grego. Todos eles com formas físicas e comportamentais absolutamente humanas. Se civilizações inimaginavelmente mais avançadas realmente existem, porque estariam, há tanto tempo, preocupadas com outra tão rudimentar e autodestrutiva quanto a que estabelecemos aqui na Terra? – Estão tentando contribuir para o nosso aperfeiçoamento. – ouvi de algumas pessoas. Se esse é o propósito, temo que não estejam sendo bem-sucedidos. Polícia intergaláctica perseguindo ET´s do mal? Mais uma vez tudo o que vejo é uma projeção de nossas vivências terrestres. – É muita arrogância nossa imaginar que seríamos a única forma de vida no universo ― assim argumentam os defensores da vida extraterrena. ― Mas, como seria essa vida? ― pergunto eu. Para os criacionistas, Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, aqui na Terra. Um milagre. Ponto. Para os evolucionistas, a possibilidade de repetição, em outro mundo, da fantástica cadeia de eventos que, partindo de formas elementares de vida, há bilhões de anos, chegou ao “homo sapiens” é absolutamente descartável. O que ocorreu aqui é tão único que também poderia ser considerado “milagre”.
            − Mas, então, todas as visões de OVNI´s, de humanoides, são pura e simplesmente mentiras? – Não, não posso afirmar isso. Muitas hipóteses podem ser aventadas para tais aparições: fenômenos metereológicos, satélites artificiais, meteoritos cruzando o espaço, ilusões da mente, necessidade de crer (crer para ver), etc. Ou, será que poderíamos imaginar que tais visões somente aparecem para aqueles espiritualmente preparados, como na conhecida narrativa das aparições de Nossa Senhora de Lourdes, em Lourdes, França, em diversas ocasiões e para diversas pessoas? Não sou dono da verdade, mas quero ter a liberdade de proclamar que não creio em OVNI´S e ET´s nas formas até então descritas. Até prova em contrário. Por outro lado, ao contemplar as grandes Pirâmides de Gizé, no Egito, tive uma certeza: elas não foram construídas pelos egípcios de seu tempo. Absolutamente impossível conceber-se tamanhos blocos de pedra, cortados, com absoluta precisão, de pedreiras situadas a grande distância do sítio onde as pirâmides se encontram, e sendo transportadas através de um deserto escaldante. Eles não dispunham de máquinas e equipamentos para tal proeza. Então, quem as construiu? Viajantes no tempo, vindo de outras civilizações? Não sei. Creio, sim, na possibilidade de vida extraterrena, mas não sob qualquer forma por nós imaginável. Ela seria extremamente sutil, quem sabe, uma forma de energia que se transporta ignorando as barreiras do espaço-tempo?
Era a minha última noite em AP. Noite linda, estrelada, temperatura amena, como todas aquelas que eu experimentara. Saí da casa-restaurante dos sobrinhos e caminhei pela escura e deserta rua que levava à minha pousada. Refletindo sobre essas questões, me dei conta de que aquele não tinha sido propriamente um assunto adequado para ser conversado até a meia noite, e depois ir dormir em uma pousada com tantos recantos esotéricos. E na qual eu era um dos poucos hóspedes que haviam permanecido após o feriadão de Carnaval. A pousada dormia em silêncio. Eu tinha a chave do meu quarto. Avancei pela área externa em direção ao meu quarto e tranquei-me rapidamente. Confesso que, ali sozinho, me inquietava um pouco a sensação de poder estar sendo observado por alguma coisa que escapava completamente à minha compreensão. E se a tal coisa se materializasse? “Yo no creo en las brujas, pero que las hay, las hay”. Para não mais pensar naquilo, retomei a leitura de mais um livro da Agatha Christie. Ao menos lá os mistérios seriam racionalmente desvendados.
Bem, não vi OVNI ou ET. Mas, Alto Paraíso de Goiás é um lugar danado de bonito e fascinante. Voltarei lá.


Fev/2013

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Nos tempos de Dona Ermelinda


Nos tempos de Dona Ermelinda

A relação dos aprovados no vestibular de ingresso à prestigiosa Escola Nacional de Química estava lá, pregada na parede. Buscamos avidamente encontrar os nossos nomes e os encontramos: o meu e o do meu grande amigo Pacci. Era o coroamento de uma árdua temporada de estudos, nos tornávamos universitários. Ambos bastante jovens, eu ainda com 17, e Pacci com 18 anos de idade.
A faculdade ficava no ecológico bairro da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, muito próxima ao sopé do Morro da Urca, de onde partiam os antigos bondinhos para o Pão de Açúcar. A jornada de Niterói, onde morávamos, até chegar a ela era demorada, demandava três conduções: um “trolley bus” (ônibus elétrico) para se chegar à estação das barcas de Niterói, a barca para a travessia da Baía de Guanabara e, finalmente, outro “trolley bus” à Praia Vermelha. Não raro podia durar duas horas. Seguiam-se oito horas passadas em salas de aula e laboratórios, intermediadas por duas horas de almoço. Acrescentando-se as duas horas gastas no regresso às nossas residências, chegávamos a um comprometimento de 14 horas de nosso dia útil. Era demais. Confabulamos e concluímos que o melhor seria “cruzarmos a Baía”, ou seja, alugarmos um pouso próximo à Faculdade. Foi assim que começamos a procurar nos classificados dos jornais anúncios de “alugam-se vagas para cavalheiros de fino trato”. Não demorou muito para encontrarmos aquilo que nos parecia o ideal: um quarto num apartamento situado na Praia de Botafogo. Fomos aceitos como inquilinos após uma entrevista com os proprietários do imóvel, Seu Gilson e esposa, Dona Ermelinda. Aparentavam formar um casal absolutamente decente. Tinham uma filhinha de uns dois anos de idade. Deram-nos algumas explicações básicas sobre a locação e informaram que havia dois outros quartos alugados no apartamento: um para o Sr. Nilson, outro para uma moça, Iracema.
Eu me propunha a passar apenas os dias de semana naquele local, pois me era difícil cortar o cordão umbilical familiar: chegava ao apartamento nas noites das segundas feiras, após a jornada na faculdade, e já o deixava nas manhãs das sextas feiras. O meu amigo Pacci se permitia ficar um pouco mais por lá. Foi um período de difícil adaptação para nós, colegas de turma saídos de um ambiente escolar ao qual nos acostumáramos durante os sete anos dos cursos ginasial e científico, em nossa pacata cidade natal, e transportados para outra realidade. Niterói, então capital do antigo estado do Rio de Janeiro, de certa forma estranhava a cidade do Rio de Janeiro, recém destronada da condição de capital da República, e que passara à condição de capital do extinto estado da Guanabara. A distância ainda não havia sido encurtada pela construção da ponte Rio - Niterói, a baia era uma separação física que preservava algumas diferenças de costumes entre as duas cidades − a imensa e cosmopolita Rio de Janeiro e a pequena e reservada Niterói. A faculdade exigia muito de nós e, para complicar, ambos amargávamos uma dolorosa frustração amorosa. Pacci, ao declarar seu recôndito amor à Narinha, a suave, doce coleguinha de turma no Científico, recebera um triste pé na bunda. Eu, num processo bem mais complicado, não conseguira declarar a minha imensa paixão de adolescente a Natacha, outra coleguinha de turma. Éramos grandes amigos, tínhamos muito em comum, inclusive a timidez. Essa paixão não declarada acabou por nos afastar abruptamente, de forma totalmente inusitada, e a nunca mais nos falarmos, embora frequentássemos a mesma sala de aula. E ardeu em mim durante um longo tempo, assim como doeu em Pacci o pé-na-bundeamento por ele sofrido. Ao relembrar tantas vezes a sua desventura o pobre Pacci se lamentava: “É como um filme que subitamente começa a se desenrolar na minha cabeça; nada posso fazer para interrompê-lo, tenho que aguardar que ele simplesmente vá até o fim”. Excelente definição que a mim também se aplicava no incontrolável irromper das minhas lembranças da oportunidade perdida.
A vida nos primeiros dias no apartamento da Dona Ermelinda − logo vimos que era ela quem mandava no pedaço − transcorreu sem novidades. Ocorria de, por vezes, encontrarmos, à espera do elevador, o Sr.Nilson, um senhor afável e bastante educado, ou Iracema, uma moça jovem e bem bonita, além de simpática. Nós os cumprimentávamos sem entabular conversação. O primeiro sinal de alguma coisa estranha ocorreu quando Pacci, ao retornar de sua casa ao apartamento em uma noite de domingo, foi amavelmente convidado por Dona Ermelinda para lanchar com ela e com o seu esposo. Teria sido apenas um gesto de cortesia se não fosse por um detalhe: Dona Ermelinda vestia um traje caseiro, algo como uma camisola, um pouco rasgada. Imersos em nossos próprios problemas, pouca ou nenhuma atenção prestávamos ao que se passava no interior daquele ambiente, mas logo dona Ermelinda foi nos passando algumas confidências. A jovem Iracema “não passava de uma prostituta do Rajá”, célebre edifício-cortiço de Botafogo. Ficamos um tanto chocados com a revelação, que tomamos como verdadeira. Mas logo em seguida viria uma revelação ainda mais bombástica: aquele distinto Sr. Nilson era, na verdade, “uma bicha”, e que por suas práticas arruinara a tal ponto o seu ânus que estava condenado a usar uma bolsa de colostomia. Estávamos em 1963, a homossexualidade era algo bastante condenável, a revelação nos deixou atônitos. A partir daí não tivemos mais sossego. Seguiram-se duas reclamações feitas a mim com relação ao comportamento de Pacci. A primeira, bizarra, referia-se a um ruído que consideravam excessivo produzido pelo meu amigo ao escovar os dentes no banheiro. A segunda revestiu-se de uma solenidade bem maior. Estava eu deitado em minha cama quando ouvi batidas em minha porta. Abri, assomou o Sr. Gilson, com um ar grave. “Venho trazer uma reclamação de moradores, disse ele”. Eu, apreensivo, escutava. O seu amigo tem sido visto através da janela, deitado na cama, de cueca, coçando o escroto”. “Coçando os culhões”, emendou ele, na suposição de que eu desconhecesse o termo vernacularmente apropriado que utilizara. Fiquei perplexo e, extremamente constrangido, tudo o que pude dizer é que falaria com Pacci sobre a reclamação.
A coisa foi piorando. Num crescente de confidências, Dona Ermelinda começou a reclamar conosco de seu marido: ele, durante a noite na cama “emitia suspiros que traiam as relações sexuais que mantinha com crioulas”. Um dia nos afirmou que ele sofria de sífilis. Fomos tomados de pânico. Em tempos muito anteriores ao surgimento da AIDS a sífilis era o flagelo mais temido pelos que se aventuravam no mundo do sexo. Conhecíamos de leitura os diversos estágios da doença até que ela se instalasse no cérebro do infectado, levando-o a loucura. Comecei a ver ameaças de contaminação por todos os lados do apartamento, especialmente no banheiro. Em um desastrado movimento pra não tocar em nada na pia durante o ato de fazer a barba acabei por deixar cair ao chão o velho aparelho suíço que o meu pai me emprestara, o que resultou no entortar de um de seus dentes. Mais apavorado ainda ficou Pacci, que foi ao consultório de um prestigioso médico em Niterói para ouvir dele a explicação de que seus temores eram inteiramente infundados, que “sífilis não se pega assim, somente se pega em relação sexual e, mesmo assim, na ocorrência de ferimentos”. Menos mal, ao menos quanto a isso nos tranqüilizamos.
Porem o meu desconforto ia crescendo. Dona Ermelinda tomava cada vez mais intimidade. Um dia começou a me pressionar por dinheiro para que ela comprasse um presente para sua filhinha. Fiz-me de desentendido, mas aquilo me aborreceu. Mas o melhor ainda estava para vir. Voltando às queixas contra o marido disse: “O meu marido vive falando em amigos, amigos, que o fulano é seu amigo”. “Pois é. É amigo. Mas sábado passado ele veio aqui e me deu aquilo pra eu chupar”. Aquilo já era demais. Ao deixar o apartamento na sexta feira que se seguiu levei as minhas poucas coisas que lá deixava e não mais retornei àquele hospício. Pagara o mês adiantado, mas era melhor nem negociar qualquer devolução. O meu amigo Pacci permaneceu até o último dia que o seu pagamento lhe garantira. Jamais saberei a verdade sobre o que ouvira de Dona Ermelinda. Quem sabe, ela é quem seria portadora de sífilis em seu último estágio?

28/11/2014

domingo, 25 de junho de 2017

Deixem-me ao menos algumas ilusóes


Deixem-me ao menos algumas ilusões

O título deste artigo vem de uma antiga edição da revista Seleções, do Readers Digest, uma publicação até hoje encontrada nas bancas, mas que nem remotamente desfruta do prestígio que tinha no passado. A publicação, mensal, com enorme tiragem em todo o mundo sob a esfera de influência dos Estados Unidos, tinha um conteúdo bastante diversificado, conquanto superficial. Por isso, daqueles que baseavam seus conhecimentos unicamente na revista dizia-se ironicamente que “possuíam cultura de Seleções”. Apesar de tudo, tirante as matérias de conteúdo teatralmente propagandístico sobre a as maravilhas da sociedade norte-americana e contra a antiga União Soviética, Seleções despertou em muita gente o gosto pela leitura.
Li o tal artigo pelo final dos anos da década de 1950. Era uma provocação em relação a verdades tomadas como inquestionáveis, mas que, afinal, não resistiram a testes de efetiva comprovação. Um desses postulados era o especial apetite de ratos pelo queijo, fartamente difundido mundo afora de mil maneiras: uma que me ocorre é através dos desenhos animados Tom & Jerry, extremamente populares naquela época. Pois bem. Dentre outras desconstruções, nunca me esqueci daquela que relatava a experiência na qual foi apresentado aos roedores um variável cardápio para testar suas preferências. O resultado foi absolutamente desconcertante: queijo foi a última opção da rataria, sendo que a primeira foi jujuba de limão!
A partir daí sempre fui um pouco cético em relação a verdades tidas como cientificamente estabelecidas. Parece que é apenas uma questão de tempo uma crença vir a ser contestada, a verdade estaria até mesmo no seu oposto. Por um longo período aprendemos que o consumo de ovo seria muito prejudicial à saúde. O colesterol contido em sua gema era um convite a distúrbios cardiovasculares. Assim sendo, ovo e alimentos que o contivessem deveriam ser escrupulosamente evitados. Eis que para minha surpresa assistimos a uma completa reabilitação do ovo.  O Dr. Lair Ribeiro, um cardiologista bastante conhecido por uma grande quantidade de livros publicada e por suas conferências sobre saúde, nas quais é apresentado como nutrólogo, não só defende como exalta o consumo de grandes quantidades de ovo, ressalvando apenas que eles não devem ser fritos, mas, sim, cosidos. Na mesma linha de defesa do ovo contra a satanização por ele sofrida nos últimos 40 anos alinha-se outro cardiologista, e também nutrólogo, o Dr. Sergio Puppin, autor do livro “Ovo: o mito do colesterol”. Então, o negócio é comer ovos, “o mais completo alimento da natureza”.
A propósito de colesterol, sempre se teve como verdade que altas taxas do chamado colesterol bom (HDL, high density lipoprotein) seriam suficientes para proteger o coração do excesso de colesterol ruim (LDL, low density lipoprotein). “Nem tão bom assim”, é o título de um artigo publicado no jornal O Globo (Saúde, 13/01/2013). Segundo a matéria, duas pesquisas efetuadas em centros de doenças cardíacas nas universidades de Zurique, na Suíça, e de Leipzig, na Alemanha, demonstraram que o HDL pode perder o seu efeito protetor em decorrência de oxidação. A conclusão foi a de que que nem sempre o HDL pode proteger o coração, e que as tentativas de uso de remédios para melhorar a taxa desse colesterol não deram certo. Inclusive, pasmem, o prestigioso laboratório Pfizer suspendeu seus testes com uma substância capaz de aumentar as taxas de HDL após verificar um aumento, ao invés de redução, dos casos de óbitos: 82 dos 15 mil pacientes que participaram do estudo faleceram.
Além do ovo, muitos outros alimentos de origem animal sofreram, e sofrem, processo de estigmatização. A carne vermelha, o leite de vaca (“cow milk is good for baby cows”, reza um provérbio norte-americano), a manteiga, o queijo e a banha de porco são alguns exemplos. A manteiga deveria ser substituída pela margarina, enquanto a banha de porco daria lugar aos óleos de origem vegetal. E vieram, enaltecidos, os óleos de soja, de milho, de amendoim, de girassol e... de canola. Mas, o que seria canola? O Dr. Lair Ribeiro, ao fazer a crítica ao consumo dos referidos óleos provenientes de sementes de vegetais, ensina que o óleo de canola, o mais caro dentre os citados, e supostamente o melhor, na realidade seria o pior deles, pois a canola sequer existe na natureza, a palavra é, na verdade, a sigla para Canadian Oil Low Acid (ao se pesquisar mais o assunto, descobre-se que a canola resulta de um melhoramento genético da colza, essa, sim, uma semente, e da qual se produz um óleo bastante tóxico ao consumo humano). Todos esses óleos vegetais são obtidos através de processamento químico que resulta em sua hidrogenação, uma operação durante a qual são geradas gorduras trans, perversas à saúde. Mas, qual não foi a minha surpresa ao verificar que opinião diametralmente oposta é expressa pelo Dr. Claudio Domenico, respeitado cardiologista e autor do livro Te cuida. O Dr. Domenico, ao construir a sua pirâmide alimentar, alinha em sua base, juntamente com outros alimentos, justamente os óleos vegetais e a margarina!
E o café? Durante décadas escutamos que seu consumo deveria ser evitado ou, pelo menos, muito moderado. Aceleração dos batimentos cardíacos, nervosismo, insônia, problemas gástricos e uma série de outras mazelas eram atribuídos a nossa rubiácea. A cafeína é um veneno, nos diziam, daí surgiu a variante café descafeinado. Curiosamente, do chá preto, contendo teína, a cafeína do chá, nada se dizia. Mas, de repente, o café surge completamente reabilitado. Não só não faz mal, como o seu consumo é definitivamente recomendado: a cafeína atua como antioxidante das células e ainda tem efeito antidepressivo.
E quanto ao uso de adoçantes sintéticos? Esses foram introduzidos no mercado como sucedâneos do açúcar, a sacarose, para aqueles que não podiam dispensar o sabor adocicado que a substância, absolutamente demonizada (o livro Sugar Blues, popularíssimo nos anos da década de 1970, foi uma violentíssima catilinária contra o seu consumo), confere a uma extensa gama de alimentos. Caloria vazia, o açúcar é responsabilizado por uma assustadora lista de doenças que vão do diabetes a problemas cardiovasculares. Fazia-se imperiosa a sua substituição por sucedâneos sintéticos. Mas, não demorou para que, ainda em plena década de 1960, quando seu uso começou a ser difundido no mercado, os adoçantes começassem a sofrer ataques: o ciclamato produz câncer. Nos dias atuais outros adoçantes sintéticos são vítimas de graves ataques. Como exemplo, o aspartame que, de acordo com pesquisas, causaria, além de câncer, mal de Alzheimer, esclerose múltipla e doenças cardiovasculares, dentre outros males.
Outro grande vilão é a farinha branca: engorda, não contem fibras etc. Só não conseguem explicar porque os italianos consomem prodigiosas quantidades de massas fabricadas justamente a partir de farinha branca, e mantém uma forma física tão diferente dos tradicionalmente obesos norte-americanos e de novos obesos como os ingleses e os brasileiros. Igualmente os franceses têm em sua dieta grandes quantidades de pães com farinha branca, queijos, manteiga, doces, etc., e estão igualmente em boa forma. Qual a razão? Seria a tal dieta mediterrânea, beneficiada pela ingestão de vinho tinto e azeite de oliva, ambos, se consumidos em quantidade moderada, ainda a salvo da demonização? Aguardemos, quem sabe, alguma pesquisa ainda virá a demonstrar “cientificamente” que tais alimentos estão, de fato, entre os grandes flagelos da humanidade?
Sal do Himalaia? Segundo pesquisa de um químico respeitável, amigo meu, o sal sequer vem do Himalaia, mas, sim, do Paquistão, Falseando-se a origem, o sal ganha muito mais charme e apelo comercial. Quimicamente, o sal do “Himalaia” realmente contém mais sais minerais que o sal comum, porem em quantidade insignificante para fazer diferença na dieta humana. E quanto ao sódio, ele possui a mesma concentração que o sal marinho, que, de resto contém apenas 100 mg/10gr a menos que o sal refinado. E ainda contém muito flúor, elemento tóxico. Enfim, sal do “Himalaia” seria puro modismo, muito caro e até perigoso à saúde.
E o que dizer do óleo de coco? O novo queridinho de tantos nutrólogos e nutricionistas, sofre agora um fulminante ataque. Em reportagem publicada em O Globo, 19/06/2017, intitulada “Saiba por que o óleo de coco não é tão saudável quanto você pensa”, um estudo da Associação Americana do Coração (AHA, a sigla na língua inglesa) desaconselha a ingestão do óleo de coco. Segundo a AHA, enquanto o azeite tem 14% de gordura saturada - prejudicial à saúde cardíaca -, a banha de porco contém 39%, a de carne bovina 50%, a manteiga 63% e o óleo de coco impressionantes 82%. “Como o óleo de coco aumenta o colesterol LDL, uma causa de doenças cardiovasculares, e não tem efeitos favoráveis compensatórios conhecidos, nós desaconselhamos o seu uso”. Prosseguindo, a recomendação da AHA é de que as gorduras saturadas — de laticínios, animais e óleo de coco e azeite de dendê, dentre outras — sejam substituídas por gorduras mono ou poli-insaturadas, encontradas sobretudo em óleos vegetais, como o azeite de oliva e os óleos de milho, canola (!!!), girassol e soja.
            Finalizando, devo dizer que há tempos venho atentando para uma informação na embalagem de diversos produtos alimentícios: Não contem glúten, como uma espécie de selo de garantia ao produto. Inversamente, em outras embalagens consta: Contém glúten. Mas, o que será glúten? A Wikipédia nos ensina que ele é uma proteína amorfa composta de mistura de cadeias proteicas longas de gliadina e glutenina. Essas substâncias se encontram naturalmente na semente de muitos cereais como o trigo (principal fonte da proteína), a cevada, o centeio e a aveia.  Segundo a informação, entre 1 a 2% da população mundial apresenta intolerância ao glúten, embora até metade dos celíacos não apresentem sintomas graves ou que interferem em sua vida cotidiana. Os portadores da doença celíaca têm uma hipersensibilidade ao glúten, que pode ser resultado de uma alergia ou de intolerância a ele. Nessas pessoas o glúten provoca danos na mucosa do intestino delgado, impedindo uma digestão normal.
            Entenderam agora a razão da frase contém glúten, encontrada em embalagens de diversos produtos alimentícios?  Serve para alertar as pessoas que possuem intolerância ou reações alérgicas a essa proteína, para que não consumam aquele alimento. Fui conferir: na embalagem de farinha de trigo em minha dispensa consta a temível expressão. O trigo é a principal fonte da alimentação humana. O que fazer? Tudo o que posso é expressamente declarar: Esta crônica não contém glúten.

25/06/2017

domingo, 18 de junho de 2017

A Revolução das Máquinas (Uma fábula moderna)


A REVOLUÇÃO DAS MÁQUINAS (uma fábula moderna)
“As criaturas de fora [da sala] olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco”.― constatavam os demais bichos que os porcos, tendo assumido ditatorialmente o poder após a revolução dos bichos que expulsara os donos da fazenda, seus exploradores, agora adotavam os vícios dos humanos e confraternizavam com eles num festim de falsidades, jogatina e bebedeira (George Orwell, em sua fábula política A Revolução dos Bichos).

“Se o seu problema é isto, disque 1; se é isso, disque 2; se é aquilo, disque 3, se é mais aquilo, disque 4; se é... disque 7; para repetir o menu de opções, disque 8; se quiser falar com um de nossos operadores, disque 9”. Continua a voz gravada: “Um momento, que estaremos transferindo sua ligação". ― ouve-se uma musiquinha. A ligação cai. Nova tentativa: “Se o seu problema...”. ― cai, outra vez. Mais uma tentativa, escuta-se o menu eletronicamente fornecido. Atende, finalmente, uma voz humana, ao vivo: “SENHOR, em que posso ajuda-lo”? ― o suplicante explica claramente o seu problema. A atendente não entende. O suplicante repete uma, duas, três vezes, e a atendente: “SENHOR..., SENHOR..., SENHOR...” ― ela não se conecta com a pergunta. “Já expliquei três vezes qual é o meu problema” ― se enfurece o suplicante. “SENHOR, um momento que estaremos transferindo a sua ligação para outra atendente”. ― a outra atendente: “Um momento que estaremos verificando a sua reclamação”. “SENHOR, o seu problema somente poderá estar sendo tratado pelo nosso site”. “Mas eu já entrei no site, e lá está dito que esse problema só pode ser atendido pela Central de Atendimento”! ― “SENHOR, um momento que estaremos gerundizando o protocolo de sua reclamação”. ― uma espera. “Queira anotar o número do seu protocolo: 6666666666; a Operadora Demoníaca agradece a sua ligação e lhe deseja uma boa tarde”. ― ligação encerrada. Ao ter sido passado do atendimento automático para a voz humana, da voz humana para a máquina, da máquina outra vez para a voz humana, para o suplicante já era impossível distinguir quem era homem, quem era máquina. (fábula a partir de uma reflexão do meu irmão Paulo Sergio).