quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A TOCA - de Franz Kafka


A TOCA, de Franz Kafka

“Estou com medo, traumatizada mesmo, de sair na rua”, diz moradora.
“Com medo, moradores se impõem um toque de recolher.” As pessoas se entrincheiram em prédios cercados por grades de metal e munidos de sistemas eletrônicos de segurança. (do cotidiano de nossa cidade).

O animal um texugo? Uma toupeira? Kafka não especifica ― sentindo-se ameaçado, construiu a sua toca, uma obra astuciosa, ramificada em um verdadeiro labirinto de caminhos subterrâneos com a finalidade de proteger o seu construtor.
A ligação da toca com o exterior se faz por meio de muitos orifícios estreitos, tubos de ventilação, com a finalidade de permitir a entrada do ar em seu interior. Apenas uma entrada dá acesso ao sistema de caminhos subterrâneos. As demais entradas são falsas, para ludibriar intrusos. Mas essa entrada verdadeira é um ponto de vulnerabilidade da toca, um caminho por onde inimigos poderiam ter acesso ao labirinto e atacar o animal entocado.
Para corrigir esse calcanhar de Aquiles em seu sistema defensivo, o animal disfarça essa entrada cobrindo-a com uma camada de musgo e plantas e constrói para despistar uma entrada falsa, a cerca de mil passos da verdadeira, e que não conduz a parte alguma. Para certificar-se da eficiência do disfarce, o animal de tempos em tempos sai de sua toca para o exterior e procura buscar alguma eventual falha em seu sistema. Contudo, o medo de que essas suas saídas pudessem ser observadas por inimigos que, dessa forma, identificariam a verdadeira entrada para o labirinto, o animal vai reduzindo suas saídas, até quedar-se em definitivo em seu abrigo. Por algum tempo ele experimenta momentos de tranquilidade, propiciada pela constatação de que suas provisões são fartas.
Mas essa tranquilidade dura pouco, logo ele se entrega novamente à sua paranoica preocupação com segurança conferência do sistema de defesa, a disposição dos corredores e a localização das reservas de víveres. Ao imaginar fraquezas, põe-se laboriosamente a mudar de lugar suas provisões, a alterar o traçado de alguns corredores ou a ampliar o espaço da praça central do esconderijo. É uma faina tão desesperada, a cavar com o focinho, que este até sangra. Mas, todo esse trabalho não lhe traz segurança, permanece sentindo-se em risco. E já então não teme apenas os inimigos externos à toca, pois escutou que existiriam seres que vivem no interior da terra e que, a qualquer momento, poderiam surgir das profundezas para ataca-lo.
Eis que ouve um ruído estranho, até então não percebido, e que com certa regularidade volta a soar. Pensa que talvez seja o ruído próprio da circulação do ar pelas galerias subterrâneas, ou, porventura, produzido pela movimentação de pequenos animais, como insetos. Mas o desconhecimento da causa do estranho ruído tem um efeito assustador sobre o animal, que passa, inclusive, a imaginar se ele não seria o aviso da aproximação dos seres do interior da terra.
Finalmente acaba se convencendo de que o ruído é proveniente da escavação de um outro animal, e tenta confortar-se imaginando que poderia ser possível um entendimento com o invasor: lhe ofereceria comida e ele então o deixaria em paz. Desgraçadamente, no entanto, esse outro hipotético animal nunca aparece, o que continua é o ruído misterioso, que não aumenta nem diminui de intensidade.
Qualquer semelhança do drama vivido pelo animal kafkiano com o dos habitantes do Rio de Janeiro de hoje não é mera coincidência.


A resenha por mim apresentada é, por sua vez, feita a partir de uma resenha escrita por Leandro Konder, brilhante pensador social, já falecido, em seu livro KAFKA – Vida e Obra (José Álvaro, Editor, 1968) do conto que foi um dos últimos escritos por Kafka, talvez o último, e que permaneceu inacabado, o que em nada sacrifica a mensagem nele transmitida. Neste brilhante livro Konder, a partir dos contos mais significativos do grande escritor, analisa suas relações com a família, suas ideias políticas, o drama da solidão, o tema da alienação e outras facetas do atormentado escritor tcheco precocemente falecido (1883-1924).

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